Convidou-me o Ministério da Educação e Cultura para, na data em que se comemora o 82º aniversário do nascimento do Dr. Francisco José Vasques Tenreiro, conversar convosco sobre esta importante figura de poeta, contista, ensaísta, geógrafo, professor universitário e intelectual de primeira grandeza no panorama literário português e africano dos meados do século passado.
Perante tão ingente desafio, meditei com alguma ponderação se devia ou não aceitar o convite, já que me estava a ser proposto abordar uma personalidade de extraordinária dimensão no processo de consciencialização política e cultural empreendido pelas elites africanas em Portugal nas décadas que imediatamente antecederam a luta armada de libertação nacional, processo que terá contribuído decisivamente para o seu desencadeamento.
Duas razões me levaram contudo a aceitar o convite: primeiro, porque considero extremamente gratificante esta possibilidade de dialogar convosco, com a juventude estudantil, acerca de questões como a que ora nos serve de pretexto para este encontro, que pela sua raridade aconselhava desde logo não recusar, na perspectiva, quem sabe, de se constituir no ponto de partida de um relacionamento mais regular entre os homens de cultura ( escritores, poetas, artistas plásticos, músicos e outros ) e as camadas estudantis, como parece ser finalmente propósito das autoridades nacionais, preocupadas com o distanciamento actualmente existente entre os dois grupos ; segundo, porque ainda que seja espinhosa e timorata a incumbência, constitui sempre um renovado prazer rever a pessoa e a obra do incomparável poeta da Negritude que foi Francisco José Tenreiro.
A minha aceitação decorre ainda do facto de ter conhecido e convivido muito jovem ainda e em circunstâncias muito especiais com Francisco Tenreiro aquando das suas visitas a S. Tomé, particularmente em 1961, frequentava eu então o antigo 5º ano dos Liceus. Um feliz acaso – o pai do poeta, Emílio Vasques Tenreiro e o meu pai trabalhavam juntos no escritório da firma Elias Lopes Rodrigues (actualmente Agência Funerária), de que o primeiro era administrador e sempre que viesse a S. Tomé F. Tenreiro passava quase que invariavelmente as tardes no escritório, lendo e escrevendo. E eu, um jovem de17 anos, ao mesmo tempo em que estudava, habituei-me a observar, com requerida atenção, aquele homem alto, de porte altivo e de fino trato, a escutar a sua voz amigável e franca, sempre que, timidamente, lhe pedisse qualquer esclarecimento a propósito desta ou daquela matéria de estudo.
Foi ainda nessa época que tomei contacto com o enorme acervo de conhecimento e de saber de Francisco José Tenreiro, por ocasião de uma conferência por si proferida no então Colégio-Liceu (hoje Escola Preparatória Patrice Lumumba), subordinada a um tema ligado à Geografia Humana, de que era especialista: Tenreiro falou, de improviso, durante cerca de duas horas, deixou entusiasmada e encantada a assistência, constituída por altas individualidades, professores e alunos dos anos mais avançados, a ponto de, na primeira aula subsequente ao evento, a professora de Geografia, por nós considerada uma eminência na matéria, nos dizer em tom solene:” Ontem, sim, ontem ouvimos um Mestre “.
Francisco José Vasques Tenreiro nasceu em 20 de Janeiro de 1921, em S. Tomé, filho de Emílio Vasques Tenreiro e de Carlota Maria Amélia, santomense, trabalhadora da roça “Diogo Nunes”, propriedade do atrás citado Elias Lopes Rodrigues, o célebre Sun Fiá Malicha cantado pelo poeta num dos poemas de “Ilha de Nome Santo”
Ainda muito novo, por decisão da família paterna – pertencente à alta finança portuguesa, com fortes interesses ligados ao sector do mar e das pescas – Francisco Tenreiro foi enviado para Lisboa, onde fez os estudos primários e secundários.
Chegados aqui, considero que, para uma melhor compreensão da acção e da obra do poeta bem como do “status quo” prevalecente em Portugal quando, na década de 40, começou a emergir para o conhecimento público, se torna absolutamente necessária uma incursão pela história dos finais do séc. XIX – inícios do séc. XX -, em busca de antecedentes que possam ilustrar as principais linhas de força (políticas, sociais, culturais) então predominantes.
Antes de mais, as profundas transformações, ao nível das mentalidades, decorrentes do intenso intercâmbio de ideias e da profusão de criações literárias ocorridas no Século das Luzes e durante o Romantismo conduziram ao movimento de carácter filantrópico que, sobretudo no último quartel do séc. XIX daria azo à abolição da escravatura.
