Niclay dos Anjos

SOBRE…….Barreiras de Produção de Baunilha EM STP….
Foi desenvolvida uma investigação no âmbito do Mestrado em Economia e Gestão Aplicadas, Especialização em Agronegócio, da Universidade de Évora. Com a orientação da Profª Doutora Maria Raquel Lucas e do Prof. Doutor Pedro Henriques, o estudo teve o objetivo de identificar as barreiras que têm dificultado ou impossibilitado a produção de baunilha em STP e propor soluções para melhorar a cadeia de produção de baunilha, usando uma abordagem metodológica mista (quantitativa e qualitativa), descritiva quanto aos objetivos e documental, bibliográfica e de campo quanto ao delineamento, suportada em informação oriunda de fontes primárias e secundárias.
As primeiras incluíram a realização de entrevistas e questionários a produtores e ex-produtores de baunilha e a técnicos do ministério da agricultura. As segundas, comportaram a análise de artigos científicos, estudos, livros, relatórios, teses de mestrado e doutoramento, análise de documentos oficiais e estatísticas, entre outros.
A baunilha é considerada uma das principais especiarias mundiais, em aroma e sabor, utilizada por distintos povos desde os tempos mais remotos da humanidade. Foi trazida da América para a Europa pelos espanhóis, onde os Astecas e os Maias utilizavam as cápsulas da planta para aromatizar bebidas, na culinária ena elaboração de primitivos cosméticos usados em festas e rituais religiosos.

Face ao quadro atual do sector agrícola de STP, agravado pela situação pandémica mundial, é imperativo o país reduzir a dependência externa, melhorar o abastecimento alimentar da população com produtos nacionais e fortalecer a economia, sendo uma das possibilidades, a de investir e desenvolver o sector produtivo, orientando-o para produtos sustentáveis, competitivos e agregadores de valor. Acresce que mais de metade da população do país subsiste do sector agrícola, o que significa que dele dependem muitos agregados familiares que sobrevivem com níveis de rendimento baixos. Entre as alternativas agrícolas, consideradas rentáveis para o país, pela sua adaptabilidade às condições climáticas do país e pelo aumento do preço e valor comercial desta mercadoria no mercado mundial, encontra-se a produção de baunilha, para a qual foram criados programas para a sua introdução e criada em 2003 uma cooperativa de produção (CEPIBA).
Ainda assim, a falta de políticas e de incentivos claros e estimuladores da produção, por parte do governo, levou a que muitos dos agricultores que apostaram na cultura da baunilha, a abandonassem e substituíssem por outras, havendo, atualmente, um reduzido número de produtores com pequenas parcelas de baunilha na zona sul.
A produção de baunilha em STP, uma cultura que pode atingir 20 a 30 m de comprimento, é realizada com o objetivo do aproveitamento dos frutos para exportação, não existindo hábitos de consumo interno. É explorada apenas por 18 agricultores, a maioria no distrito de Lobata (15) onde também está sediada a Associação de Produtor de Baunilha (CEPIBA), sendo os restantes nos distritos de Mé-Zochi (1), Caué (1) e Água Grande (1).

As operações culturais realizadas, para além do plantio e da rega, são as seguintes: limpezas adequadas, a poda na estação seca (Agosto), a polinização manual, e a colheita realizada 6 meses depois da formação da vagem e quando esta muda de verde-claro para verde-escuro. A transformação (secagem) que, no distrito de Lobata é realizado pela cooperativa e pelos agricultores e nos restantes distritos, efetuada pelos produtores respetivos.
A maioria dos agricultores vende a baunilha em vagem curada pois apresenta um preço dez vezes superior ao da vagem madura. A venda da vagem é feita para todos os agentes económicos que se dedicam a exportação. Os produtores consideram a sua produção biológica. As pragas e doenças e as dificuldades de escoamento do produto no mercado são as principais razões apontadas pelo abandono da cultura pelos ex-produtores de baunilha.
A cadeia de produção não está bem organizada, embora no processo produtivo e comercial participem distintos intervenientes, desde os produtores, responsáveis pela plantação da baunilha, até aos agentes de venda, passando pelos responsáveis pela sua transformação.

