Opinião

O coqueiro velho

 Existe uma música do conjunto musical, “Os Úntues”, que marcou a minha geração, entre o final da década de setenta e início da década de oitenta do século passado, se não me engano, cujo conteúdo pode-se resumir ao seguinte: “o coqueiro nasce firme e, no entanto, como é o seu destino, morre sempre torto”.

Esta é uma metáfora perfeita caracterizadora da atuação do atual governo da república durante os últimos quatro anos.

Todos nos lembramos, no momento da tomada de posse do atual governo da república, do conteúdo discursivo do atual primeiro-ministro que, entre outras coisas, nos garantiu que “iria fiscalizar, permanentemente, a ação governativa de cada membro do seu executivo bem como das Direções intermédias da administração pública, e não hesitaria em tomar medidas corretivas, caso fosse necessário, para o total cumprimento das promessas do seu governo tendo como propósito a mudança da realidade prevalecente no país”.

A maior parte dos cidadãos nacionais recebeu com júbilo este sinal inicial do primeiro-ministro, pois, tal foi encarado como um prenúncio de um caminho prometedor.

Mas o senhor primeiro-ministro não se ficou por aqui, em termos de promessas. Foi mais longe!

Prometeu-nos, logo no início da magistratura, que iria: dar uma resposta firme, ao problema da crise energética no país; acabar com as constantes faltas de medicamentos e consumíveis no hospital central; criar condições para garantir melhores condições de vida para toda a população, incluindo neste propósito a elaboração de um programa mínimo para “tirar o povo da miséria, do desemprego porque o povo merece uma vida melhor”; fazer mudanças estruturais no sector da Justiça bem como tomar iniciativas legislativas e de outra natureza que, eventualmente, iriam contribuir para a consolidação do Estado de Direito Democrático.

Alguns céticos, sobretudo aqueles que perderam a esperança há muito tempo, olharam para estas promessas do primeiro-ministro com desconfiança, embora lhe tenham dado crédito, tendo em conta o seu percurso profissional e político, até então, imaculado.

 Estávamos na fase de um governo firme, como um coqueiro novo que fora plantado recentemente.

Para demonstrar, para além das palavras, o seu insuperável e genuíno desejo reformador, em prol da transparência e luta contra a corrupção, o senhor primeiro-ministro levou a sua ação pedagógica e política ao extremo e, em 2019, após uma viagem ao exterior, entregou ao tesouro público o remanescente de 700 Euros resultante do montante que lhe fora atribuído pelo Estado na referida viagem.

Para que ninguém tivesse dúvidas da genuinidade e alcance político do seu gesto, o senhor primeiro-ministro fez questão de tornar pública a referida devolução do remanescente financeiro da viagem e a própria Direção Administrativa e Financeira do seu gabinete considerou o gesto do mesmo como um verdadeiro exemplo de transparência e rigor na governação.

Nesta fase inicial, qual coqueiro novo, o governo crescia firme e exibia-se, tendo como contraponto a propalada experiência governativa anterior do ADI, que, na sua perspetiva, foi catastrófica.

Foi nesta altura que, sob orientações do senhor primeiro-ministro, mandaram prender o anterior ministro das finanças, Américo Ramos, e o atual presidente da república, Carlos Vila Nova, foi detido e impedido de sair do país, tendo como acusação o facto de ter participado num conjunto de crimes, designadamente, de enriquecimento ilícito, corrupção passiva para atos ilícitos e branqueamento de capitais.

Quando todos pensávamos que as promessas tinham acabado e tinha chegado, finalmente, o tempo de materialização das mesmas, eis que aparece o senhor ministro das obras públicas e infraestruturas, o grandíssimo Osvaldo Abreu, qual Prometeu no papel de salvador da humanidade na tragédia grega, propondo ao povo, ainda em 2019: a construção de um porto de águas profundas, na zona de Fernão Dias, em modalidade de parceria público-privada; a aquisição, num prazo de 15 dias, de um barco que permitiria a ligação inter-ilhas, em segurança, depois do naufrágio de Anfritit; a requalificação de duas pontes na ilha do Príncipe e de outras tantas em S.Tomé; a requalificação da marginal e do aeroporto da capital do país; a assinatura oficial, em clima de festa e euforia, de um contrato de investimento estrangeiro no valor de 1,3 mil milhões de dólares para a zona de Malanza; a construção/requalificação do hospital central da capital do país; o lançamento de concurso para a construção de duas centrais hidroeléctricas em S.Tomé, designadamente no rio Grande e em Bombaim, entre outras promessas.

Num país onde uma parte significativa da população é indigente e está condenada à fome, doenças decorrentes de má nutrição e ausência de cuidados primários mínimos de saúde, vivendo sem condições mínimas de dignidade, não seriam estes anúncios sazonais, interpretados pelo povo como uma aldrabice, que iriam contribuir para alterar a realidade vigente. Aliás, a prova de tal facto são os impropérios (aldrabão, mentiroso e outros) deferidos ao referido ministro, pela população, recentemente.

