Opinião

O País em eminente Perigo

CREDO, CREDO! Toda essa confusão (criada?!) é, sobretudo, o produto acabado da manifesta incompetência dos sucessivos gestores do novo sistema político, caído de paraquedas e instaurado na RDSTP em 1991.

No entanto, não deixa de ser também verdade incontestável que nós, todos nós, santomenses, de uma forma ou de outra — uns ativamente como dirigentes políticos, outros passivamente por inação política do cidadão, ou ainda por sobrevivencialismo oportunista — somos todos responsáveis pela atual situação degradante em que o nosso país se encontra.

E agora, o que fazer? O país está à deriva. Iremos continuar com o mesmo paradigma? Não será que temos de mudar a forma como percebemos e equacionamos os problemas do nosso país?

Depois de 34 anos de uma tempestuosa travessia no desbussolado barco da democracia, há que se criar, sem mais delongas, um espaço onde todos juntos vamos ter de repensar o futuro de S.T.P.

  1. É minha convicção que um clima propício a mudanças em S.T.P. só poderá acontecer se representantes de todos os partidos políticos, da sociedade civil organizada, das comunidades santomenses no país e no estrangeiro forem convocados pelo Presidente da República, Chefe de Estado e Comandante das Forças Armadas, a participar num debate nacional harmonizador das diferenças, em busca de saídas e soluções consensuais, num país que “precisa desesperadamente de confiança, estabilidade e visão de futuro”.
  2. O país real em S.T.P. não está em condições, nem políticas, nem económicas e ainda menos sociais, para garantir que as eleições presidenciais, legislativas e autárquicas em 2026 sejam pacíficas e, muito menos, democráticas.
  3. Mas será que a regular realização das eleições autárquicas, legislativas
    e presidenciais é suficiente para se afirmar que se tem uma democracia
    saudável?
    Não será que temos estado a agir teimosamente, mais e com frequência, sobre efeitos, e adormecendo sobre as causas dos fenómenos?
  4. Só com eleições regulares não encontraremos um rumo certo para desenvolver S.T.P. Democracia sem desenvolvimento é campo adubado para um regime autoritário.
  5. Finalizado o debate nacional, o Senhor Presidente da República, Chefe de Estado, Comandante das Forças Armadas e de Segurança, deve continuar a assumir obrigatoriamente a liderança do processo. Numa recente publicação no Tela Non, já havia sugerido que o Fórum ou Debate Público poderia ter como objetivo principal procurar consenso em relação ao seguinte:
    PRIMEIRO: Uma Carta de Princípios de Conduta Social, em que figurariam as normas conducentes a uma moralização tanto acentuada quanto possível da vida nacional.

A Carta seria um conjunto de normas consensuais de conduta, suscetíveis de tornar mais eficaz a aplicação de qualquer disposição legal, mais patente e acentuado o sentido de responsabilidade individual e coletiva, e proporcionar oportunidades de participação mais consciente do cidadão na vida nacional.

Medidas concretas seriam apontadas para diferentes domínios da convivência social, nomeadamente: Educação, Prevenção da Corrupção, Boas Maneiras e Lealdade, Competência e Profissionalismo, Administração Pública, Defesa e Segurança, Ordem e Segurança Pública, Cooperação Internacional, Meio Ambiente, Cultura, Nacionalidade e Identidade Nacional.


SEGUNDO: Um Governo de Exceção que, durante um período razoável de governação e num clima o menos influenciado possível pelas dissensões pessoais ou políticas, possa resolver os desafios do presente, orientar, catalisar e dinamizar todas as formas de alcançar as metas do desenvolvimento do país.
TERCEIRO: Mecanismos julgados mais convenientes para a legalização da Carta de Princípios e para a formação, composição e mandato do Governo de Exceção.

São Tomé e Príncipe tem de acabar com os males sociais e políticos que dificultam o presente e comprometem o futuro.

Não será demasiado insistir que, sem mudança de atitudes e de comportamentos dos cidadãos em geral, e da classe política em particular, não haverá progresso nem bem-estar neste país, pois os seus recursos humanos e naturais nunca serão devidamente aproveitados.

Volto teimosamente e repetidamente a insistir, porque a situação atual de São Tomé e Príncipe ultrapassa a normalidade.

