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Derradeiro e atribulado desafio

Uma serpente enrola-me ao pescoço. É macia, mas treinada para atacar. Está imóvel no galho dos meus ombros. A princípio, para me testar, impa o ventre quente e ameaça me sugar. Depois, fica catita e serenada. Só com a lingueta de mimoseio me quer cumprimentar e fazer cócegas de brinde. De seguida, prenda-me com momices e carícias. Torna-se quieta e quase flácida de brio. Está domada e francamente hipnotizada.

A ofídia desativa de si o instinto de predadora. E desiste de me picar de motu próprio. O susto inicial é para esquecer, digo num claro tom de desafogo. Entretanto, acontece um outro intrincado contratempo em meu redor.  Sai-me de dentro da algibeira uma cartola. É mística e fogosa, tal que cintilante candelabro de Monte Tchota.

Tresanda-me a provação do Ser do alto. Transmuto-me, num ápice de instante, em Sousa de Zebedeu. Estou na soleira da caverna de Rachado, o homizio do empolgado nigromante, em virente Ribeireta. Ah fenda do mirone de ladeira até Enseada!  Agora, de incensado poder na mente, para mudar o curso de história da minha gente e resguardá-la do alcance de hedonistas e sibaritas. Passa-me pelas ventas do nariz o faro de vidência.

A serpente já nem liga. Mui afeita ao meu poisio, não dá mostras de agressão. A cartola vira espuma. E a espuma vira pluma de borboleta. Embora não o brioso Garcia Marques, ganho aura de entusiasmo na lívida aventura. Elevo-me das trevas e sou asas de magia. Ponho-me a vagar na leveza das nuvens. Tenho exíguo tempo para viver.

Ainda assim com peso na consciência e sonhos de sobejo para cumprir. Apresso-me bastante. Um tanto agitado, anseio endireitar o que de torto na minha ambiência. Imagino-me a participar de uma merecida homenagem a prestar pela edilidade da minha origem ao prolífero poeta, Vadinho Velhinho, em Arquétipo dos Anjos. De facto, o vulto Valentinous é o primeiro oficiante a sério de São Miguel.

Numa outra guinada de rebuscada gentilidade, para compor as coisas tediosas e defeituosas do meu rincão, intuo uma gesta de igual quilate, em prol do destemido e deslumbrante criador, Kauberdiano Dambará e do seu leal confrade, Kaká Barbosa, em Santa de Novembro.  Ando com saudades do Frank Mimita e do meu então compincha de labor, Zequinha de Bulimundo.

Cogito logo a discrepância de proceder desta metrópole e vivamente dou um pupo: caramba! Nunca foram celebrados, com pompa e circunstância, por minha bonita urbe de preito. Que lancinante ingratidão! Imagino, concomitantemente, uma espécie de sarau cultural a oferecer por município da cidade de Monte Efígie, com a presença de exímios trovadores da morna e coladeira, como Albertino Évora, Dudu Araújo e Lucibela, por exemplo. Tudo em memória do ilustre vate-mor, Osvaldo Osório. Na mesma senda de lucidez e da leva de coerente espirituosa reflexão, para corrigir o que está mal e não me estragar a alma de agradecido, enxergo a contribuição do Bonga Kwenda a favor da cultura do meu país.

Alcanço também as genuínas amizades do radioso Waldemar de M’banza Congo, com relação a este povo do meio do mar. Então, envio uma trémula e mirífica missiva ao Ministério da Cultura do meu torrão, a suplicar por um reajuste de calendário, com o fito de atribuir um justo reconhecimento aos dois astros predecessores da desenvolta música angolana da atualidade. E junto a uma cascata da minha herdade, com refulgente e mui benzida água do Bengo, num amplo espaço de dileção, uma estátua de Aniceto Vieira Dias, o estroso combatente cultural da nossa esfera. Ao lado, uma outra para o afamado João Seria de São Tomé. E uma terceira para o meu meio irmão, José Carlos Schwartz.  Enfim, estou na tênue espessura dos ares e há muito para acertar, com esta nova visão do meio da minha parte. Foi assim que tive sonho.

Domingos Landim de Barros”

*Na pele de Sísifo Ali Jó

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