Cultura

“Quem Somos Nós?” III Parte

Nesta terceira parte, destaca-se o momento em que os nacionalistas são-tomense perdem as suas terras, conquistas durante 2 séculos, a favor novamente dos colonos. Cada paragrafo do artigo em causa, permite ao cidadão são-tomense, descobrir a si próprio, e entender a génese de vários fenómenos sociais e até mesmo políticos que se repetem na actualidade.

III PARTE

A introdução em S. Tomé do cacau e do café nas duas primeiras décadas do século XIX, ligada em grande parte à revolução social que levara à abolição do trabalho escravo, provocou uma autêntica revolução na estrutura social do país.

Ansiosos de terra para produção desses preciosos bens, cujos preços eram cada vez mais elevados no mercado internacional, agricultores portugueses, apoiados pelo capital financeiro do seu país, conseguiram terras pelos meios mais fraudulentos (roubo de terrenos por desvio das marcações, compra a preços descaradamente baixos, etc.), criaram as grandes roças, conduzindo progressivamente à pobreza e marginalidade a importante elite dos filhos da terra. “Apesar da persistência de roças nas mãos dos ilhéus, eles não deixaram de perder posições económicas, como o atestam, por um lado, o decréscimo da quota indígena na exportação da colónia e, por outro, a concentração em dez roças de parte substancial da mão-de-obra. Com efeito, em 1908, dos 272 proprietários que declaravam ter ao seu serviço 28024 serviçais, 19 teriam nas suas roças 14866 serviçais, número que, mesmo exagerado, era indício bastante de concentração de riqueza.” (14)

De facto, a implantação da nova estrutura económica, apoiada sobretudo pelo Banco Nacional Ultramarino, em situação da mais completa hostilidade para com os filhos da terra, a quem era em absoluto negada a possibilidade de crédito, afectou drasticamente as condições de vida da elite local, tendo conduzido assim para a marginalidade a camada mais relevante dos naturais das ilhas, os membros da qual “ à medida que a nova norma económica ia estremando as classes sociais, decaíam como grupo económico importante, aproximando-se como elemento desfavorecido dos antigos libertos, ou seja, dos forros. Não tardaria assim que a palavra forro passasse a designar todos os indivíduos, mulatos ou negros, naturais da ilha. (15)

Este novo realinhamento dos grupos sociais, que marcou de forma assinalável o declínio da classe dos proprietários mestiços e negros, naturais das ilhas, contribuiu no entanto para entrosar e reforçar neles o sentimento de pertença ao espaço que os viu nascer, fazendo aflorar, agora com mais nitidez e fulgor, os elementos consubstanciadores da sua identidade como povo, ou seja, a sua são-tomensidade.

Se pode parecer que me abalancei demasiado em matérias de natureza histórica, há que entender que só isso nos permitirá reflectir sobre o processo de formação da identidade santomense e conhecer os elementos que se foram paulatinamente congregando para a sua determinação.

Daí que nesta abordagem sobre as nossas origens, nos vejamos obrigados a abordar um importante aspecto da estratégia de dominação utilizada pelos colonialistas, nos inícios do século XX, contra a elite santomense, a qual terá sobremaneira estado na origem das actuais contradições entre esta e determinados aspectos da sua cultura – o assimilacionismo.

Frise-se que anteriormente, no complexo processo de colonização de S. Tomé e Príncipe, os diversos grupos postos então em contacto, não obstante as características culturais que os distinguiam, estabeleceram entre si relações assentes na seguinte trilogia: uma comunicação corrente na base do crioulo forro, que, segundo Francisco Tenreiro “esteve sempre presente nas relações económicas entre filhos da terra e europeus e foi ainda o veículo das relações de amorabilidade entre homens e mulheres de grupos sociais diferentes; linguagem do comércio, linguagem do amor e primeira língua que as crianças aprendiam com o leite”; a religião, ou seja, o catolicismo, desde logo entendido pelos escravos negros, gente desenraizada e de proveniências diversas, como algo que diminuía a dor e o sofrimento de que eram acometidos; por último, a mestiçagem que fez elevar sobremaneira a população nativa, estimulada é certo pela ordem do próprio rei “uma mulher negra a cada um, para dela se servir e para a dita ilha povoar”, mas que cedo foi ultrapassada pelo facto de as doenças palúdicas, que dizimavam sobretudo os estrangeiros, desmotivarem a vinda de mulheres europeias, restando o recurso às mulatas ou às negras que, na opinião de Francisco Tenreiro, “fizeram muito mais pela harmonização das gentes que as medidas legislativas …” (16)

Assim, durante mais de três séculos o crioulo forro foi língua franca que permitiu a comunicação entre os diversos grupos, na conjuntura política e económica dos finais do século XIX, marcada pela feroz luta pela posse da terra e a forte incidência dos capitais portugueses atraídos pelos elevados preços do cacau e do café.

Pelo facto de S. Tomé e Príncipe ter sido sempre território de imigração e de culturas de alto rendimento económico e ocupar, por isso, a posição mais destacada, dentre as então colónias portuguesas, na comparticipação no orçamento da Metrópole, tornava-se necessário impor às elites letradas santomenses, em particular as que foram emergindo no funcionalismo público pela necessidade de quadros subalternos para o exercício da vida administrativa, os valores dominantes do colonialismo, em detrimento dos seus próprios.

Decidiram-se então as autoridades coloniais, no âmbito da política do assimilacionismo, pela aplicação de algumas medidas redutoras da assumpção pelos santomenses das suas raízes culturais, destacando-se, dentre elas, a proibição do uso por essas elites, já de si bastante europeizadas, do crioulo forro, cientes como estavam da importância decisiva do arquipélago no processo de acumulação primitiva do capital nas suas possessões africanas.

Assim se garantia a adesão e fidelidade dessas elites aos objectivos de usurpação prosseguidos pelo regime, sendo que, receosas da perda eventual dos raros privilégios que ainda lhes restavam, elas passaram a banir do seu seio o crioulo forro e a proibir o seu uso no ambiente doméstico.

Por estranho que possa parecer, tal fenómeno foi-se projectando com rara persistência até à actualidade, o que facilmente se comprova pelo estatuto da mais completa inferioridade a que vimos relegando ainda hoje as línguas nacionais em relação ao Português, marginalizando e colocando em risco de extinção idiomas com antecedentes ancestrais que constituem marcas específicas da nossa identidade crioula e cuja estrutura e léxico se revelam de extraordinária e inegável riqueza histórica, metafórica e semântica.

Albertino Bragança

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