No que concerne ao Distrito Mé-Zochi a venda da vagem madura é feita pelo único produtor de Caué que por sua vez, também a transforma e comercializa, uma parte no mercado interno e outra no mercado internacional. O produtor do Distrito de Agua Grande, transforma toda a sua produção e comercializa-a no mercado internacional. O papel da CEPIBA não é relevante nesta cadeia de certificação do modo de produção biológico e do comércio justo, os estabelecimentos de venda a retalho, supermercados e canal Horeca (hotéis e afins, restaurantes, cafés, bares e cantinas) e, o consumidor final.
Relativamente aos principais constrangimentos e barreiras na produção de baunilha, os resultados permitem concluir a existência de um grande desconhecimento sobre a cultura e a produção da baunilha o que não facilita a sua adoção pelos produtores. Não há estudos técnicos sobre o sistema e a tecnologia mais adequados nem sobre a variedade de baunilha a cultivar no país, suspeitando-se ser a mais cultivada a da família Vanila Planifolias.
Acresce a pouca capacitação dos produtores, a reduzida organização dos mesmos e vocação para a produção da baunilha, a dificuldade de escoamento do produto, a ausência de crédito agrícola e o pouco conhecimento técnico-científico existente para desenvolver a cultura e dar apoio técnico aos produtores. Incentivos à produção, acesso ao crédito e melhoria da formação e da investigação sobre a baunilha são soluções propostas para ultrapassar as barreiras identificadas.
Face aos constrangimentos referidos foram propostas as seguintes soluções para melhorar a cadeia de produção de baunilha, nomeadamente:
- Para ultrapassar a existência de um grande desconhecimento sobre a cultura da baunilha e o seu modo de produção, aspectos que não facilitam a sua adoção pelos produtores, os decisores políticos devem considerar medidas de política que incentivem a produção de baunilha, fomentem a criação de associações comunitárias de apoio à agricultura, promovam parcerias público privadas direcionadas para a produção de baunilha e reforcem ações de formação para agricultores de forma a dota-los de competências técnicas.
- De modo a conseguir uma cadeia de produção mais eficiente tendo em conta a produção local e a procura internacional, a proposta a fazer vai no sentido de organizar os produtores da baunilha em associação, para que haja uma maior quantidade de produto e seja possível ganhar escala de exportação. Para o conseguir, o governo deve realizar acordos e parcerias com empresas ou indivíduos com iniciativa empresarial, no sentido de facilitar o escoamento de toda produção para mercado potencial da baunilha, (Europa e Estados Unidos), visto que a baunilha de STP tem alto valor comercial por ser um produto biológico. Também o processo de certificação deve ser melhorado, comunicado, tornar-se mais transparente e corresponder, em termos práticos, a uma mais valia económica para os produtores.
- Uma solução para vencer os constrangimentos relacionados com a falta de financiamento, o MADR poderia considerar a possibilidade de proporcionar aos produtores de baunilha, seguros face a acidentes e problemas decorrentes de alterações climáticas e créditos agrícolas bonificados que incentivassem o interesse de novos agricultores para a cultura e, simultaneamente, evitassem o crescente abandono da atividade quando são sujeitos a riscos de várias naturezas (eventos climáticos, pragas ou doenças, falhas no processo de transformação, logística e queda de preço no mercado internacional).
- Finalmente, considerando que a produção de baunilha é promissora, quer em termos agronómicos quer económicos e poderá ser um contributo bastante relevante para economia do país, o Ministério de Agricultura e Desenvolvimento Rural, através do CIAT deverá capacitar os técnicos com o conhecimento técnico-científico que suporte o apoio e a formação dos produtores de baunilha, melhore o processo de certificação da baunilha e melhore a eficiência, a organização e a governança da cadeia de valor.
Aumentar o conhecimento, quer em termos técnicos, quer sociais, quer económicos sobre a baunilha e dar formação dos produtores, é essencial. Em termos técnicos, devem ser estudados os tópicos relacionados ao sistema e tecnologia de produção, à avaliação da localização ideal das plantações, considerando muitas plantações estão posicionadas em zonas não recomendadas (zonas de alta altitudes) e, em parceria como Ministério da Agricultura e Desenvolvimento Rural e o CIAT, identificar as soluções técnicas para combater as doenças (pragas) que aparecem no decurso da produção e transformação da baunilha.
Ao nível social, avaliar o papel da cooperativa no planeamento da produção e dos produtores e na capacidade de gestão e liderança da equipa de modo a que a organização e comercialização do produto ganhe mais eficiência e o rendimento e bem estar dos agregados familiares seja melhorado. Em termos económicos importa identificar as variáveis mais importantes na estrutura de receitas e de custos da produção de baunilha e a sua sustentabilidade no contexto de STP e, estudar a cadeia de valor da baunilha, integrando as etapas a montante e a jusante, investigando todos os intermediários até ao consumidor final. Ou seja, conhecer o destino final e o valor potencial de rentabilidade da baunilha de STP a nível global.
Início Silveira
28 de Janeiro de 2021 at 9:42
Os meus parabéns, muita força e muitas felicidades. Esperemos que o Ministério de Agricultura interesse por esta investigação, o que irá ajudar a melhorar e ultrapassar as barreiras de produção de baunilha no país.Que este trabalho sirva, também, para outros interessados e futuros alunos em áreas relacionadas, os meus parabéns.
Início Silveira
Contact:9916157
Diomilter Henriques
10 de Abril de 2025 at 14:46
Parabéns pelo trabalho, gostei da informação e dos detalhes ali mencionado, entretanto para informar que o Distrito de Lembá também há produtores de Baunilha, conheço mais de 4 produtores de baunilha e há uma empresa denominada Baunistp-Bio que está neste ramo de atividade fortemente.