Opinião

0s Imbróglios da não Contextualização


  1. No parágrafo de um interessante artigo publicado no dia 14 de Julho de
    2025, no Tela Non, o autor, Mestre Cerineu Renner, opina:
    ”A falta de gestão eficaz levou a forte queda na produção de cacau de
    cerca de 12000 toneladas (t) logo após a independência para apenas
    3000t em 1988”.
    Uma vez mais a munição da estatística!!! É mais que sabido que muitos
    dados estatísticos são intencionalmente falsificados com algum
    propósito. Segundo outros dados estatísticos, a produção de cacau nas
    roças coloniais em STP, nos anos trinta do século passado, rondava
    mais de 30000 toneladas e nem sequer atingia as 7000 toneladas em

    1. Na verdade, o que é que se pretende provar com a manipulação dos
      referidos dados estatísticos sobre a produção agrícola em STP, antes e
      depois de 12 de Julho?
      O que se pretende é insinuar que a nacionalização das roças coloniais,
      em 1975, foi um grave erro, a causa principal dos atrasos no processo
      de desenvolvimento de STP. E esse erro, ainda segundo os apressados
      críticos, deveu-se à “orientação socialista” do regime.

  2. Convém aqui relembrarmos a nossa própria história. A escravatura e a
    colonização em STP tiveram como único objectivo a exploração da
    riqueza agrícola, através da desumanização e da exploração intensiva
    da mão de obra escrava durante 550 anos.
    As ROÇAS foram a estrutura económica utilizada para atingir tal
    objectivo. Salvo algumas glebas deixadas para os nativos-libertos, o
    total das terras, nas duas ilhas, foram inteiramente ocupadas pelas
    grandes roças coloniais. O país inteiro era propriedade das roças
    coloniais, com amplos poderes económico, político e até culturais —
    autênticos mini-Estados dentro do Estado colonial.
    Antes de 12 de Julho de 1975, a maior parte dos nativos-forros só
    conhecia o STP do ASFALTO; a entrada no espaço ocupado pelas
    roças coloniais era-lhes interditada. A desobediência poderia custar-lhes
    a própria vida.

  3. Com a nacionalização das roças no dia 30 de Setembro de 1975, o
    povo santomense deu mais um passo importante no ainda longo
    processo da sua luta de libertação.
    Conquistou, com as nacionalizações das roças coloniais, o direito de
    ser ELE o DONO da sua terra, senhor do seu DESTINO.

  4. Alguns “intelectuais” santomenses, talvez menos informados e
    i nfluenciados pelas narrativas ideologizantes, classificam
    apressadamente a “primeira República” como um regime de orientação
    socialista…, só porque nacionalizou as principais roças coloniais.
    Fazem-no talvez por ignorância ou por incapacidade de contextualizar
    historicamente o processo da luta de libertação dos povos secularmente
    escravizados e colonizados em geral e, particularmente, a do povo de
    STP.
    No caso de STP, o 30 de Setembro foi, essencialmente, um importante
    ACTO POLÍTICO do nosso processo de libertação. A nacionalização em
    Setembro de 1975 foi um acto patriótico e não ideológico.

  5. É evidente que, ideologicamente, o novo poder conquistado em STP no
    dia 12 de Julho de 1975 não podia ser classificado nem de socialista
    nem de capitalista.
    Em Julho de 1975, as duas ilhas eram habitadas por grupos étnicos de
    várias origens culturais (forro, moncòs, angolares, angolanos,
    caboverdeanos, moçambicanos), divididos pelo poder colonial para
    melhor reinar.
    O novo Estado do país independente tinha como ingente tarefa
    prioritária construir a NAÇÃO SANTOMENSE, formar uma comunidade
    com elementos em comum, com um projecto político comum.
    Por exigência política do momento, a Nação Santomense foi criada por
    decreto. E é, neste momento, uma obra ainda inacabada.

  6. Além do mais, o nível de desenvolvimento económico, social e cultural
    — em suma, o nível do desenvolvimento das forças produtivas
    herdadas dos cinco séculos da escravatura e da colonização, por um
    lado — e a diversidade da incipiente deformação ideológica dos
    membros da família dos “uê-lugidos” santomenses em geral e,
    especialmente, dos dirigentes políticos de então, por outro, não
    ofereciam condições objectivas e subjectivas necessárias para a
    implantação, em STP, nem do capitalismo e muito menos do socialismo.

  7. E, para se “proteger” das eventuais influências negativas resultantes do
    confronto entre as duas potências dominantes no xadrez político
    internacional, o poder político da “primeira República” decidiu, ainda em
    1975, classificar constitucionalmente o regime santomense de:
    “via não-capitalista de desenvolvimento”.
    Um belo eufemismo que, no então mundo bipolar, não agradava nem
    aos gregos nem aos troianos.

