Cultura

Texto dedicado ao lançamento do livro “Butá Kloson ba Londji”

TEXTO DEDICADO AO LANÇAMENTO DO LIVRO “BUTÁ KLOSON BA LONJI”, DE LUÍS GUILHERME VIEGAS – CATANHEDE, COIMBRA, 18 DE MAIO DE 2019

Quando, há cerca de ano e meio, Luís Guilherme Viegas me deu a conhecer o projecto de que emanaria a obra cujo lançamento temos hoje o grato prazer de testemunhar, conseguiu algo que, nas idades como a minha, se pode considerar como pouco plausível: a agradável surpresa de um reencontro comigo mesmo, sujeito que estive, ao longo da obra, a um profundo sentimento de deliciosa e profunda comunhão com os valores marcantes da minha cultura, da cultura santomense.

E não terei qualquer pejo em vos afirmar que esta surpresa tinha particularmente como razão de ser o facto de nunca ter imaginado que um jovem diplomata, conotado, por um inquestionável conjunto de razões, com a presunçosa elite da capital, pudesse assumir, da forma intensa e compenetrada como o fez Luís Guilherme Viegas, a difusão da nossa música popular, quando se reconhece o sentido de algum repúdio que vem contrapondo o sector mais culto dos santomenses aos seus valores culturais.

Não abdicando da sua infância por terras de Bombom e influenciado pela vasta repercussão que a música popular sempre alcançou nos tempos da sua meninice, ao autor da obra não passou desde então despercebido que “a música é sempre eleita como veículo de expressão do que não pode ser dito em conversa, mas não pode permanecer em silêncio”(1). Ei-lo então que, na solidão das noites de Timor, se predispõe a ficar na história, desafiando as bizarras intenções do assimilacionismo colonial de meados do séc. XIX, traduzidas na aplicação de medidas contrárias à assumpção pelos santomenses das suas raízes culturais.

Destacava-se, dentre elas, “a proibição do uso por essas elites, já de si bastante europeizadas, do crioulo forro, cientes como estavam as autoridades colonialistas da importância decisiva do arquipélago no processo de acumulação primitiva do capital nas suas possessões africanas” (2).
Considerou então Luís Viegas que estavam reunidos os condimentos para um percurso abrangente ao mundo da música típica santomense, no caso vertente através de um cancioneiro onde pontificam, desta feita, os famosos agrupamentos “Leonino” e “Os Úntues”, peças exponenciais que foram de atracção sobretudo do público afecto ao Sporting Clube de S. Tomé.

Chegados aqui, impossível se torna, de facto, escamotear uma realidade que claramente se evidenciava aos olhos dos santomenses na época: um certo sentido de perfilhação e descendência, que parece ligar a estória dos dois agrupamentos musicais, encontrou indesmentível reforço no tipo de agremiação desportiva que ambos elegeram como espaço privilegiado de actuação e de que foram insignes colaboradores.

E isto porque o Sporting Clube de S. Tomé, associação desportiva criada em 1912, para além do destacado papel então assumido na cena desportiva santomense, se empenhou na luta pela consciencialização dos santomenses para a defesa, preservação e afirmação dos valores determinantes da sua idiossincrasia crioula.

O paradigma assim definido marcou indelevelmente a produção tanto do “Leonino” como de “Os Úntues,” caracterizando-os na sua época como os vanguardistas na acção de recrear a massa dos seus admiradores e utilizar a música como arma de arremesso contra o jugo colonialista.

Disse algures um poeta amigo “que nem sempre é doce regressar aos recantos da infância, às antigas florestas dos sonhos, às raízes da alegria” (3), e Luís Viegas, ao trazer agora à luz estes versos, parece não ter sido capaz de se subtrair à emoção que envolve tal percurso, ao afirmar, ele próprio, que “ hoje, quando exponho os ouvidos a determinadas músicas dos tempos da minha infância … desencadeiam-se reminiscências do meu passado e revisito nostalgicamente algumas circunstâncias há tanto adormecidas …” (4).

Nele se pressente, por outro lado, a intenção de divulgar a abordagem que compositores e intérpretes faziam do sentir santomense, através de mensagens revestidas de um acentuado tom de escárnio e de crítica social de complexa interpretação – porque assente numa rede intrincada de provérbios que lhe dificultava o entendimento -, exprimindo o amor, o ciúme, os conselhos sobre prudência e bom senso, mas sobretudo o vigoroso protesto contra a situação de dominação com que se confrontava o país.

