Economia

A implementação de estufas agrícolas em STP – Trabalho de Projecto de Kiakisiki Nascimento

Kiakisiki Nascimento
Mestre em Economia e Gestão Aplicadas, Especialização em Agronegócio pela Universidade de Évora

SOBRE…….A IMPLEMENTAÇÃO DE ESTUFAS AGRÍCOLAS EM SÃO TOMÉ E PRÍNCPE….
Foi desenvolvida uma investigação no âmbito do Mestrado em Economia e Gestão Aplicadas, Especialização em Agronegócio, da Universidade de Évora. Com a orientação da Profª Doutora Maria Raquel Lucas e do Prof. Doutor Pedro Henriques, o estudo teve o propósito de analisar a situação da implementação das estufas em STP (do projeto institucional e dos privados), conhecer o seu contributo socioeconómico e propor ações de melhoria.

A investigação, recorreu a uma metodologia mista (qualitativa e quantitativa), com recurso a fontes de informação secundária (pesquisa bibliográfica e documental) e primária (observação e realização de entrevistas e questionários). As propostas de melhoria incluíram não apenas os resultados obtidos, decorrentes da análise da informação recolhida dos principais intervenientes diretos no processo de implementação de estufas em STP (agricultores, cooperativas de produtores agrícolas, técnicos de diferentes instituições e, decisores políticos), mas também, o conhecimento transmitido por outros envolvidos indiretamente em todo o processo de decisão e de operacionalização da produção agrícola em estufas.

Apesar da chuva média abundante, o país tem vindo a sofrer com as mudanças climáticas e com os consequentes episódios mais ou menos longos de seca que, conjugados com outros fatores estruturais e conjunturais, têm levantado novas questões aliadas à prática da agricultura, às restrições colocadas à produção de alimentos e ao aumento da vulnerabilidade das comunidades agrícolas, particularmente nos distritos de Caué, Me-Zochi, Príncipe, Lembá, Cantagalo e Lobata (CMPLCL).

A solução para mitigar os efeitos nefastos desta adversidade climática passou por encontrar uma resposta multifacetada, que combinou: 1) o aumento das capacidades das principais instituições com relevância para o desenvolvimento rural e os meios de subsistência; 2) a criação de estruturas de tomada de decisão baseadas na comunidade para melhorar os meios de subsistência das comunidades agrícolas; 3) a disseminação de meios de subsistência resilientes às mudanças climáticas nas comunidades mais vulneráveis; e 4) a promoção de investimentos para aumentar os meios de subsistência das comunidades contra os riscos climáticos.

Nesse sentido, o Governo de STP, através do Ministério de Agricultura e Desenvolvimento Rural (MADR), concretamente da Direção de Apoio ao Desenvolvimento Agricultura (DADA) em parceria com PNUD e o Fundo para Ambiente Global (GEF), implementou no ano de 2016, o projeto de “Reforço das capacidades das comunidades rurais para a adaptação aos efeitos das mudanças climáticas em STP” nos distritos acima mencionados.

O referido projeto tinha como objetivo reforçar a capacidade de resiliência das opções de subsistência dos habitantes das 30 comunidades rurais selecionadas como as mais vulneráveis, face aos impactos das mudanças climáticas em STP, nos domínios da agricultura, pecuária e pesca. Na agricultura, a finalidade do projeto era o reduzir a vulnerabilidade dos meios de subsistência rurais aos riscos climáticos através de infraestruturas e mecanismos de gestão desses riscos climáticos e desenhar e transferir estratégias de adaptação para fortalecer a resiliência climática das comunidades mais vulneráveis dos cinco distritos de STP, incluindo a RAP.

