1976, em Libreville. Jogos da África Central. A primeira participação de São Tomé e Príncipe em competições internacionais. A selecção de futebol são-tomense integrava jogadores de renome nacional, como Minho, Taty, Gafo, Shell e outros. São Tomé e Príncipe perdeu por 11 a 0 contra a selecção da República Popular do Congo.
Resultado desastroso, humilhante e vergonhoso. Mas tolerado, tratando-se da falta de experiência em competições internacionais da selecção de um país que se tinha tornado independente alguns meses antes. Só que, decorridos 50 anos, repetem-se, de forma sistemática, resultados do género.
Foi com profunda mágoa que ouvi o nosso humorista Azomé Pinto a mostrar-se altamente escandalizado face à recente participação internacional de uma selecção de futebol das Ilhas que, em 5 jogos, marcou 2 golos e encaixou 45. Num dos jogos, perdeu por 20 a 0. Não é anedota. É bem verdade. Aconteceu com a nossa selecção de Sub-15.
Os são-tomenses estarão certamente desiludidos, envergonhados e preocupados, face aos humilhantes resultados, em competições internacionais, com que as nossas selecções nos têm brindado.
Como sempre, ninguém tuge nem muge. De dirigentes políticos a dirigentes desportivos, todo o mundo impávido e sereno, como se de nada se tratasse.
Os são-tomenses estarão certamente a perguntar-se: isso acontece por falta de dinheiro? Por falta de organização? Por falta de experiência? Por falta de vocação dos nossos atletas? Por falta de orgulho nacional? Por falta de empenho? Por insuficiência de treinos de preparação?
Não é certamente por falta de dinheiro, visto que a Federação São-tomense de Futebol tem vindo a receber da FIFA milhões de dólares, com vista à participação de São Tomé e Príncipe em competições internacionais. Direi que é sobretudo por falta de Opções Estratégicas e de Organização.
Se há grandes insuficiências e lacunas na organização de competições a nível nacional, como poderemos estar em condições de participar em eventos internacionais? Como participar num campeonato mundial de futebol juvenil, se a nível do país não se organizam campeonatos para essa faixa etária?
Os clubes não têm nas suas estruturas modalidades juvenis e femininas, que permitam a realização de campeonatos juvenis e femininos, e donde poderão ser destacados os melhores atletas para competições de nível superior.
Assim como não tem havido Visão, Estratégia, Liderança esclarecida e Organização em diferentes sectores do nosso país, o Desporto, em particular o Futebol, não foge à regra.
De modo geral, as decisões são tomadas de improviso. As actividades são realizadas sem a devida avaliação, ponderação e planificação prévias. Ou seja, age-se sem fazer-se antes o trabalho de casa. Resultado: Negativo. E está tudo bem. Não há problema. Não há preocupação em corrigir. Para a frente é que é caminho.
Só assim se compreende que não tem havido discussão no Parlamento, que não se tem ouvido pronunciamentos da parte das competentes entidades políticas e desportivas, e que não têm sido promovidos debates públicos sobre as humilhantes derrotas em sucessivas competições internacionais de futebol. Para a frente é que é caminho.
Julgo que se continuarmos impávidos e serenos, cometendo anualmente os mesmos erros, insistindo em comparecer aos palcos internacionais só para cumprir o calendário, dentro de 50 anos continuaremos a ser “a casa da mãe Joana” para todas as outras selecções. E os sãotomenses continuarão de cabeça baixa, envergonhados, e sem coragem para olharem os outros de frente.
Paremos para reflectir e façamos opções estratégicas. Temos tido bons resultados na Canoagem. Então, apostemos fortemente nessa modalidade. Temos tido resultados encorajadores no Atletismo e no Xadrez, e estamos em condições de melhorar. Apostemos fortemente tambem nessas duas modalidades. E se houver outras disciplinas nas quais achamos que poderemos competir, valerá a pena a aposta nas mesmas.
Quanto ao Futebol, está mais que visto que não estamos à altura de garantir lugar em palcos internacionais. Porquê então insistir em comparecer e trazer para casa pesadas e humilhantes derrotas? Porquê e em nome de quê?
Porque não propor à FIFA, (ou à CAF) uma moratória de dez anos, por exemplo, durante os quais faríamos forte aposta na formação futebolística de crianças, adolescentes e jovens, na melhoria do funcionamento dos clubes do ponto de vista técnico e organizativo, e na preparação de atletas de alta competição?
Ou seja, sugiro que se pense na possibilidade de suspensão, por uns dez anos, da nossa participação nas competições internacionais, e apostemos fortemente durante esse período na formação, com o apoio financeiro, técnico e organizativo da FIFA (ou da CAF).
Arlindo Gomes