Por toda a parte começou a germinar a comum ideia de reconhecimento e valorização do passado próprio de cada povo. Nos Estados Unidos e nas Caraíbas, onde a escravatura tinha assumido um peso relevante nas respectivas economias e a mão de obra era constituída por milhões de africanos violentamente arrancados do seu solo pátrio e transferidos em condições infra-humanas para as grandes plantações de cana de açúcar, tabaco e algodão, surge, nos anos 20 e 30 do século passado o Renascimento Negro norte-americano – Black Renaissance, Harlem Renaissance ou New-Negro – “como um movimento intelectual de negros empenhados em participar na crescente valorização do homem Negro e na luta pela igualdade de direitos com os brancos… “(1)
Na literatura, destacam-se, dentre outros, nomes como os de Langston Hughes ( o mais representativo desse movimento ), Claude Mackey, Countee Cullen, William du Bois, Sterling Brown, Alain Locke e James Weldon Jonhson – dos quais Francisco Tenreiro foi o grande divulgador junto dos africanos que estudavam em Portugal – , cujas obras tiveram grande influência não apenas na comunidade afro-americana como nas Caraíbas (especialmente no Haiti e em Cuba) e se repercutiram com assinalável impacto junto dos estudantes africanos em Paris e Lisboa.
Nas Caraíbas, esse movimento para a revalorização do negro e do índio, espoliados na sua condição de seres humanos pela prepotência do homem branco, esclavagista ou de mentalidade afim, teve particular incidência em Porto Rico (através da escrita de Luís Palès Matos), no Haiti (sob o nome de Indigenismo) e a acção de escritores como Jean Price Mars e Jacques Roumain) e em Cuba, onde adoptou a designação de Negrismo Cubano e ganharam extrema relevância, entre outros, os nomes dos poetas Regino Pedroso, Marcelino Avozocena, Rodriguez Mendez e, em particular, Nicolás Guillen, escritor e compositor, com grande influência nos meios intelectuais neo-realistas, africanos e modernistas brasileiros e cuja obra ” Motivos de Son” ( 1930 ) revoluciona por completo a poesia cubana. Na América do Sul, mais concretamente no Brasil, o movimento tomou a designação de Modernismo e teve nos poetas Castro Alves, Jorge de Lima, Lino Guedes e alguns outros figuram de grande destaque.
Esse grande movimento de renascimento e de revalorização do negro, esse grito de revolta anti-colonialista que apelava à união e à solidariedade dos negros de todo o mundo e que se denominou nos seus primórdios Pan-Africanismo ( anos 10 e 20 ), chegaria à Europa através da França (1935), onde permanecia uma significativa comunidade de estudantes africanos e caribenhos, que na diáspora se manifestavam profundamente apreensivos com a situação dos negros a nível mundial. Ali ganharia o nome universalmente consagrado de Negritude (1939) e para a sua eclosão e afirmação contou com a profícua acção de escritores como Léopold Sedar Senghor (Senegal), Aimé Césaire (Martinica) e Leon Damas (Guiana), através, respectivamente, de obras como “Chants d’ Ombre”, ” Cahiers d’ un Retour au Pays Natal” e ” Pigments ” bem como dos jornais “Légitime Define ” e ” L’ Etudiant Noir” e a revista “Présence Africaine “.
Numa breve síntese, pode dizer-se que a Negritude consistia, para além de tudo, na recusa pelo negro da assimilação e, para tal, era necessário que este se reconhecesse nos elementos de uma cultura enraizada no solo nacional, orgulhar-se dela, dos seus valores. Buscava-se com ela o ressurgimento da consciência histórica, cultural e política e do orgulho de ser negro, o que contribuiu para despoletar no mundo negro um surto nacionalista sem precedentes. Considera Pires Laranjeira que pela poesia da Negritude ” perpassa a decadência da civilização ocidental, o triunfo da raça negra… o triunfo do riso, do canto e da esperança, a evocação/exaltação da Harlem Renaissance e de Paris dos anos 30 (dos negros) … Trata-se da recusa da civilização ocidental…, da evocação continuada dos negreiros e sua repressão (tema maior do sofrimento do passado), do cortejo da violência, com a consequente ameaça de revolta, o despertar da África, a reivindicação da Negritude, que levou o negro-objecto a assumir-se como Negro-sujeito.”(2)
Constituem seus temas fundamentais a exaltação ou mitificação do país distante, a ânsia de regresso à terra natal, a relevância fundamental da raça e da cor da pele, a condição do negro em África e fora dela, o país como um paraíso perdido da infância que se opõe à frieza, agressividade e decadência da cultura dominadora europeia .