Os principais critérios para a seleção destas comunidades foram o isolamento, o estado de pobreza, a dificuldade no acesso à informação agrícola, a ausência de práticas agrícolas mais sofisticadas, o mau estado das infraestruturas de apoio à agricultura (sistemas de irrigação, mercados rurais, pistas rurais), a ausência de assessoria eficiente, os poucos insumos e de fraca qualidade e, a criação de uma rede comercial que possibilite o escoamento dos produtos, entre outros.
Reconhecendo as dificuldades em que vivem estas comunidades, o projeto foi desenhado com base numa lógica social e associativa, tirando proveito das dinâmicas agrícolas e comunitárias próprias, nas quais, os homens e as mulheres tradicionalmente formam grupos de trabalho para as mais variadas atividades.

O projeto prestou especial atenção à horticultura por esta ser uma atividade desenvolvida em quase todas as comunidades e distritos do país e, por o rendimento obtido ser gerido pelos agricultores em proveito do agregado familiar e usado, sobretudo, em educação e alimentação. As culturas produzidas, quer nas estufas do projeto, quer nas duas estruturas privadas existentes no país, tem sido o pimento e o tomate. As primeiras edificações metálicas privadas foram introduzidas em STP em 2013.

A investigação, que analisou em detalhe a situação das estufas do projeto e as privadas em STP, observou alguns constrangimentos que têm contribuído para o fraco desempenho deste modelo. No que tange às estufas do projeto, as dificuldades estão relacionadas com o desempenho do cooperativismo e, com as melhorias fitotécnicas e de gestão das estufas. No que diz respeito às estufas privadas, as debilidades estão fundamentalmente ligadas à componente de gestão.

Nesse contexto, foram as seguintes, as recomendações de medidas a tomar para a otimização destas infraestruturas agrícolas, de acordo com a realidade do país:
⦁ Cooperativismo: 1) melhorar a inclusão dos cooperados para que estes se sintam comprometidos e engajados com o projeto, pois só uma atitude de compromisso permitirá agregar valor e, aumentar e diversificar a produção; 2) levar todos os cooperados a participar no processo de produção, ou seja, a realizar um trabalho colaborativo, solidário, democraticamente participativo e de responsabilidade compartilhada; 3) apostar, com prioridade, na formação e capacitação contínua dos membros da cooperativa, com vista a dota-los de informação e conhecimento sobre esta nova tecnologia agrícola em estruturas protegidas; 4) fazer a aquisição de fertilizantes e sementes em coletivo de modo a ganhar escala e poder negocial e, consequentemente, a redução de preços; 5) promover no seio dos cooperados a partilha de experiência e a criação de redes de negócio com a eventual criação da confederação dos produtores para defender os interesses dos cooperados em diferentes domínios; e, 6) gerar e distribuir de forma regular, equitativa e transparente, o valor no seio dos cooperantes, de modo à promoção do desenvolvimento humano e económico da comunidade. Ao mesmo tempo, gerar emprego e rendimento para os cooperados, melhorando as suas condições de vida.

⦁ Melhorias fitotécnicas: 1) mais e melhor conhecimento de rega e nutrição de plantas, de forma a evitar faltas e excesso de água que podem causar desequilíbrios, gerando possíveis problemas de pragas e de doenças; 2) programação do balanço nutricional adequado para obter plantas mais resistentes e produtivas; 3) controlo de quantidades de água e fertilizantes a serem aplicados na plantas, com vista otimizar a produção; 4) manuseio do controlo biológico da planta para permitir que o produtor faça a substituição ou eliminação dos agrotóxicos sintéticos; 5) utilização correta dos agentes biológicos de controlo de modo a conseguir alta eficiência na proteção contra pragas e doenças; 6) utilização de inseticidas naturais e agentes biológicos no sistema de produção de forma eficaz e efetiva; 7) prévia preparação correta do solo através de compostos orgânicos como forma de maximizar os nutrientes a serem absorvidos pela planta; 8) face ao aquecimento excessivo da estufa em dias de sol, devem ser usados nebulizadores, telas de sombreamento e, cortinas com vista a minimizar os efeitos destrutivos do calor sobre a planta ou, em alternativa, devem integrar na estufa um sistema de abertura manual ou automático de teto ou janelas na parede de estufa, facilitando o arejamento rápido.

