Cultura

Homenagem a Francisco José Tenreiro (1921-1963): por que não um tratamento justo?

Considerado como um dos maiores pensadores são-tomenses do século XX, senão o maior, o geógrafo Francisco José Tenreiro fará, no dia 20 de janeiro, mais um aniversário da data do seu nascimento.

Como tem sido habitual, por esta ocasião, prestam-lhe homenagem lembrando o seu importante contributo e brilhante curriculum vitae.  Veja-se, por exemplo, o artigo de Albertino Bragança com o título «Francisco Tenreiro: A angústia de um poeta dividido», publicado no Téla Nón, 20 de janeiro de 2022. Aqui, como noutros lugares, é lembrado como um grande poeta são-tomense, mas também como um académico, que, aliás, dedicou mais do seu curto tempo de vida ao ensino (superior) e à investigação científica. Foi professor do Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina, atual Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa. O livro (científico) com o título «A Ilha de São Tomé», publicado em 1961, é a sua tese de doutoramento.   

Por que razão proponho um tratamento justo ao geógrafo Francisco Tenreiro?

Na minha última visita à ilha de São Tomé, em outubro de 2022, por ocasião do lançamento do meu livro de História de São Tomé e Príncipe, publicado em novembro de 2021, ao passar junto da Biblioteca Nacional, fiquei estarrecido ao verificar que Francisco Tenreiro foi amputado na sua dimensão académica e científica pelas autoridades são-tomenses que fixaram no seu busto, certamente por descuido, um grau académico que não é o seu.  Além disso, é muito inferior.

Tenreiro não é licenciado em nenhuma das áreas das ciências sociais ou humanas, pelo que não fica bem ser chamado de Dr. como consto na imagem em cima. Tenreiro não só é licenciado em engenharia geográfica como também tem um doutoramento nessa área e foi professor universitário.  Por ter feito o doutoramento, o seu grau académico é doutor (por extenso).

Quando o doutorado (aquele que tem um doutoramento) é professor universitário, é habitual distingui-lo com o tratamento de professor doutor. Assim, é exigível que fique no seu busto a seguinte designação: Prof. doutor Francisco José de Vasques Tenreiro. Chamar Dr. a um Prof. doutor é inaceitável. Compreende-se, por isso, que não é possível manter um tal tratamento de menoridade a Francisco Tenreiro porque significa apagar aquilo que ele construiu com as suas próprias competências, capacidades e mérito. Significa diminuir a sua importância o que menoriza a história e cultura de São Tomé e Príncipe.

Armindo de Ceita do Espírito Santo, CEsA/ISEG-UL e Ipluso/ULHT

11 Comments

11 Comments

  1. Sem assunto

    19 de Janeiro de 2023 at 7:27

    É para isto que vocês servem, vaidosos! Exaltadores de títulos e grau academicos. A quem isto beneficia?
    Francisco José Tenreiro é mais útil para a propaganda portuguêsa do que a santomense, basta verificar que o mesmo foi autor de uma teória contraversa que visava limpar as mãos sujas do imperlismo portugues, o denominado luso-tropicalismo. Esta artimanha surgiu numa altura em que as autoridades internacionais pressionavam portugal no sentido de libertar os paíse sob o seu jugo, ademais 7 anos após o massacre de Batepá.
    Nele o supracitado autor relativiza e romantiza grotescamente presenca colonial nas ilhas quando na verdade nas roças ainda imperavam chicote e torturas.
    Este sujeito na verdade deveria ser retirado o seu nome e o seu busto na bibliotéca nacional, pois estava ao serviço da secreta portuguesa, para tanto chegou até a ser deputado na altura.
    Por que nos toma, Armindo Ceita?

    • Rei Amador

      20 de Janeiro de 2023 at 8:34

      Eu odeio Portugal. A autoridade racista Portuguesa matou o nosso conterrâneo Nuno Xavier por vazões de meia tigela. Estarei permanentemente rancoroso contra Portugal até a morte.

      Rei Amador

  2. Jorge Trabulo Marques

    19 de Janeiro de 2023 at 13:53

    Considerado o primeiro poeta da Negritude de língua portuguesa, Ilha de Nome Santo é, porém, poesia eminentemente insular, não obstante os “3 poemas soltos” cuja estética está em consonância com a dos poemas dos anos 1950, revitalizadores de figuras, signos e símbolos emblemáticos do mundo negro-africano e vinculados aos modelos tutelares da consciência negra nos Estados Unidos, Cuba ou Haiti e redimensionados pelo movimento da Negritude. Assim, tal como os “3 poemas soltos”, incluídos em Ilha de Nome Santo, a saber “Epopeia”, “Exortação” e “Negro de todo o Mundo”, os poemas negritudinistas de Coração em África evocam, para estigmatizar, a desagregação e a dispersão absoluta do povo negro, a tristeza, a melancolia e a martirizada submissão do negro da diáspora. Expressão pungente das realidades do mundo negro-africano, esses aspectos conjugam-se com a dimensão do orgulho da raça, da exaltação cultural expressa pelo invocacionismo das entidades simbolicamente apreendidas como genésicas e cosmogónicas (Mãe-Terra/Tellus) e pelo evocacionismo ancestral, configurado no retorno às origens e na concepção redencionista da vida, em forma de esperança e certeza, aliás uma dimensão configuradora da estética negritudinista. –

    Para os ignorantes e racistas, como o demonstra comentário anterior, sugiro que consulte esta informação https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/Lit-Afric-de-Ling-Port/Lit-Santomense/Tenreiro

    • Zé Cangolo

      20 de Janeiro de 2023 at 8:36

      Portugal é uma merda. Os Portugueses são excrementos humanos da Europa—-porcaria. Eles tratam os países da língua oficial portuguesa como se fossem inferior; sem importância, sem qualidade, sem utilidade.