Após este périplo pela Negritude e seus antecedentes, voltemos a Francisco Tenreiro que, em 1942, aos vinte e um anos e estudante na Faculdade de Ciências de Lisboa, publica “Ilha de Nome Santo “, obra que vem a lume na colecção coimbrã “Novo Cancioneiro”, afecta aos sectores neo-realistas portugueses ligados à oposição à ditadura fascista de Salazar.
Com esse livro, considerado unanimemente como o de introdução da Negritude em língua portuguesa, Francisco Tenreiro exprimiu pela primeira vez os valores negritudinistas da saudade da terra que o viu nascer e que não conhece, embora a ela ligado pelo coração, para, logo na dedicatória, se dirigir em vibrante apelo à Mãe, que pode simultaneamente ser Sinhá Carlota, S. Tomé e Príncipe e a África em geral.
Os poemas dessa primeira obra (Romance de seu Silva Costa, Romance de San Marinha, Romance de Sinhá Carlota, Canção do Mestiço, Canção de Fiá Malicha, Socopé, etc) falam de situações e de gentes ligadas à terra distante, desde o ambicioso ” pequeno português “seu Silva Costa, que chegou na ilha: calcinha no fiozinho, dois moeda de ilusão e vontade de voltar”; que “fez comércio di álcool / fez comércio di homem / fez comércio di terra” mas que hoje “virou branco grande : su calça não é fiozinho e sus moeda não tem mais ilusão”, passando pela desenraizada e desadaptada San Marinha, filha da terra, que ainda menina ” foi no norte ” e aí se habituou aos
“goles de champagne “, ou seja, aos requintes da Europa (tomados no seu sentido mais perverso) e a quem a ilha já nada tem a oferecer.
Pungente é também o “Romance de Sinhá Carlota”, dedicado à sua mãe, mas suficientemente envolvente para parafrasear todas as mães negras vítimas do destino trágico de verem perdidos os seus filhos, tanto negros como mestiços: ” teve filhos negros que trocam hoje o peixe por cachaça/ teve filhos mestiços / Uns / forros de a b c / perdidos em rixas de navalhas / Outros foram no norte / com seus pais brancos / e o seu coração / já não lembra o rostinho deles ! “.
Destaque-se nessa importante obra a exaltante e encomiástica referência aos negros de todo o mundo, à África, ao orgulho na raça e na cor, conceitos típicos e enformadores da Negritude.
A poesia de Francisco Tenreiro é um compromisso com a terra, com o processo de renascimento do homem negro e da sua civilização e bem assim com a luta contra a dominação a que este estava sujeito. É simultaneamente uma tomada de consciência e uma chamada de atenção para a existência de um importante acervo de valores insistentemente desmentido e/ou ignorado pelas teorias castradoras ao serviço da xenofobia e do racismo.
Mário Pinto de Andrade, o grande investigador, ensaísta e intelectual angolano que dedicou quase toda a sua vida ao estudo das problemáticas relacionadas com o nacionalismo africano e que com Francisco Tenreiro lançou, no emblemático ano de 1953, a obra “A Poesia Negra de Expressão Portuguesa” diria, referindo-se ao seu grande companheiro e amigo, a propósito de ” Ilha de Nome Santo ” : “É esta tomada de consciência de um património africano e de um mundo negro que particularmente se exprime em Francisco José Tenreiro… ” ( 3). Refira-se que nessa pequena antologia, para além do próprio Tenreiro, estavam representados Alda do Espírito Santo (S. Tomé e Príncipe), Nicollás Guillen (Cuba), Agostinho Neto (Angola), António Jacinto (Angola), Noémia de Sousa (Moçambique) e Viriato da Cruz (Angola). À excepção de Nicolás Guillen, os outros eram todos activos dirigentes da dinâmica acção unitária empreendida em Portugal (mais concretamente em Coimbra e Lisboa) pelos estudantes africanos.
Reconheço que falar do grande poeta santomense é correr o risco de me alongar demasiadamente, tão assoberbante foi a acção por ele desenvolvida ao longo de uma vida curta mas profundamente recheada, tanto do ponto de vista profissional, como intelectual .