  8. É também de relembrar que, em 1975, vivíamos num mundo
    influenciado pelo domínio de duas potências hegemónicas rivais: USA e
    URSS.
    Com a derrota da Alemanha fascista na Segunda Guerra Mundial, e a
    consequente extensão da zona de influência da URSS em toda Europa
    Oriental, o mundo ficou dividido em duas zonas de influência.
    O então mundo unipolar dominado pela potência americana (USA) foi
    forçado a ceder e a permitir o surgimento de um novo mundo bipolar.
    O surgimento do mundo bipolar criou condições objectivas e subjectivas
    favoráveis ao recrudescimento da luta de libertação dos povos nas
    colónias africanas, graças ao apoio multiforme dos países do bloco
    socialista aos Movimentos de Libertação.

  9. A reacção dos países membros da NATO não se fez esperar. Foi assim
    que o Governo do primeiro-ministro português, Dr. Salazar, propôs e
    conseguiu que a NATO, num comunicado de uma das cimeiras dessa
    Organização, classificasse os Movimentos de Libertação nas colónias
    portuguesas como movimentos terroristas.
    O regime salazarista conseguiu, com tal diligência, cortar aos
    Movimentos de Libertação das colónias portuguesas qualquer
    possibilidade de poderem mobilizar e obter, para a sua luta, apoios nos
    países ocidentais.
    Só em 1970, depois da audiência concedida por Sua Santidade Paulo
    VI, o que abalou o Estado Novo português, é que os Movimentos de
    Libertação nas colónias portuguesas de África conseguiram destruir
    esse anátema.
    Todavia, os apoios mobilizados nos países ocidentais, só possíveis
    através das ONG, eram mais de natureza política, não eram suficientes
    para cobrir as múltiplas necessidades técnicas e de formação dos
    combatentes dos Movimentos de Libertação.
    Aos Movimentos de Libertação não restava nenhuma outra alternativa
    senão buscar apoio nos países socialistas, que foram os mais
    importantes e decisivos aliados dos Movimentos de Libertação.

  10. Na década dos anos 60/70 do século XX vivia-se, nos países libertos, a
    época da força mobilizadora dos slogans:
    ABAIXO O COLONIALISMO!
    ABAIXO O NEOCOLONIALISMO!
    ABAIXO O IMPERIALISMO!
    Armas esgrimidas sobretudo pelas organizações juvenis, em defesa
    das conquistas das jovens independências, contra as ofensivas
    neocolonialistas das antigas potências coloniais.

  11. Nesse contexto, não tendo podido optar, por razões objectivas e
    subjectivas, por nenhum dos dois regimes então prevalecentes a nível
    internacional, não é de estranhar que a maioria dos países libertos dos
    cinco séculos de exploração e de opressão pelo sistema capitalista
    tivessem adoptado, no processo das suas primeiras reformas
    estruturais, algumas medidas semelhantes àquelas tomadas pelos
    países do bloco socialista.
    Todos (ou quase todos) os países africanos libertos da colonização
    depois da Segunda Guerra Mundial iniciaram a governação com o
    regime de PARTIDO-ÚNICO.

  12. De realçar também que os interesses económicos e estratégicos
    levaram as potências coloniais (todas) a apoiar, tácitamente, a
    instauração do PARTIDO-ÚNICO nas suas antigas colónias e, ao
    mesmo tempo, a fomentar e apoiar os múltiplos golpes de Estado
    militares em África.

  13. Com a queda do Muro de Berlim em 1989, nos finais dos anos oitenta
    do século XX, assistimos ao rápido desmoronamento do bloco socialista
    da Europa e, como consequência, ao reforço do mundo unipolar,
    dominado pelos USA.
    Foi essa a grande oportunidade histórica aproveitada pelas potências
    dominantes do “primeiro mundo” para impor ao “terceiro mundo” uma
    “terceira camisa de força” pronto a vestir.
    A “terceira camisa de força”, imposta à maioria dos países africanos,
    não resultou de uma adequada evolução interna nas sociedades
    daqueles países. Ela caiu de paraquedas.