Os desafios que se colocam, a sua complexidade e grau de dificuldade reivindicam entendimentos que ultrapassem as maiorias simples e algumas vezes até efémeras , consensos alargados, amplos, perduráveis, que superem a legítima lógica partidária.

O caminho para esse máximo denominador comum não é fácil… mas é possível percorrê-lo através do diálogo entre todas as partes políticas e não políticas, entre instituições e destas com a sociedade, entre os partidos e suas direções.
Dialogar para a mudança, na situação em que o país se encontra neste momento, tem de ser interpretado como um apelo autêntico e genuíno, que vai para além de uma mera declaração voluntária de boas intenções.

Um apelo à mobilização, solidariedade e responsabilidade. Uma derradeira convocatória pública dirigida a todos aqueles que, como eu, pensam que não é possível perder mais tempo e muito menos lavar as mãos perante a situação de miséria da maioria da população.

Na conjuntura atual, este processo de diálogo nacional tem de ser iniciado e liderado por uma individualidade sobre quem recai, constitucionalmente, a responsabilidade de garantir a unidade do Estado e assegurar o regular funcionamento das instituições.

O Senhor Presidente da República vai ter de agir com a habitual serenidade, porque — repito — o sistema democrático santomense corre sérios riscos de perder credibilidade e, por conseguinte, a legitimidade.

Valerá mesmo a pena continuar a sonhar, continuar a insistir, continuar a lutar?
Será que um dia todo esse esforço dos santomenses será coroado de
êxitos? Eu acredito que sim.

Pertenço, felizmente, à geração da Utopia.

Respondo às perguntas formuladas com o mesmo desabafo do ativista político brasileiro Eduardo Moreira, entrevistado por um jornalista que lhe perguntou se ele tinha a esperança de que o seu filho iria viver num Brasil melhor.

Moreira respondeu-lhe que o que ele tinha como certeza era que o seu filho iria vê-lo lutar durante toda a sua vida por um Brasil melhor.
“E se não tiver sucesso?”, perguntou-lhe o jornalista.
O ativista respondeu-lhe:
“Se não houver frutos, valeu a beleza das flores;
Se não houver flores, valeu a sombra das folhas;
Se não houver folhas, valeu a intenção das sementes.”
Valerá sempre a pena lutar por um São Tomé e Príncipe cada vez
melhor.

  1. Valerá sempre a pena lutar — e lutar — para transformar São Tomé
    e Príncipe num cantinho da Terra onde dê gosto viver.
    E para isso: A LUTA CONTINUA.

Manuel Pinto da Costa

11 Comments

11 Comments

  1. Jorge Semeado

    29 de Outubro de 2025 at 7:50

    Pinto “bô bila bi”? Deixe de ser feiticeiro do pais que se regozija e reaparece sempre que o pais está em apuros. Lixou o país vendendo todos ativos a preço de banana aos seus amigos mangoloides, a preços de banana e fugiu para Portugal, vivendo a “regabofe” naquele pais. O Pinto da Costa ao invés de atrair investidores para projectos ainda que privados para criação de empregos no país, só aparece em situações difíceis no país. Aconselho o Pinto que demonstre um gesto de amor ao povo santomense, ajudando o pais a sair desta escuridão, angariando investimento de 10 milhões de dólares no sector da energia solar.
    O maior problema deste pais neste momento é a energia.
    Os dois blocos da nossa ZEE que o Sr. Pinto da Costa vendeu/entregou aos seus “compadres” mangoloides, estão aí adormecidos, em sonos profundos. Porque não incentivar os seus amigos a investirem nos referidos blocos, uma vez que o mais importante é resolver os problemas económicos? Sempre a criticar sem apresentar soluções económicas. Foi para apresentar apenas soluções politicas que o Sr. lutou tanto contra os portugueses e pela independência, para agora refugiar-se em Portugal para mandar bocas com segurança? Regresse ao pais para viveres a base de geradores.
    Espero que desta vez, o Telanon não me censure.