Em 1944, Francisco Tenreiro abandona a Faculdade de Ciências e passa a frequentar, nos quatro anos subsequentes, o Curso Superior Colonial, no âmbito do qual se ministravam matérias relacionadas com o então chamado “Ultramar”, o que se traduziu num importante passo da sua vida, já que assim se afastava de uma via que, na opinião de Raquel Soeiro de Brito, sua amiga, companheira de curso e de magistério, ” lhe não dava satisfação plena para poder então aprofundar o seu verdadeiro interesse de jovem …: África “.
Três anos depois, ainda aluno do último ano do curso, passa a secretariar o Prof. Orlando Ribeiro, o eminente cientista português no domínio da geografia humana, no Centro de Estudos Geográficos do Instituto para a Alta Cultura. Pouco tempo depois, por sugestão daquele cientista, seguirá estudos de Geografia na Faculdade de Ciências de Lisboa.
Em 1951, com Agostinho Neto, Amílcar Cabral e Mário Pinto de Andrade, cria o Centro de Estudos Africanos, instituição considerada por muitos como passo fundamental para a concepção dos movimentos de libertação que, anos após, iriam desencadear a luta armada nos países africanos sob a dominação portuguesa. Um pormenor a salientar: o Centro de Estudos Africanos contava com a participação, entre outros, de Alda do Espírito Santo e teve como local de nascimento um prédio situado na Rua Actor Vale, nº 37, em Lisboa, residência da família Espírito Santo, de S. Tomé, que funcionou durante muitos anos como ponto de encontro por excelência dos nacionalistas africanos de língua portuguesa.
A intensa acção desencadeada na Casa dos Estudantes do Império (associação de cariz unitário fundada em Outubro de 1944 pelo Governo português visando o enquadramento político e ideológico dos estudantes oriundos das colónias mas que, ao invés disso, viria a desempenhar papel determinante na orientação e consciencialização dos estudantes africanos, na perspectiva do combate ao processo de assimilação e alienação desencadeado pelo regime fascista ), os contactos com os neo-realistas portugueses nas revistas Seara Nova e Vértice, a acção levada a cabo no Centro de Estudos Africanos, associados ao trabalho no Centro de Estudos Geográficos e às inúmeras comunicações de carácter científico proferidas em Portugal e no estrangeiro consubstanciam para Francisco Tenreiro uma actividade verdadeiramente absorvente.
Em 1955, na qualidade de bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, especializa-se em Geografia na Universidade de Londres, participa na Conferência Anual dos Geógrafos Britânicos, profere duas palestras na BBC, de Londres, e concede uma grande entrevista a essa emissora. Concluídos os estudos de Geografia, em Lisboa e Londres, é contratado nesse mesmo ano como assistente pela Faculdade de Letras de Lisboa, onde leccionará até à sua morte.
Absorvido pela actividade docente e pela investigação científica, como que põe de lado a poesia. De 1956 a 1958 faz três estadas em S. Tomé, de três meses cada, tendo em vista a elaboração da sua tese de doutoramento, que surgirá em 1961, sob a forma de uma importante obra, ” A Ilha de S. Tomé – Estudo Geográfico “. De 1960 é o belo e extraordinário poema, “Coração em África “, de forte cariz negritudinista.
Uma derradeira visita a S. Tomé, na Páscoa de l962, proporciona-lhe o reencontro com a poesia e marca uma nova etapa do seu percurso, como que o regresso aos tempos saudosistas da sua primeira fase, através de poemas tão típicos como “Sum Padre”, “Ossobó Cantou”, ” Banana Pão “, ” Mamão Também Papaia ” ” Vinho de Palma “, ” Corpo Moreno “, “Ritmo Para a Jóia Daquela Roça ” e “Poente “.
Entretanto, eram significativas as mudanças (políticas, sociais e culturais) que se iam verificando tanto no seio das elites africanas como nas sociedades europeias em que estas se inseriam. Em França, os críticos de Leopold Senghor reprovavam nele a visão de uma negritude quase contemplativa, pugnando apenas pelo diálogo entre as civilizações, como se a Negritude fosse um fim em si mesma e não um instrumento através do qual os africanos deveriam prosseguir a concretização de objectivos concretos. “Ele (Senghor) sustenta uma posição institucional e política de equilíbrio entre a reivindicação civilizacional africana e o respeito total pela cultura clássica francesa e europeia, sem qualquer confrontação ” (4). Em suma, na perspectiva reformista de Senghor, a Negritude é apenas o diálogo de civilizações, enquanto que os líderes que se preparavam para desencadear a luta armada muito cedo a ligaram à ideologia de libertação.