Tudo isso, tendo como indeclinável suporte o crioulo forro (a mais envolvente das línguas nacionais), cuja marginalidade se vem com o tempo acentuando, o que facilmente se comprova pelo estatuto da mais completa inferioridade a que vimos relegando, marginalizando e colocando em risco de extinção idiomas com antecedentes ancestrais, que constituem marcas específicas da nossa identidade crioula e cuja estrutura e léxico se revelam de extraordinária e inegável riqueza histórica, metafórica e semântica.

Contrariamente ao que nos declara o autor, porventura por modéstia – quem o conhece nele facilmente detecta tal qualidade – Butá Kloson Ba Lônji constitui uma obra a todos os títulos importante, um notável tributo de reflexão e respeito pelo acervo cultural do povo santomense, forjado, como se sabe, por um profundo caldeamento de povos, culturas e civilizações díspares e muito marcado pelas também profundas alterações que ocorreram na estruturação dos grupos sociais do país com o regresso dos portugueses, no início do século XIX. Tais vicissitudes históricas terão, pois, contribuído para dar azo à matriz civilizacional que temos hoje o deleite de ostentar.

A esse propósito, é pertinente recordar Frederico Gustavo dos Anjos, para quem “…fenómeno de globalização, sim, … entramos todos nele, cada um dá a sua quota-parte, mas cada um com as suas especificidades, o seu rosto, … com uma política cultural devidamente sólida…”(5). Ou seja, através do desenvolvimento de uma política cultural que tenha em conta as particularidades do nosso complexo tecido social.

Não deve prevalecer em nós qualquer dúvida: desde à escolha do título, Luís Viegas demonstrou estar atento à necessidade de salvaguardarmos a singularidade que nos garante como povo, considerando importante o conjunto dos elementos que vêm congregando para a sua afirmação, processo em que ganha vulto a música popular, sempre a nos fazer recordar “que não há pior solidão do que a do homem alienado de si mesmo”.

É esta a despretensiosa apreciação que faço desta obra, a que estive de bom grado ligado, pelas razões anteriormente expostas. Ocorre por isso dizer-vos que a apresentação que dela fiz mais não passa de um mal alinhavado tributo ao seu autor, através da qual procurei alertar para o fascínio que me causou deparar e conviver com a poesia popular que tanto encantou os amantes da música santomense do seu tempo. Em suma, um encontro de reflexão e de partilha com agrupamentos musicais que faziam da coerência uma bandeira e da proximidade ao povo o seu ideal.

Espero finalmente que o presente cancioneiro musical (a que não foi, infelizmente, agregado qualquer som) possa contribuir para que renasça, particularmente nas novas gerações, a empatia para com a música nacional, consciente como estou do seu extraordinário papel na tessitura do país, enquanto um dos símbolos mais marcantes da sua coesão social.

Aguardemos, pois, pelos próximos volumes, com a salutar expectativa que este em nós foi capaz de despertar.

MUITO OBRIGADO

NOTAS

Luís Guilherme Viegas – Butá Kloson Ba Lônji, Nota Introdutória, pág. 12.
António Carlos Gomes Moreira – Colonização Portuguesa e Assimilacionismo – Cabo Verde.

Eduardo Bento – Sinopse do romance “Ao Cair da Noite”, de Albertino Bragança

Luís Guilherme Viegas – Butá Kloson Ba Lônji, Nota Introdutória, pág. 13.
Frederico Gustavo dos Anjos – in.

Trabalho de Projecto de Mestrado em Museologia, de autoria de Inês Filipa Abreu Castaño.

Albertino Bragança

    3 comentários

3 comentários

  1. MIGBAI

    22 de Julho de 2019 as 9:16

    Porque será que teimam os velhos no saudosismo.
    Porque será que não acompanham a evolução do mundo.
    Porque será que os saudosistas, continuam a querer escrever com papel químico, para fazerem cópias ignorando a existência das fotocopiadoras.
    Deixem por favor as gentes novas, adaptarem-se aos tempos modernos para serem competitivos.
    Não imponham por favor o antigamente, pois esse, já é antigo e desadequado aos tempos actuais!!!

  2. maria chora muito

    23 de Julho de 2019 as 2:17

    Excelente texto Albertino. Parabéns

  3. Chang de Taiwan

    23 de Julho de 2019 as 13:49

    Boas palavras de Dr. Albertino Bragança, parabens para Embaixador Luis Viegas, e viva clutura santomense !

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