A doença do broto inchado, uma das principais pragas do cacaueiro, está se agravando na Costa do Marfim e colocando em risco uma parcela significativa do fornecimento global de cacau. O país é um dos maiores produtores mundiais do ingrediente essencial do chocolate, e a expansão da doença acende um alerta para produtores, empresas e consumidores.
De acordo com um estudo da organização sem fins lucrativos, Enveritas, cerca de 41% das fazendas de cacau analisadas no país estavam infectadas pelo vírus na safra de outubro de 2024 a setembro de 2025. O levantamento abrangeu mais de 11.600 propriedades e aponta um avanço expressivo da doença, que atingia 33% das fazendas duas safras atrás.
Transmitida por pequenos insetos conhecidos como cochonilhas, que se alimentam de folhas, brotos e flores, a doença do broto inchado compromete gradualmente a produtividade das árvores. Nos estágios iniciais, os cacaueiros ainda produzem frutos, porém em menor quantidade. Após um período de cinco a dez anos, a infecção leva à morte da planta.
A doença reduz a produção de cacau em aproximadamente 35% nas fazendas afetadas. Considerando a proporção de áreas infectadas, cerca de 15% do abastecimento de cacau da Costa do Marfim está atualmente em risco. “Para as empresas que compram cacau da Costa do Marfim, essa tendência pode sinalizar um risco maior de abastecimento, possíveis mudanças nas estratégias de fornecimento e uma necessidade urgente de direcionar as intervenções com mais precisão”, afirmou a organização.
O Conselho do Café e do Cacau (CCC), órgão regulador do setor no país, recusou-se a comentar os dados do estudo.
O avanço da doença ocorre em um momento de forte volatilidade no mercado internacional. Os preços globais do cacau quase triplicaram em 2024, impulsionados por condições climáticas adversas e pelo impacto do broto inchado, que devastou colheitas tanto na Costa do Marfim quanto no vizinho Gana. Juntos, os dois países respondem por cerca de metade da produção mundial de cacau.
Embora os preços tenham recuado aproximadamente 50% no ano passado e haja expectativa de novas quedas este ano, diante de um possível aumento do excedente global, especialistas alertam que o abastecimento na África Ocidental permanece sob ameaça no longo prazo caso a doença não seja controlada.
Na Costa do Marfim e em Gana, a doença do broto inchado teve sua disseminação acelerada nos últimos anos, em grande parte devido à falta de recursos financeiros para combatê-la. O principal método de controle exige o arranquio e a queima das árvores infectadas antes do replantio, um processo caro e socialmente sensível para pequenos produtores.
Em Gana um levantamento nacional realizado em 2023 revelou que 31% da área total de cultivo de cacau estava infectada, frente a 17% em 2017. A doença já provocou perdas históricas no país, reduzindo a produção em 50% nas décadas de 1960 e 1970, quando o Gana era o maior produtor mundial de cacau.
Com o avanço da praga e recursos limitados para combatê-la, o futuro da produção de cacau na África Ocidental segue incerto, levantando preocupações sobre a sustentabilidade da cadeia global do chocolate.
Fonte: mercadodocacau com informações cnbafrica