  14. A “terceira camisa de força” é, sem dúvidas, um instrumento de
    estratégia das potências dominantes do “primeiro mundo”, que
    compreenderam que os intermináveis golpes de Estado, tantas vezes
    organizados e incentivados por elas, já não eram instrumentos
    apropriados para manter no poder regimes favoráveis à manutenção
    dos interesses económicos e estratégicos da Metrópole.
    Por conseguinte, a implantação da “terceira camisa de força”, sobretudo
    no continente africano, tem como objectivo principal salvaguardar os
    interesses económicos e estratégicos das potências dominantes do
    “primeiro mundo”, amarrando ideologicamente os países do “terceiro
    mundo” ao mundo da economia liberal, ao mundo ideológico dos
    antigos patrões.

  15. Porém, o grande drama é que a maioria dos novos países do “terceiro
    mundo”, sobretudo os países africanos recentemente libertos dos 550
    anos de escravatura e de opressão colonial, ainda não estão, nem
    estruturalmente, nem socialmente, nem politicamente preparados para
    vestir, sem percalços, a “terceira camisa de forças”.
    Não deixa, no entanto, de ser uma incontestável verdade que a
    democratização é um processo universal.

  16. De relembrar que, nos países do “primeiro mundo”, a DEMOCRACIA
    não caiu de paraquedas.
    Historicamente, a democracia, na Europa, não surgiu de uma forma
    simples. Resultou de um longo, lento e diversificado processo de
    evolução, cheio de contradições, com guerras e até com revoluções.
    Foi um longo processo, que ainda hoje vai convivendo com alguns
    espinhos. Só em 1789, com a Revolução Francesa, as ideias
    democráticas se propagaram na Europa.

  17. Mas o mundo unipolar reinstalado nos anos oitenta-noventa do século
    XX está em vias de extinção.
    Estamos perante o surgimento e consolidação de uma nova ordem
    mundial, de um mundo multipolar. A nova relação de forças a nível
    internacional daí resultante poderá criar condições mais apropriadas
    para a implantação, sem IMPOSIÇÕES de terceiros, da democracia no
    mundo.

  18. Creio, por isso, que, nas condições do mundo de hoje, cada vez mais
    globalizado e mais multi-polarizado, a DEMOCRACIA, devidamente
    configurada e adaptada às realidades objectivas e subjectivas
    prevalecentes em cada um dos países destinatários, poderá vir a
    transformar-se num importante instrumento de paz e de mobilização
    nacional de toda uma sociedade, garantindo assim a imprescindível
    participação do cidadão informado e organizado no tão desejado
    processo sustentável de desenvolvimento nacional.
    Manuel Pinto da Costa
8 Comments

8 Comments

  1. Deodato Silva Capela

    11 de Setembro de 2025 at 21:28

    Como estamos na era de ÍA, eu como professor tenho por hábito usar o filtro para analizar e classificar o conteúdo.
    100% obra feita por um humano experiente.

  2. Célio Afonso

    12 de Setembro de 2025 at 7:48

    Com o devido e sempre merecido respeito, este texto não justifica nada em absoluto. A nacionalização das antigas roças foi a pior desgraça que aconteceu em STP. Ela deu lugar ao parcelamento das terras, não sei em nome de que tipo de política económica; as maiores e melhores partes passaram para a posse dos senhores políticos que mal entendem da agricultura, e hoje temos um país que deixou de produzir o que devia efetivamente e encontra-se mergulhado na mais profunda miséria, sem qualquer alternativa para os nossos jovens, forcando-os à emigração para não perecerem de fome, enquanto os políticos vão acumulando riquezas à custa do erário público.
    O senhor sabe quantos hospitais existiam nas roças?
    Portanto, não tente justificar o injustificável porque não somos parvos nem cegos.

    • Macalacata

      12 de Setembro de 2025 at 22:07

      Foi a segunda republica do Sr Miguel Trovoada quem ofereceu terras as pessoas para abaterem as arvores e mais nada

  3. santomé cu plixinpe

    12 de Setembro de 2025 at 9:47

    VIVA….Dr Manuel Pinto da Costa………………….sem palavras.

  4. Cerineu Renner

    12 de Setembro de 2025 at 18:17

    Excelentíssimo Senhor Dr. Manuel Pinto da Costa,

    Por ter tido a honra de ser citado por Vossa Excelência, é com elevada consideração que felicito V.Exª. pela nobre disponibilidade em continuar a partilhar, através da escrita, reflexões que constituem um valioso contributo para o conhecimento histórico e político de São Tomé e Príncipe. O legado intelectual que transmite reveste-se de particular relevância para o meio académico, pois a história constrói-se e consolida-se precisamente através de testemunhos vivos e análises rigorosas.

    Como recomendação, seria de enorme utilidade que estes escritos fossem reunidos e publicados em formato de memórias ou coletânea de ensaios, permitindo a sua sistematização e preservação, de modo a servir como fonte de estudo e referência incontornável para investigadores, estudantes e decisores, garantindo a transmissão desse património às gerações futuras.