O senhor primeiro-ministro e o senhor ministro das obras públicas deveriam saber, como políticos experientes que são, que os pobres e miseráveis do nosso país estão-se marimbando para publicitação enganosa de projectos futuristas, infinitamente reproduzidos na televisão pública e nas redes sociais por avençados partidários, tendo como propósito a conservação de poder, em substituição de políticas públicas reais que respondam aos problemas estruturais do país. Aliás, quando a esmola é muita, o pobre desconfia!

Foi nesta fase que o governo foi entortando, cedo demais, enquanto crescia no tempo, como os coqueiros velhos, sem coordenação política desejável, com ministros que o suportavam somente preocupados com a respetiva claque partidária, manifestando tiques de arrogância e desinteresse incompreensível na implementação de verdadeiras políticas públicas para erradicação consistente da pobreza e da miséria no nosso país, disponível, contudo, para alimentar, permanentemente, conflitos institucionais estéreis com toda a gente.

O Presidente da República, o Tribunal de Contas, o Procurador da Geral da República, o Presidente do Governo Regional do Príncipe, todos foram vítimas da “crise do entortamento” do governo que crescia para o lado em vez de crescer para cima, como os coqueiros velhos inadaptados aos factores abióticos do ecossistema.

O próprio povo, habituado ao sofrimento e privações de toda a ordem, sofre, neste momento, as consequências da “crise do entortamento” do governo que, sem qualquer pudor, através do senhor ministro das obras públicas e infraestrutura, veio anunciar, de novo, a um mês das eleições legislativas, a conceção ao grupo Safebond Consortiom, o direito de construção do porto de águas profundas em Fernão Dias, por um valor de 450 milhões de euros.

Ninguém sabe, contudo: para que servirá o referido porto; o que é que o país ganhará com a sua construção; qual é o contributo, direto e indireto, do país neste propósito; qual é o prazo estipulado para a realização da referida obra; qual será a importância estratégica da referida estrutura com outros investimentos na zona circundante e no contexto geográfico de inserção do país; qual é a capacidade da empresa em causa para a viabilidade do referido projecto, etc.

O mesmo governo, praticamente em gestão e a um mês das eleições legislativas, que anuncia, com pompa e circunstância, a construção do referido porto, no valor de 450 milhões de dólares ou a requalificação do hospital central, por milhões de euros, não é capaz, contudo, de reparar uma pequeníssima ponte que faz a ligação entre a cidade capital e o aeroporto internacional do país.

Este é o melhor sintoma do envelhecimento precoce do referido governo, entortado e cansado como um coqueiro castigado pelo tempo, com as raízes visíveis à superfície e sem forças para suportar o seu próprio peso.

Tal facto faz-me lembrar aquelas pessoas que envelhecem rapidamente com o tempo, ficam entortadas e ganham “conquí” mas, todavia, acham-se aptas para participar, ainda, num jogo de futebol ou numa corrida de velocidade de 100 metros.

A sensação que os cidadãos têm, decorrente deste ato final de um governo praticamente em gestão, é que o mesmo, num gesto de despedida e ciente que é difícil ganhar as próximas eleições legislativas, está a “rapar o fundo do tacho”, em todos os sectores, num ato de autêntica irresponsabilidade política.

A um mês de eleições legislativas, para qualquer que seja o governo, esta não é a altura para se tomar grandes decisões, em termos de políticas públicas, com impacto financeiro e estratégico desta grandeza.

É óbvio que tudo isso dá legitimidade ao futuro governo, decorrente das próximas eleições legislativas, qualquer que ele seja, para colocar em causa todos os contornos destes negócios anunciados por este velho e entortado governo. Aliás, seria contraproducente se não o fizesse!

Quem deve estar a rir, neste momento, é o Patrice Trovoada e o ADI! Provavelmente o mesmo nem sequer precisará de fazer campanha eleitoral para ganhar as próximas eleições, perante uma maioria e governo tão velhos, entortados e com “conquí”.

Se tal acontecer, será, porventura, um caso que deverá ser estudado, com algum interesse, pelos especialistas em Ciência Política de diversas universidades, pois, não é normal que, estando um líder partidário ausente do país durante uma legislatura inteira, ausente da Assembleia Nacional, sem qualquer trabalho político relevante e presencial realizado no contexto comunitário em termos de relacionamento com as bases e, no entanto, aterre no país, a menos de um mês de realização das eleições legislativas e ganhe as mesmas.

Uma das explicações para que tal venha a acontecer será, porventura, o paupérrimo estado de envelhecimento e inutilidade desta maioria e governo, cujo destino quis que se entortasse como qualquer coqueiro velho!

Isto diz muito do estado atual do nosso sistema partidário e compreendo, finalmente, as preocupações do Pinto da Costa com o estado comatoso do seu partido e as razões pelas quais ele não dá quaisquer créditos aos atuais dirigentes do mesmo.