⦁ Gestão das estufas: 1) utilizar a estufa de modo a tirar o máximo rendimento da estrutura; 2) manusear de forma correta a cultura que pratica dentro das capacidades da sua estufa, visando obter o melhor resultado; 3) avaliar a viabilidade, sustentabilidade e gestão do agronegócio, aprendendo a planear de acordo com o calendário cultural e o período pretendido de colheita a coincidir com a maior procura no mercado; 4) analisar os custos de produção, nomeadamente os fatores mais importantes e como as decisões de gestão diária podem influenciar o resultado financeiro do projeto. Para tal, deve ser o registo adequado e rigoroso das colheitas ser feito com vista a planear o investimento futuro; 5) saber agregar valor à produção para se posicionar de forma lucrativa no mercado; 6) saber investir na imagem e notoriedade da marca, com o intuito de obter um reconhecimento por parte dos consumidores; 7) investir na divulgação dos produtos e angariação de clientes através das parcerias, incluindo o estabelecimento de alianças estratégicas com outras empresas nomeadamente hotéis e restaurantes; 8) adotar uma estratégia de marketing que priorize a participação em todas as feiras, mercados e, workshops de forma a divulgar a marca do produto e aumentar os níveis de notoriedade.

Em suma, a agricultura em estruturas protegida no contexto de STP representa uma alternativa manifestamente viável para o desenvolvimento do setor agrícola, particularmente a horticultura. Por exemplo, no ano 2018 a produção de pimento e tomate nas estufas do projeto atingiu 4.714,5 Ton e 1. 585,5 Ton respetivamente e nas estufas privadas mais 5000 Ton e 20000 Ton. Para a mesma dimensão, as estruturas protegidas produzem 3 a 4 vezes mais do que a produção a céu aberto.

Estas infraestruturas quando devidamente exploradas e aproveitadas apresentam-se como um mecanismo de produção orientada para o comércio, garantindo o aumento de rendimento e, consequentemente, a melhorias das condições de vida dos horticultores quer ao nível individual, quer coletivo, das comunidades rurais.

    8 comentários

8 comentários

  1. Pedro Costa

    17 de Março de 2020 as 8:42

    Só venho para comentar o nome: “Kiakisiki” Nascimento.
    Até quando os serviços dos registos ponham um travão a estes nomes? Hoje em dia constato que santomenses têm nomes que nada têm a ver com nossa ligação histórica e nossa cultura! Nomes como Yasser, Arafat, Lenine, Kiakisiki (talvez influenciado pelo Kiaku kadaf), etc, etc. Nomes importados, fabricados e inventados, que em nada nos identificam! Sou contra.
    Isto está uma selvajaria.

    • Ussua

      17 de Março de 2020 as 21:24

      Pedro Costa, kada nguê ka kiá kasô, pê nomi ku bua dé. Certo ou errado?

  2. Mepoçon

    17 de Março de 2020 as 11:36

    Tudo que faz parte da dieta alimentar da população é bem-vindo, mas produzir tantas toneladas de tomate e pimento por meio de estufas sem mercado de escoamento, pois o consumo interno não absorve tudo, estamos do facto a pensar com cabeça, ou jogo de interesse para beneficiar de subsídio.Vamos pensar a sério no nosso produto de exportação que traz benefícios económico para o país

  3. pires

    17 de Março de 2020 as 16:19

    Meus parabéns pelo brilhante trabalho.

  4. Pedro Costa

    18 de Março de 2020 as 8:21

    Sr. Ussua, kada nguê ka kiá kasô, pê nomi ku bua dé! Isto não pode, porque não deve, ser assim! É por estas e outras que o país está como está. Sem regras, sem respeito, sem ordem, ninguém respeita a lei, etc. Cada um não pode fazer o que lhe apetece num país sério. Para estas coisas, como atribuição de nomes, deveria haver regras. Ponto final parágrafo. Ai se eu mandasse! Não é que não tenha capacidade para tal e penso que seria muito difícil incutir nas nossas pessoas determinadas regras, civismo, etc, etc. Seria como apanhar uma agulha no palheiro.