    Saudações cordiais.

  5. Joao Batepa

    12 de Setembro de 2025 at 20:05

    Consciência pesada?

  6. JuvencioAO

    14 de Setembro de 2025 at 6:57

    Parabenizo.

    No entanto,

    1. Gostaria de dizer que essas estatísticas, erradas ou não, são elas em que nós, os são-tomenses, sempre nos baseamos. E nas escolas, são elas que são transmitidas. Não é portanto agora que alguém com a sua responsabilidade venha dizer que podem estar erradas.

    2. Efectivamente, a nacionalização das roças era, na altura, um imperativo. Hoje, alguns podem contestar este facto. Mas era necessário. O destino posterior é que pode ser contestado.
    3. No entanto , há dois aspectos importantes a considerar:

    (i) – Após o 25 de Abril de 1974, os são-tomenses eram aconselhados pelos “políticos são-tomenses” para não adquirirem os bens dos “colonos”. Mas todos os “chalés” desses “colonos” foram depois ocupados pelos “novos donos” políticos são-tomenses. Esta foi a primeira obra macabra dos políticos são-tomenses.

    (ii) – A segunda desfeita desses políticos são-tomenses foi no processo de distribuição das roças no início da década de 1990, onde quase todas as médias empresas foram entregues a esses políticos. Como resultado, hoje, não existe nem uma dessas médias empresas, sendo grande produtoras de Banana, Matabala, Mandioca, etc, que servem de alimentação do povo.

    4. Também, vejamos que no período colonial, quase todos os cacaueiros eram regados. Hoje, todas as valas de água são extintos e nem se pensa que essas plantas precisam de água.

    No fundo, o cacau não podia ter outra sorte.

    E a desfeita dos “políticos são-tomenses” CONTINUA!

  7. Joaquim Rodrigues da Fonseca do Nascimento

    19 de Setembro de 2025 at 10:46

    Excelente trabalho, Sua Excelência. Entro apenas para relembrar a muitos santomenses que viveram o período de transição, que se não houvesse a nacionalização das roças, acredito que os colonos abandonariam na mesma as roças. Repara:
    1 – Antes da independência, o salário das roças rondavam 24 escudos/dia, houve uma revolução popular, foram pegar o senhor Fonseca de Rio do Ouro, puseram-no em cima de camião para vir a antiga curadoria que hoje está instalada o Ministério de trabalho, para assinar um documento que permitisse o aumento de salário para 60 escudos/dia. Naquela altura quem ordenava o salário nas roças era o chamado Senhor Fonseca de Rio do Ouro. Assim foi feito e o salário subiu de 24 escudos/dia para 60 escudos/dia. Era já uma diferença de 36 escudos.
    2 – Depois da independência, novamente exigência para outra subida de 60 escudos/dia para 80 escudos/dia. Oura diferença de 20 escudos. Somando as diferenças, totalizaram 56 escudos.
    Reparem ainda: A cultura de cacau instalada em 1822, foi instalada com mãos de obra escravizada. Para quem conhece bem as empresas agrícolas, aquilo não foi fácil. Por exemplo nalgumas antigas dependências de Ponta Figo, muitos escravos morreram que nem sequer tiveram a sorte de ter um enterro. Não que falar de enterro digno. Não. Nem sequer tiveram enterro. Escaparam de “Blôgôdô” e lá ficavam. Aconteceu porém que, quando foi a abolição dos escravos, deixou de haver escravos passou a serem contratados com um salário em que 50% do salário recebiam na mão e outra parte era depositado na curadoria qu8e após o contrato ao irem para as seus países levavam-no. A partir desse momento de estabelecimento de salário, os colonos já não conseguiam suportar as roças, diminuíram o número de contratados e começaram a abandonar algumas dependências ficando apenas com as mais próximas da sede. Por Exemplo, em Santa Catarina, abandonaram S. Frederico, Claudina Rio Ave…, em Monte Café, abandonaram Chamiço, Maia, S. Luís, Claudina, Vale do Rio, Formosa etc, etc.
    Ora vejamos. Com esses aumentos todos feitos antes e depois da independência, acham que eles iriam suportar.
    A outra coisa que fizemos, foi de tentar recuperar essas terras todas que haviam abandonados. Aí é que tudo piorou pois os custos de recuperação foram avultadíssimos. Enfim. Apenas o meu contributo para o brilhante texto que vem elucidar a camada juvenil que não tiveram o privilégio em acompanhar o processo transitivo da independência, nem tão pouco a primeira república.

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