      Aquele fulano Francisco José Tenreiro escreveu e fez poesias com o objetivo de alcançar liberdade total para os negros? Supostamente não!
      Qual foi o resultado político, economico, social e de desenvolvimento que as escrituras dele deu para o proveito de São Tomé e Príncipe o seu povo humilde e pobrezinho?

      O Francisco José Tenreiro andou lá em Portugal a lamber os rabos dos pulas.

  3. José da Costa de Costa

    19 de Janeiro de 2023 at 18:42

    Tenreiro não pediu a ninguém para ser homenageado, nem ninguém da sua família fez esse pedido. Ninguém é perfeito. Ele foi sim um luso-tropicalista num contexto histórico severo para os negros (os mestiços também negros) onde a segregação racial Salazarista foi cruel. Mas ele sempre valorizou a sua terra natal, morreu com a ilha de São Tomé no seu coração. Escreveu muito sobre São Tomé, com amor e sentimento. Dizer que ele estava ao serviço da secreta portuguesa é uma maldade. O que se sabe é que ele e os outros nacionalistas foram perseguidos pela PIDE. O que o senhor Armindo pede é para corrigirmos o erro. Um engenheiro geógrafo não pode ser confundido com um Dr. Se nós não formos capazes de aceitar e corrigir os nossos erros, então como conseguiremos evoluir, nunca. O senhor “Sem Assunto” fala como se fosse dono dos são-tomenses, não acha isso uma falta de respeito?!… Acredito que as atuais autoridades do País irão corrigir o erro e repor a verdade sobre quem foi Francisco Tenreiro. Recordo que ele foi escolhido pelo Estado São-tomense como um símbolo nacional.
    Vamos ser humildes, minha gente, a humildade ajuda a progredir. A ignorância, o ódio, a vingança e a inveja levam-nos ao atraso, ao abismo.

    • Forro Zé Mulato

      20 de Janeiro de 2023 at 8:38

      Com Portugal nós não arrancamos. Basta!

    • Ceita

      20 de Janeiro de 2023 at 10:05

      Muito bem visto Armindo do Espírito Santo, obrigado pela chamada de atenção.
      Precisamos de corrigir os nossos erros para evoluirmos, caso contrário ficámos no chão.atrasado.

  4. Antonio Nilson

    20 de Janeiro de 2023 at 0:24

    Portugal é uma fonte de atraso ao desenvolvimento de São Tomé e Príncipe, e os países PALOP.
    Esclarecimento: Nós não somos melhores do que ninguém neste planeta. As nossas diferenças são que temos diferentes lentes e perspectivas ao longo de nossas experiências de vida. A vida é uma série de concessões, mas nunca se deve comprometer a integridade. Portugal concede a dependência e subjugação dos Africanos para o domínio Europeu. A nossa integridade como Africanos seria aprender como formar unificação pacífica, com respeito mútuo, e sobretudo reformular um espírito de colaboração entre nós; nomeadamente, viver dentro das nossas possibilidades e procurar um desenvolvimento sustentado sem interferência dos pulas.
    Os corruptos e aqueles que saquearam e saqueiam a coisa pública em África; essas gentes não têm integridade alguma. São eles que ajudam Portugal à nos atrasar. Por exemplo, Angola não conseguirá singrar enquanto estiver sob ordens do Regime do Estado Português.
    Como é que vamos recuperar para manter a nossa integridade enquanto os pulas não reconhecem a nossa dignidade como Africanos?
    Eu pessoalmente não tenho nada contra Portugal. Cada país tem seus os interesses. Apenas descordo com essa dinâmica de atraso que existe entre Portugal e PALOP.

    Sem Assunto escreve: “Francisco José Tenreiro é mais útil para a propaganda portuguêsa do que a santomense, basta verificar que o mesmo foi autor de uma teória contraversa que visava limpar as mãos sujas do imperlismo portugues, o denominado luso-tropicalismo.”

  5. Sem assunto

    20 de Janeiro de 2023 at 4:20

    Conhencem tão bem a história? Fantastico!
    Então digam me o porquê de o mesmo ter sido, na altura, rejeitado pelos seus pares negros? Ele trai-os alinhando-se aos opressores.
    Proponho vos que façam uma ánalise psicologica do sujeito em causa. O Francisco José Tenreiro na verdade criou as suas poesias, sobre são tomé, numa altura de tédio e isolamento, pois estes ensaios não passavam de uma quiméria juvenil, de modo que assim que se ajeitou e conheceu a alta roda do poder abandonou tudo aquilo.
    Esta é a realidade núa e crúa.
    Sobre o Estado são tomense ter lhe escolhido ou não, é irrelevante, afinal este Estado nunca foi assertivo em nada.

  6. Mezedo

    20 de Janeiro de 2023 at 10:51

    assim vai a nova maioria com vingança, odio, rancor e perseguição, rumo a desgraça total.

  7. Gerhard Seibert

    20 de Janeiro de 2023 at 10:54

    Numa sociedade republicana e democrática do século XXI a titulomania parece-me antiquada e inadequada. O nome da pessoa com as datas de vida são suficientes.
    Mais relevante no caso concreto seria completar a biografia de Tenreiro conforme os factos históricos: poeta, geográfo e deputado da Assembleia Nacional do Estado Novo (1958-63).
    Sobre a vida e obra de Tenreiro recomendo ler o livro organizado por Inocência Mata, Francisco José Tenreiro. As multiplas faces de um intelectual. Lisboa: Colibri, 2010.

    Gerhard Seibert

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