Cultura

“Quem Somos Nós?” – IV PARTE

IV PARTE

Os ideais e a luta das forças que conduziram em Portugal à implantação da República em 5 de Outubro de 1910 e os emergentes movimentos protonacionalistas dos estudantes africanos dos inícios do século XX, a favor do homem negro, conduzidos na sua grande maioria por estudantes santomenses – filhos da elite santomense, – tiveram como consequência o advento de um grande movimento associativo no arquipélago.

É desse tempo, dentre outros, a criação pelos nativos, em S. Tomé, da “Caixa Económica de S. Tomé “ (1905), do Grémio de S. Tomé (1906), da famosa “Liga dos Interesses Indígenas de S. Tomé e Príncipe” (1910), de algumas associações recreativas, desportivas e de lazer e, em 1912, o Sporting Clube de S. Tomé.

O surgimento dessas instituições e a prática associativa a que se dedicaram traduziram-se num importante factor que viria a dar lugar às primeiras afirmações identitárias dos santomenses, o que levaria Augusto Nascimento a afirmar que “ o associativismo santomense nos primeiros decénios de novecentos serviu de interface nos planos social, político e simbólico com os europeus e com o mundo” e que “o lazer passou a ser elemento de estratégia da elite nativa de alargamento da influência de associações várias e, depois, de elemento identitário de contornos raciais e políticos. Na verdade, na medida da crescente adversidade do poder colonial e dos europeus aos credos nativistas, o lazer tornar-se-ia uma etapa da promoção de uma identidade dos filhos da terra…Assim, na década de 1920, nasceriam associações de recorte racial promovidas pela elite nativa empenhada em realizações atinentes ao progresso espiritual dos seus conterrâneos e, em geral, da raça negra”. (17)

Merece, sem dúvida, destaque dentre essas associações, o Sporting Clube de S. Tomé, nascido em 1912, pelo destacado papel na consciencialização dos santomenses para a defesa, preservação e afirmação dos valores consubstanciadores da sua identidade. Uma associação desportiva que foi muito para além desse âmbito, e que constituiu indesmentivelmente o baluarte seguro do pensamento independentista que conduziria o povo santomense ao 12 de Julho de 1975.

É também no quadro da plena fermentação desse sentimento de pertença a uma comunidade bem específica que ocorrem os acontecimentos de Fevereiro de 1953, provocados pela agudização do eterno problema da mão-de-obra e pela resistência do povo santomense na defesa intransigente da sua liberdade e dignidade.

O carácter abrangente de que os mesmos se revestiram, em termos do número de santomenses submetidos às prisões, torturas e demais sevícias dos colonialistas, contribuiu para reforçar esse embrião gregário e específico, que mais não é do que o sentimento de uma nação há já alguns anos em forja.

A esse propósito, referindo-se à realidade cabo-verdiana, o sociólogo Camilo Querido da Graça afirma que “ o cabo-verdiano possui uma identidade étnica e cultural mestiça, evidenciando-se uma “disputa” entre uma produção cultural com traços eminentemente negro-africanos e outra que se pode caracterizar mestiça” (18).

Considerando embora as especificidades do processo de formação identitária dos dois arquipélagos, é crível dizer-se que o conceito encontra pleno cabimento em S. Tomé e Príncipe, onde o sentimento de nação convive com notórias diferenças, indefinições e ambiguidades e as vivências culturais da elite e da maioria do povo se demarcam de forma assaz preocupante.

Vivemos como que atormentados por uma luta surda entre os factores determinantes da nossa idiossincrasia crioula, em que os traços negro-africanos tendem a ser subalternizados a favor da sua componente mestiça, como que forjando em nós a angustiante situação que terá levado um conhecido poeta português a afirmar que “não há pior solidão de que a do homem alienado de si mesmo”.

Albertino Bragança

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