Adelino Cardoso Cassandra

15 de agosto de 2022

11 Comments

11 Comments

  1. hilario Costa dias

    15 de Agosto de 2022 at 23:57

    Pensei que é : Quando a esmola é muita, o “PADRE” e não “O POBRE” desconfia.
    Aprende-se, aprendendo né.

    • Rodrigo+Cardoso

      16 de Agosto de 2022 at 19:50

      Eu aprendi que é o pobre desconfia agora se é o padre não sei aliás o padre nem sabe quem deu a esmola nem quanto deu ,possa ser que eu esteve errado, quando na Igreja se faz o ofertório ninguém sabe quem deu nem quanto deu ,no entanto possa ser que eu esteve errado

  2. Beijaflor

    16 de Agosto de 2022 at 0:17

    Nota 100%.
    Será que terminam com o mesmo património que declararam quando iniciaram o mandato???

    Only rent seeking…

  3. WXYZ

    16 de Agosto de 2022 at 5:52

    “LADLON TÊ UWÊ LIZO MUNTU ÔÔ”. Mentira do ADI se pensar que terá ganho fácil nessas eleições. Esses gajos da NM já têm quase tudo preparado para uma mega fraude eleitoral contrariando mesmo a vontade popular. Desde a não actualização dos cadernos eleitorais, reorganização pelo TC dos ciclos eleitorais, êxodo de grande quantidade de jovens à Portugal e outras e outras acções que já estão em carteira incluindo infalivelmente o roubo das das urnas, etc… O grande líder da oposição já devia estar no terreno há muito tempo porque haverá muito trabalho pela frente até 25 de Setembro. Os pessoais da NM estão a distribuir muito dinheiro

  4. Rui manuel

    16 de Agosto de 2022 at 6:33

    Como é que é possível nas vésperas de eleições as pessoas ficarem sem energia e água. Vão perder as eleições.

    • Os Bandidos de sempre

      16 de Agosto de 2022 at 12:59

      O teu irmão Tozé cassandra roubou tanto no principe e isso de si nenhuma palavra até mesmo o homem da lua disse publicamente que anualmente paga 2milhoes milhões de euros a governo regional e nada foi feito com esse dinheiro.

  5. santomé cu plinxipe

    16 de Agosto de 2022 at 7:19

    OS ÚNTUES cantaram, CUMA COCONDJA NANCÊ FLIMI… MOLÊ TÒTÒ, o resto que escreveste pareceu um estrangeiro ..

  6. Pierre Faleiro

    16 de Agosto de 2022 at 11:01

    Ok. ESTOU PRONTO! Isto é faltar com respeito os santomenses. Este tipo não trabalha, e nem ajuda o povo nos momentos difíceis, como o que passamos com a pandemia do COVI-19, e agora aparece para dizer que “ESTOU PRONTO” para vir sugar o pouco que existe e só para ser CHEFE?

    GRANDE falta de respeito e humilhação NACIONAL.

  7. E

    16 de Agosto de 2022 at 11:21

    Promessas nao cumpridas tem sido o problema đos sucessivos governos do nosso Pais..outros prometeram dubai outros luta contra corrupcao..êstes problemas nao sao apenas đós governos más da nossa sociedade em geral. Infelizmente existe muita corrupcao e desonestidade no sẹio đã nossa sociedade.. precisamos sermos honesto nas pequenas coisas pâra sermos nas grandes quando ùm dia estivermos a governar êste pais..

  8. Madiba

    16 de Agosto de 2022 at 16:12

    Meu caro compatriota;
    Acima de tudo agradeço muito o jornal Téla Nón em disponibilizar este serviço interativo para os santomenses e não só.
    De facto tenho acompanhado o governo e a sua governação desde princípio até a data. Sinceramente falando, eu não estava a espera deste desfecho para a péssima governação no meio de mentiras tão descaradas e desnorteadas do XVII governo. Onde está o crescimento robusto? Eu, pergunto se não fossem as obras e projectos estruturantes como estrada de Conde-Guadalupe, marginal 12 de Julho; Abastecimento de água para Santana, modernização de Hospital Dr. Ayres de Menezes, casas sociais, projectos esses deixados pelo governo de Patrice Trovoada, qual seria o projecto estruturante deste governo?
    Mas é mesmo assim que se governa um país? Afinal o que aconteceu?
    Deus acuda S. Tomé e Príncipe!

  9. mezedo

    18 de Agosto de 2022 at 12:03

    De todas falacias que se pode observar nos diferentes comentários aqui postado, existe uma unica solução para tudo isto.

    OS vadios que sempre viveram la fora e nada contribuirão para STP, deviam ter vergonhas de fazer grandes textos como se fossem muitos
    bons e melhores que todos.

    Deviam sim vir aqui e mostrar que sabem fazer melhor, e não estarem a criticar tudo que os outros fazem de bom ou de mau.

    Qual é o Governo que passou por este país e que diz ter feito o melhor que outro.

    Pelamentos alguns nunca abandonam seu povo, sempre estão aqui ao lado do povo comendo bana fruta matabala aqui como todos Santomenses de verdade.

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