  5. Frederico Ferreira Major

    18 de Março de 2020 as 16:29

    É importante conservar a identidade cultural de um país independentemente do assunto que está a ser abordado, os nomes tradicionais santomenses também mercem ser estudados cientificamente pelos nossos linguistas, históriadores, antropólogos através de trabalhos do fim do curso ou uma diserssão estamos a perder a nossa identidade. Os nomes como Wisky, Maranov, Maomed, Suzuk abedencem a tradição cultural desses países há milénios. Actualmente temos
    a dificuldade de identificar quem somos, porque a sangue santomenses tem vários cruzamentos. Isto reflecte-se nos nossos carateres, temperamentos até mesmo personalidade. Somos um povo com uma essencia muito divirgente!

  6. Manuela. Na diaspora

    26 de Março de 2020 as 22:10

    Realmente; s.tome e Cabo Verde sao os unico paises africanos dos palopes que nao usam nomes em sua lingua natal. E nunca entendi.

  7. Brito

    14 de Abril de 2020 as 14:07

    A análise do sucesso ou insucesso da implementação de estufas em STP não pode, nem deve, ficar limitada às questões de gestão, seja do espaço, seja das pessoas e do trabalho desenvolvido ou a desenvolver. Falta, para começar, o mais importante: a experiencia e conhecimento da actividade, neste caso a horticultura. Qualquer que seja o tipo de cultivo escolhido, intensivo ou extensivo, a base é a mesma. Qualquer horticultor sabe que não pode cultivar as mesmas variedades, no mesmo solo consecutivamente, seja pelo desgaste de determinados nutrientes seja por atrair as pragas e doenças proprias dessas variedades ou seja, é essencial a ROTAÇÃO de culturas – para piorar, escolhem plantar, lado a lado ou consecutivamente, dois horticolas da mesma família, as solanáceas! Qualquer agricultor também sabe que há plantas que se protegem se plantadas juntas, e outras que se prejudicam, quando juntas… chama-se ASSOCIAÇÃO DE CULTURAS. Respeitando as regras tradicionais de Rotação e Associação de culturas, reduz-se não só as doenças e pragas, como os encargos com fitofármacos.
    A outra parte, que está a contribuir para o insucesso, é a adequação das estufas ao clima/local onde estão implantadas. Estão-se a importar estruturas metálicas caríssimas, quase todas totalmente revestidas a plástico térmico, como se estivessemos num país com invernos rigorosos e de grandes amplitudes térmicas!! O principal problema duma estufa é a humidade excessiva, o segundo, o calor excessivo, tudo o resto, as regas os adubos, etc é facilmente controlável. Num país com humidade relativa entre 70-80% não se podem instalar estufas totalmente cobertas com plastico térmico, ainda por cima, e seja o excesso de humidade seja o excesso de calor não se resolvem com um simples abrir de janelas – nem vale a pena comprar as estufas ainda mais caras, com tecto de abrir!! Muito menos gastar com nebulizadores: aproveitem/guardem a água das chuvas que escorre pelas caleiras, com uma bomba muito simples, até tem umas que funcionam a energia solar, e meia duzia de tubos, canalizam essa agua para regar o telhado das estufas, quando está mais calor…
    Resumindo, antes de irem na cantiga de vendedores sem escrupulos que só querem vender as estufas e equipamentos mais caros que eles tiverem, procurem saber qual o melhor tipo de estrutura, para cada caso. E antes de começarem a plantar à toa, façam uma pequena formação de horticultura em estufas, para bem dos solos, do ambiente, e acima de tudo, da variedade de oferta de produtos para consumo interno. De nada serve apostar só na exportação, ficar dependente dos preços internacionais, quando internamente se passa fome, e se importa 90% do que se come!!

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