  2. Óscar de Sousa Baia

    29 de Outubro de 2025 at 8:31

    O texto publicado pelo antigo presidente da república é pertinente mas infelizmente ainda se enquadra na linha de utopia.
    O paradigma em STP só será ultrapassado quando houver devolução de confiança e de credibilidade aos políticos, pelo povo que detém o verdadeiro poder. Não vamos jamais construir a nação mais ditosa da terra enquanto não houver justiça aos múltiplos casos e acontecimentos que se tendem a presscrever-se.
    Tenhamos coragem de instaurar uma Comissão de Verdade e Reconciliação sem a qual jamais haverá ponte para diálogo construtivo. Infelizmente, está disseminado um clima de ódio e vingança que nunca será restaurado com regulares eleições que ao invés de democráticas resultam sempre em autocracia. Está iminente a explosão do barril de pólvora mas acredito no nosso Santo Poderoso que nos vai brindar de discernimento e de visão por forma a ultrapassar a atual crise instalada. Ainda não deitei a toalha ao chão. JUNTOS AINDA SOMOS CAPAZES!

    O filho escolhido e ungido
    Óscar Baía

  3. Grumicho Junior

    29 de Outubro de 2025 at 9:08

    Concordando-se, ou não, com o conteúdo do texto do senhor ex-presidente, Pinto da Costa, acho meritório a sua intervenção recorrente, como cidadão, dando o seu contributo para a mudança desejável no país. É isto que se espera, ou deveria esperar, de alguém que teve o percurso que o mesmo teve ou de qualquer outro cidadão. Por isso, aproveito a oportunidade para criticar todos aqueles que, abusivamente e num registo de manifestação de intolerância clara, desconsideram ou aproveitam a oportunidade para criticar o ex-presidente, Pinto da Costa, pelo facto do mesmo opinar sobre os assuntos do nosso país. Ele não perdeu os seus direitos como cidadão, pelo facto de ter sido presidente da república e, ao contrário dos outros ex-dirigentes do país que se mantêm calados ou em silêncio crónico, apesar do desmando que se verifica no país, neste momento, ele opina e aponta caminhos, de acordo com aquilo que considera ser o melhor para o país na sua opinião. A intolerância, neste momento, não está nele mas sim naqueles que tentam condicionar a sua intervenção no espaço público. Eu li, com gosto, o artigo e gostei do conteúdo do mesmo que me parece assertivo e com ótimos contributoa para análise e discussão sobre aquilo que nos preocupa como sociedade neste momento.

  4. Felisberto Braganca Dias

    29 de Outubro de 2025 at 9:28

    Eu partilho a mesma visão do melhor estadista de todos os tempos da nossa independência, tendo em atenção que está visão é clara e objetiva e proporcionará certamente aquilo que STP precisa já há algum tempo a essa parte e que os atuais atores políticos não querem dar ouvidos por interesses muito pessoal e de grutos em detrimento de toda população em geral.

  5. Joao Batepa

    29 de Outubro de 2025 at 12:18

    Boa tarde senhor Manuel Costa,
    O senhor se tem algo a dizer ao presidente da república, na autoridade de anterior ou antigo presidente da república, o senhor poderá pedir um encontro, uma vez que tem experiência profunda de governação correcta e errada.
    Estranha-me o senhor estar aqui a tentar obter créditos e mais uma vez estar a exibir paleio intelectual, tentando condicionar isso e aquilo. O senhor falhou e devia fazer o bom uso do silêncio como o seu sucessor senhor Miguel Trovada.
    O senhor, dessa forma, é um cata-crédito e só traz mais confusão a situação decadente da actualidade.
    Bom descanso

  6. Micael Afonso

    29 de Outubro de 2025 at 13:21

    Muito obrigado doutor Manuel Pinto da costa…. só sei de uma coisa em quanto não a ver compressão diálogo e entendimento entre os líderes políticos nada será possível

  7. Gato das botas

    29 de Outubro de 2025 at 18:37

    Bravo! No conteúdo, uma clarividência exemplar. Na forma, um excecional texto, bem escrito a todos os níveis. Contributos esclarecidos com esta qualidade, fazem-me ter menos dúvidas de que é possível se….
    Parabéns e muita força!

  8. Falcão e Papagaio

    29 de Outubro de 2025 at 22:38

    Anos depois de responsabilidade política, deve saber ler a toda a história, que da geográfica fisica e humana deste território, para entender as suas especificações económicas, socias, adminitravas, financeiras, …a analise que falta fazer

    Assumir 1975, sem entender como foi o processo de descoberta, povoação destas ilhas,…

    Seu processo de administração colonial, durante cinco seculos, até 1975,…que deixaram marcas bem fincadas, quer aqui, quer em africa, nos africanos, até os dias de hoje, as famílias, os cidadãos, a pessoa humana, sem escusar a continuidade que de temos estado a fazer sem dar conta

    A procura de terras e riquezas pelos povos europeus, nomeadamente Portugal, Espanha.