Mário Pinto de Andrade, por sua vez, reconhece o desuso em que começava a cair a Negritude, “declarando ultrapassado o plano de afirmação simples da existência dos valores negros, para se entrar no domínio do conflito colonial”.(5)
O ano de 1956 pode ser considerado como decisivo para o declínio da Negritude de língua portuguesa. De facto, é dessa data a constituição de dois dos movimentos de libertação que se aprontavam para luta armada contra Portugal (MPLA e PAIGC ). Nesse mesmo ano, numa atitude polémica que mereceu a crítica dos seus correlegionários e amigos, Francisco Tenreiro aceitou integrar, a convite do Prof. Orlando Ribeiro, a Assembleia Nacional Portuguesa.
Em Paris, em pleno 1º Congresso de Escritores e Artistas Negros, Franz Fanon, o famoso autor de ” Os Condenados da Terra”, lança um veemente ataque contra a Negritude, acusando-a de se ter transformado num travão das forças libertadoras e apelando os africanos à luta armada.
Em 1959, de facto, “o movimento anti-colonial dos estudantes e activistas africanos avança com a palavra de ordem de ” Deixar Portugal rumo ao exílio “, sobretudo dos seus principais elementos, que seguem para Paris, Argel, Suíça, etc. e, a partir daí, a Negritude fenece drasticamente, cotando-se o poema “Amor de África” (1963), de Francisco Tenreiro, como um dos últimos textos negritudinistas…”.(6)
O poema foi escrito no ano da sua morte, sendo que a sua segunda parte, na opinião do professor Manuel Ferreira, “regista um bloqueio nas tentativas feitas pelo intelectual Francisco José Tenreiro para estabelecer um diálogo franco e aberto com a Europa… O grito que o poema, no fim, faz chegar até nós, mais do que a crença, a esperança,…deixou transparecer a raiva – uma raiva desesperada ainda tomada, talvez, pelo fogo vingador da certeza”. (7)
Francisco José Tenreiro faleceu na última noite do ano de 1963.
Não gostaria de terminar este texto sem que nele deixasse expressa uma nota tendente a uma melhor elucidação sobre a figura de Francisco Tenreiro.
No prefácio ao livro “Coração em África”, publicado em Lisboa, em 1982, o conceituado professor Manual Ferreira, ao reflectir sobre a dedicatória de abertura à obra “Ilha de Nome Santo “( Mãe! Entre nós: milhas! Entre nós: uma raça! Contudo, este livro é para ti…), pronunciou-se do seguinte modo: ” A distância entre Francisco Tenreiro e a mãe é uma distância mensurável em “milhas” e em “raça”. O canto representa um esforço para anular esta separação; o sujeito identifica-se com a Mãe, faz seu o sofrimento do homem negro, mas a distância …é real, não pode ser iludida.
“… E essa circunstância ajudará a explicar algumas das contradições do percurso ideológico de F. J. Tenreiro. Repare-se que os intelectuais da África lusófona da sua geração que vieram a ter papel determinante na emancipação das respectivas nações também estudaram em Portugal; simplesmente, na meninice e na adolescência, nos anos formativos por excelência, tinham tido um contacto directo com os seus povos, sem a intercessão dos livros ou das evocações nostálgicas. Tenreiro, pelo contrário, crescera em Lisboa, longe do seu mundo de origem, um mundo “de que raramente lhe falavam”, e é na fase tumultuária de definição do eu, na juventude, que procura encontrar-se, saber quem é, conhecer as suas raízes, e, “sentimentalmente”, ” viaja ” até à sua ilha, entrega-lhe ” o coração “.
“. . No fundo, porém, permanece um homem dividido entre as razões “sentimentais”, do coração, que o puxam para a exaltação da sua componente africana, e as razões de educação, que o vinculam à necessidade de um diálogo Europa-África, em que, em termos existenciais, a Europa acabará por levar a vantagem”.(8)
Falei-vos de Francisco Tenreiro, através de um texto que poderá ter sido relativamente extenso. Considerei necessário transmitir-vos tais elementos acerca do nosso grande poeta, procurando abrir-vos simultaneamente o prazer e as vias para uma investigação mais circunstanciada e profunda sobre a sua figura, sobre o escol da elite africana do seu tempo e bem assim sobre a problemática do Panafricanismo e da Negritude, que constituem parte incontornável do nosso legado, enquanto cidadãos, santomenses e africanos.
Albertino Bragança