A abertura da Jornada Científica da Saúde, esta terça-feira, 9 de dezembro, no Palácio dos Congressos, trouxe mais do que palavras de otimismo. Sob o lema “Investigar é melhorar a qualidade da saúde”, o evento expôs com clareza os avanços, as fragilidades e os desafios do sistema de saúde de São Tomé e Príncipe, dando ao sector ao mesmo tempo aplausos e um puxão de orelha.
O próprio facto de a jornada existir revela um compromisso com a ciência, evidência e reflexão técnica. Conforme mencionou o representante do Ministro da Saúde, Joucerly Tiny dos Ramos, o evento simboliza um “compromisso nacional”, um espaço para converter dados em políticas reais e para alinhar estratégias com base em estudos.
Embora o Presidente da Comissão Organizadora da Jornada Científica da Saúde, Pascoal D’Apresentação tenha referido que a jornada científica da saúde representa um espaço fundamental de reflexão, aprendizagem e produção de ilações que nos permitirão servir melhor os nossos utentes. “Trata-se de um fórum em que teremos a possibilidade de discutir diversas questões científicas diretamente ligadas à nossa área de atuação“.
Como é do conhecimento geral, a ciência e a tecnologia estão em permanente evolução, disse o doutor Pascoal D’Apresentação quando fazia a menção que um medicamento que hoje se mostra eficaz pode, amanhã, já não apresentar os mesmos resultados. “É através das investigações científicas e do rigor da evidência que conseguimos acompanhar essa dinâmica e ajustar as nossas práticas às exigências do tempo“, finalizou.

Há esforços em organização do sistema nacional: o Serviço Nacional de Saúde (SNS) está estruturado em vários níveis, com postos de saúde, centros de saúde distritais, unidades hospitalares secundárias e, no terço nível, o hospital central (Hospital Dr. Ayres de Menezes) como referência nacional.
Programas de saúde pública, materno-infantil e prevenção de doenças têm registrado progressos, o país tenta alinhar-se aos objetivos do Organização Mundial da Saúde (OMS) e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável para saúde e bem-estar.
Há também iniciativas recentes de capacitação técnica e de uso de novas ferramentas científicas. Por exemplo, técnicos do sector participaram de formação em georreferenciação aplicada à saúde pública, o que pode fortalecer a vigilância epidemiológica e a formulação de políticas com base em dados.
Esses sinais revelam que há vontade de modernizar, de estruturar o sistema e de basear decisões em evidências, algo essencial para um país insular com recursos limitados.
Mas os desafios são enormes, persistentes e ameaçam comprometer os avanços.
Escassez de recursos humanos, o país conta com cerca de 0,5 médicos por 1.000 habitantes, um número bem abaixo das recomendações para cobertura universal de saúde.
Infraestrutura e cobertura limitada há poucos hospitais, um hospital central, um hospital em Príncipe, 6 centros de saúde e cerca de 32 postos / postos comunitários em todo o país.
Insuficiência em camas hospitalares e equipamentos especializados, o rácio de camas por habitante é modesto (cerca de 2.9 camas por 1.000 habitantes), abaixo da média global.
Problemas com medicamentos e insumos essenciais, há relatos de falta frequente de remédios essenciais, o que compromete tratamentos e a confiança da população no sistema.
Distribuição desigual e acesso desigual aos cuidados de saúde, embora exista cobertura universal “no papel”, muitos cidadãos longe da capital ou em zonas rurais têm dificuldade de acesso a cuidados de especialidade.
Fragilidade na produção e uso de dados estatísticos e epidemiológicos: embora exista um sistema de informação de saúde e anuários estatísticos recentes, a consolidação, análise e disponibilização desses dados ainda enfrenta desafios, o que limita a capacidade do Estado para planejar e responder a epidemias e doenças crónicas com eficácia.
Doenças crónicas e transmissíveis ainda pesam no país, por exemplo, a hipertensão atinge uma proporção significativa da população adulta, e a malária continua presente.
Em síntese, o sistema de saúde de São Tomé e Príncipe ainda vive uma realidade com recursos escassos, desigualdades no acesso, limitações de estrutura e lacunas na consolidação de dados, o que torna urgente transformar intenções em ações concretas.
Esses dados confirmam que o país está longe de alcançar padrões de saúde ideais, especialmente no que toca à cobertura de serviços especializados, densidade de pessoal de saúde e infraestrutura.

A jornada que agora começa, com o lema “Investigar é melhorar a qualidade da saúde”, assume-se como uma luz no fim do túnel.
Este é um espaço para produzir, partilhar e discutir evidências científicas, com vista a orientar políticas de saúde mais eficazes e contextualizadas.
As apresentações e debates servirão para identificar, tecnicamente, os problemas reais da saúde no país e sugerir soluções práticas, apontando prioridades para reforço da saúde pública, prevenção, promoção e qualidade dos serviços.
A meta declarada é transformar dados e estatísticas em ações concretas, melhor distribuição de recursos, fortalecimento do capital humano, melhoria dos serviços de saúde primária, secundária e especializada.
Se bem aproveitada, esta jornada pode representar um divisor de águas para o sector desde que os resultados saiam dos discursos e entrem na realidade, investimentos reais, políticas contínuas, transparência, equidade territorial e compromisso institucional.
A Jornada Científica da Saúde chega em momento oportuno num país com sérios déficits, fragilidades históricas e urgências profundas. O lema “Investigar é melhorar a qualidade da saúde” revela maturidade e consciência de que a ciência não é luxo, é base para salvar vidas.
Mas a transformação real exigirá mais do que boas intenções: exigirá compromisso político, investimento sustentado, gestão eficaz e transparência. Se os resultados desta jornada forem de facto traduzidos em políticas palpáveis, São Tomé e Príncipe poderá dar um passo decisivo rumo a um sistema de saúde digno, acessível e eficaz para todos. Caso contrário, ficarão apenas papel e discursos.
Waley Quaresma
DST's
10 de Dezembro de 2025 at 11:44
Muito bem
Um bom começo de como podemos resolver problemas, desfaios, encontrar objectivos
Ama a tua terra, as tuas gentes, os teus território, dá o teu contributo, ajuda a desenvolver o teu país
Bem haja
Infraestrutura de Saúde
10 de Dezembro de 2025 at 11:52
Premente visao ampla para o sector da saúde
Capacitar e fortalecer a Universidade de São Tomé e Príncipe, expansão modernização dos eus serviços
Em termos de investimento necessitamos de ter a capacidade de vir a formar profissionais e técnicos de saúde á nível interno
Construir e requalificar infraestruturas de saúde
Fortalecimento das instituições de saúde, quer a nível de rigor, organização, procedimentos, recursos humanos, equipamentos, bem como a nível financeiro.
Dupla Insularidade
10 de Dezembro de 2025 at 12:36
Nestas jornadas incluir profissionais e técnicos da Região Autónoma do Príncipe, bem como dia distritos