Política

Os segredos do embaixador Luís de Almeida

“Penso ter cumprido a minha missão com sucesso”, foram as últimas palavras do embaixador angolano Luís José de Almeida. Deixou o mundo dos vivos no passado dia 12 de Agosto. O Secretário Executivo da CPLP, Francisco rebelo Telles, endereçou uma nota de pesar pelo falecimento do embaixador Luís de Almeida.

Figura diplomática que marcou o processo de luta pela independência nacional de Angola, Luís de Almeida, foi indicado pelo Secretário Executivo da CPLP, como tendo dado contributo para a consolidação da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) «na  qualidade de Representante Permanente junto da Organização Internacional, no período de 2014 a 2018».

Homem de confiança do primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, o falecido embaixador Luís de Almeida, foi o ponta de lança de Agostinho Neto, nas diversas missões diplomáticas internacionais.

O destaque vai para a missão atribuída pelo também falecido Presidente Agostinho Neto, ainda nos primeiros anos da independência de Angola, para que fosse abrir caminhos para a aproximação entre Angola e os países ocidentais, com destaque para a França.

Uma missão secreta de Agostinho Neto, numa altura em que estava a ser instalado o regime marxista em Angola. Missão delegada ao embaixador da sua confiança. Pouco tempo depois por razões de saúde, Agostinho Neto morreu em Setembro de 1979, após tratamento médico na ex-URSS.

Antes de ser levado pela morte no passado dia 12 de Agosto de 2020, o embaixador Luís de Almeida, revelou os segredos da missão diplomática pró – ocidental de Agostinho Neto.

O Téla Nón coloca a disposição do leitor, extractos das revelações do embaixador Luís de Almeida, publicados pela revista Visão :

Penso ter cumprido a minha missão com sucesso” – Embaixador Luís José de Almeida na sua última entrevista

“Fui encarregue para uma missão em França que foi a seguinte: Um certo dia o Presidente Neto chamou-me lá na biblioteca. Eu trabalhava para a informação, e ele disse-me …. “Prepara-te, vai ter com a sua mulher que vocês vão voltar a sair”.

Perguntei-lhe:

“Tantos anos fora, acabamos de chegar em 1975, temos que voltar a sair de novo”?

Ele respondeu-me:

“Preciso de ti lá fora e não aqui…” depois voltou a dizer-me “amanhã aparece na biblioteca…vamos falar mais a sério sobre a tua missão”

No dia seguinte fui para lá e Neto disse-me:

“Bom a tua missão é a seguinte” …”Temos de rebentar com o «colete- de –forças» que os nossos amigos soviéticos querem impor-nos …de modo que vais abrir Angola para ocidente. Temos que mostrar que somos independentes, e quaisquer que sejam as amizades, os bons amigos devem ser independentes, e não devem ser amarrados um a outro”.

Ele afirmou que eu iria sem satisfação ao MPLA, embora uns não quisessem, na altura, uma aproximação com o ocidente, mas que, eu viajava com uma promessa :  “todos os seus contactos, todos os seus passos, não escrevas nada, telefona-me. Vou dar-te o meu número de quarto. Quando houver qualquer coisa nova telefona-me. E assim que as relações com os franceses melhorarem teremos de ir abrir com a Alemanha”.

Com o Chirac, queríamos abrir a embaixada. Abrimos primeiro em Bruxelas, e a partir de Bruxelas fazer a abertura da França, Alemanha e Inglaterra. Em Paris tínhamos dificuldade em arranjar o local para a embaixada.

Vi um monte de casas e Neto falou-me : “ Se abrires em Paris, vais mudar de Bruxelas para Paris, porque para nós o importante é a França”.

Para lá fui, procurei e encontrei a actual embaixada. Eu é que comprei. Quando comprei aquilo que era de uma abastada família judia, a mesma ao tomar conhecimento, quis dar o dito pelo não dito.

Porquê?

Porque diziam que éramos amigos da Organização de Libertação da Palestina(OLP), que quera destruir Israel.

E como íamos resolver isso?

Havia uma pessoa que talvez nos pudesse ajudar junto a Quai d´Orsay(Sede do Ministério dos Negócios Estrangeiros da França), que era Jacques Chirac(Prefeito de Paris) com quem tive uma conversa.  Era muito cordial, recebeu-me muito bem.

Quanto a casa para embaixada, eu disse-lhe “ já encontramos várias casas, uma delas está abandonada, e eu queria ver se nos pode instalar lá”.

Depois chegou o Director de Gabinete e declarou que não era possível porque existia um decreto segundo o qual na avenida Foch não se poderia estabelecer missões diplomáticas.

Ele piscou-me o olho e recomendou-me que voltasse dentro de uma semana. Fui para Bruxelas e quando regressei, ele mostrou-me um papel a autorizar que a República Popular de Angola abrisse a embaixada na avenida Foch. E daí o assunto com a família judia ficou arrumado. E é um grande prédio.

Publicado na Visão 16 de Agosto de 2020

    1 comentário

1 comentário

  1. SEMPRE AMIGO

    22 de Agosto de 2020 as 10:24

    Afinal !…….QUEM matou LEÔNCIO?

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