Economia

Banco Central apresentou um dos balanços económicos mais realista e exigente dos últimos anos

O discurso feito no dia 6 de janeirode 2026 traça um diagnóstico claro da economia nacional, inflação elevada, crescimento ainda vulnerável, choques externos persistentes e fortes limitações estruturais, mas também sinais consistentes de estabilização macroeconómica e uma estratégia definida para o médio prazo.

Num contexto marcado por incertezas globais e fragilidades internas, o Banco Central optou por uma comunicação institucional firme, assumindo o seu papel clássico em tempos de crise: reconhecer dificuldades, proteger a credibilidade monetária e transmitir confiança aos parceiros, aos mercados e ao próprio país. A inflação está projetada em torno de 12% em 2025, valor que o Banco Central classificou como o principal obstáculo à estabilidade económica.

De acordo com Agostinho Fernandes, enquanto a inflação não estiver claramente sob controlo, o Banco Central manterá uma política monetária restritiva, mesmo que isso implique custos de curto prazo para a economia. Agostinho Fernandes enquadrou este cenário nos choques externos severos enfrentados entre 2022 e 2025, crises energéticas, instabilidade geopolítica e pressões inflacionistas globais, agravados internamente pela suspensão do crédito carburante e por limitações na oferta interna.

Num país pequeno, importador e estruturalmente vulnerável, esses fatores tiveram impacto direto nos preços, nas reservas externas e no equilíbrio macroeconómico. No plano macroeconómico, o Banco Central reconhece que o crescimento estimado de 2,1% em 2025 é modesto e insuficiente para responder às necessidades sociais.

No entanto, o discurso introduz um elemento pouco comum em balanços nacionais recentes, uma visão de médio prazo sustentada por projeções mais otimistas. Segundo o Banco Central, a economia são-tomense poderá crescer cerca de 3,9% em 2026 e 2027, com uma média próxima de 3% no médio prazo, desde que se mantenham as reformas estruturais, a disciplina macroeconómica e a execução do Plano Nacional de Desenvolvimento 2026 – 2040.

A continuidade do Programa apoiado pelo Fundo Monetário Internacional, cuja segunda avaliação positiva foi concluída em dezembro, é apresentada como um pilar central de credibilidade externa e de ancoragem das políticas económicas. Um dos anúncios mais relevantes do discurso do governador do Banco Central foi a confirmação de um superávit primário de cerca de 0,5% do PIB em 2025, depois de um saldo nulo em 2024, um marco histórico após décadas de déficit recorrente. Para o Governador, este resultado reflete um esforço real de disciplina orçamental e sinaliza maior responsabilidade na gestão das finanças públicas.

Contudo, o alerta permanece, a pressão do serviço da dívida, a escassez de receitas em moeda estrangeira e a elevada dependência externa continuam a limitar a margem de manobra do Estado. E sem coordenação efetiva da política fiscal e monetária, o ajustamento será mais lento e socialmente mais doloroso. No sector financeiro, o Banco Central apresentou indicadores robustos, rácios de liquidez superiores a 70%, solvabilidade em torno de 35% e resultados positivos. No entanto, as fragilidades estruturais persistentes, como a elevada exposição dos bancos ao Estado e um rácio de transformação inferior a 34%, reflete na fraca intermediação financeira para a economia produtiva.

Conforme o diagnóstico sobre a informalidade, mais de 80%das micro e pequenas empresas operam fora do sistema formal. Pela primeira vez de forma tão explícita, a inclusão financeira surge como um instrumento estratégico não apenas de justiça social, mas de estabilidade monetária, alargamento da base fiscal e resiliência económica. Estruturado em nove grandes blocos temáticos, o discurso percorre o contexto internacional, inflação, política monetária, finanças públicas, sistema financeiro, mercado cambial, riscos climáticos e perspectivas futuras.

Trata-se de um documento denso, tecnicamente ancorado e alinhado com padrões internacionais.

Waley Quaresma

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