    Povos vindo de varios pontos, Europa, Africa e alguns judeus de oriente/ asia, para trabalhar, mas plantações, escravizados, traficos de pessoas, chamados escravos, violações de direitos humanos, chicotes, mortes e separação familiar, abusos, violações, segregação racial, deixaram marcas,…sobretudo ainda mais quando alguns Africanos, tramavam e tramam até hoje, seu conterrâneos….

    Moncos, Angular, o Forrô, o Tonga, o Monhé, etc…aliada a fome, a miséria, chicotes, pessoas como mercadorias,…

    Assumir isto, sem ler estes contexto, sem ler o contexto mundial na altura, até os dias de hoje,…é dar tiros nos pés

    A construção duma nação exige estes actos de reflexão, das personalidades, actores e corporações partidarias, bem como de toda a sociedade e cidadãos,…

    O que fizemos a nivel da educação, formação amplificamos estes mesmos problemas, disciplina de história, lições de epopeias europeias,…nem uma referência a história de África, dos povos africanos, bem como do que se descreve acima,…rsultado falta de consciência de onde pertence,…

    Por outro lado cidadãos enviados a estudar nos paises antigos colonizadores,…com cidades construídas, economias e finanças organizadas,….para quem sempre viveu na pobreza e miséria uma fuga para frente sem nada perceber da história, geração de novos problemas e aprofundamento da miseria e pobreza para estes povos, enquanto se ludibriava, e continua a ludibriar, com pacodes de ajudas a desenvolvimento que era e sao no fundo dívidas, juntando a corrupção pelo meio.

    A falta desta consciência, a vaidade politica, o poder, ofuscou esta visão, aliada a falta de diálogo.

    Etc etc, etc…, a língua que adotamos, pouca valorização cultural africana, muito e muito mais,…

    Jamais há território/povos/administração enviaveis, há sim mal organizados, mal estruturados, coma nuance de ausência da justiça, o caos que nos parece assistir,…sem enteder as razões

    É preciso reecalibrar com consciência o julho de 1975.

    • Falcão e Papagaio

      30 de Outubro de 2025 at 0:02

      Como ajuda ver e ler o artigo “Fragmentação da Sociedade São-tomense” Autor Rafael Branco,…muitos outros

      Sem vencer o desafio da instituição familia em crise, valores, pertença, a instrução/educação l sem vencer o desafio da pobreza, rendimentos e redistribuição numa sociedade fragmentada desde tempos da sua génese, difícil se resolverá o problema institucional/ social.

  9. SEMPRE AMIGO

    31 de Outubro de 2025 at 14:35

    Concordo inteiramente com o autor do texto quando ele,logo de entrada,no primeir parágrafo,escreve:”Toda essa confusão é,sobretudo,o produto acabado da manifesta incompetência dos sucessívos gestores do novo sistema político caídos de paraquedas e instaurado na RDSTP em 1991″No texto da jornalista angolana Luzia Moniz publicado no Novo Jornal angolano,lê-se:”Amilcar Cabral alerta bque a democracia só se torna possível com o envolvimento direto do povo afirmando:”a democracia não é uma coisa que se dá;é uma coisa que se conquista.E a conquista só é feita pela participação e pelo poder do povo”.

  10. Madiba

    25 de Novembro de 2025 at 16:20

    Senhor Pinto da Costa, eu entendo que na sua idade, há muito pouco que fazer. O senhor sempre andou na sorna. Sempre a chupar o sangue dos santomenses. A sorte ajudou-lhe muito na sua vida de preguiça. O nosso país hoje está coxo muito pela grande parte da sua contribuição. Ainda assim sempre que algo vai mal na sociedade santomense, o senhor regozija-se, bate palmas e reaparece com as mesmas palavras, os mesmos dizeres. Agora sim, percebo S. Tomé e Príncipe não poderia estar diferente! Nós e o nosso país somos muito infelizes ao ponto de termos governantes tão cruéis e tão fracos na inteligência! Nunca se pode pedir a estes fracassados dirigentes que o destino nos impôs.

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