Política

Lei da Paridade desafia a comunicação social a reforçar rigor e igualdade na cobertura das eleições

Os profissionais de diferentes órgãos de comunicação social públicos e privados participaram, na última quarta-feira, num atelier dedicado à Lei da Paridade, realizado na Sala Sérgio Vieira de Melo, no Sistema das Nações Unidas em São Tomé e Príncipe, numa iniciativa que colocou no centro do debate o papel da comunicação social na promoção da igualdade entre mulheres e homens na participação política.

O atelier tinha como objectivo aprofundar conhecimentos sobre a legislação, combater estereótipos de género e preparar jornalistas para acompanhar a aplicação da paridade nas eleições de setembro.

Procurou igualmente aproximar os profissionais da comunicação social do conteúdo e dos objetivos da legislação sobre paridade, mas também promover uma reflexão sobre a forma como mulheres e homens são apresentados no espaço público e político, particularmente num período que antecede as eleições legislativas, autárquicas e regionais previstas para setembro.

Promovido no âmbito do trabalho de apoio à implementação da Lei da Paridade, o encontro contou com a participação do Instituto Nacional para a Promoção da Igualdade (INPG) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), envolvendo jornalistas, repórteres, profissionais de televisão, rádios, e imprensa escrita operadores de câmara e responsáveis editoriais.

A Diretora do Instituto Nacional para a Promoção da Igualdade, Jailça Lima, falou sobre a importância da participação dos profissionais da comunicação social num espaço de diálogo e reflexão sobre a igualdade.

O papel dos jornalistas é essencial não apenas para informar, mas também para mobilizar a sociedade e contribuir para a consolidação da democracia, da justiça social e da igualdade entre mulheres e homens”, disse.

Jailça Lima defendeu na altura, que o debate sobre a Lei da Paridade deve ser acompanhado de uma atenção particular à forma como a informação é produzida e apresentada ao público, apelando aos profissionais para contribuírem para a desconstrução de preconceitos e para a redução dos estereótipos de género nas notícias e nas diferentes peças jornalísticas.

Para a Diretora do INPG, “a comunicação social deve assumir uma postura livre, atenta e justa, uma vez que a qualidade do debate público e a forma como os cidadãos recebem a informação podem contribuir para fortalecer o futuro colectivo”.

As próximas eleições legislativas, autárquicas e regionais constituem um momento particularmente importante para colocar em prática os princípios previstos na Lei da Paridade.

A representante do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Nelma Rita, considerou que o atelier acontece num momento particularmente relevante, tendo em conta a aproximação das eleições de setembro.

A necessidade de os profissionais da comunicação social conhecerem a legislação e compreenderem o seu alcance, mas também de desenvolverem ferramentas que lhes permitam fazer uma cobertura eleitoral independente, justa, rigorosa, equilibrada e responsável”, sublinhou.

Nelma Rita chamou igualmente a atenção para a diferença entre a existência de uma lei e a sua efectiva aplicação na prática.

Os dados apresentados durante o encontro, nas eleições de 2022 as mulheres representaram 34,48% das candidaturas efetivas, enquanto apenas 12 das 79 listas foram lideradas por mulheres, correspondendo, de acordo com os números apresentados, a 14,5% dos mandatos”.

É precisamente nesta passagem do quadro legal para a realidade política que, segundo a representante do PNUD, a comunicação social desempenha uma função determinante.

Para Nelma Rita, a responsabilidade da comunicação social não se limita à divulgação da lei. Passa igualmente por criar condições para uma cobertura que permita aos cidadãos conhecer as propostas, competências e visões de mulheres e homens que concorrem a cargos políticos.

Entre os profissionais que participaram no atelier, a discussão permitiu também reforçar a ideia de que a Lei da Paridade não deve ser interpretada como uma legislação destinada exclusivamente às mulheres.

O jornalista da RNSTP e STPPRESS, Francisco Lima, mencionou que a legislação estabelece uma obrigação legal para as entidades que apresentam candidaturas, defendendo que os partidos políticos devem cumprir as regras previstas na lei quando submetem as suas listas aos tribunais.

A divulgação da legislação pela comunicação social é fundamental para que a população conheça os seus direitos e compreenda as regras aplicáveis à participação política”, apontou.

O jornalista considerou ainda que a legislação procura assegurar a representatividade de mulheres e homens nos órgãos de decisão política, não devendo ser entendida como uma medida destinada a favorecer exclusivamente um dos sexos.

Daniel Cacela, radialista da Rádio Jubilar, defendeu que a comunicação social pode assumir uma função particularmente importante na divulgação e explicação da legislação à sociedade.

A Lei da Paridade procura assegurar uma representação equilibrada de mulheres e homens nas listas apresentadas às eleições legislativas, autárquicas e regionais, estabelecendo um mínimo de 40% para cada sexo, conforme explicado durante o atelier”, afirmou.

Daniel Cacela rejeitou igualmente uma interpretação preconceituosa da legislação como sendo uma “lei feminista”, considerando que se trata de uma legislação destinada a todos e que procura promover uma maior igualdade na representação política.

Para o radialista, os jornalistas, pela sua posição de independência e responsabilidade perante a sociedade, podem constituir instrumentos importantes para divulgar a Lei n.º 11/2022, explicando de forma simples os seus objetivos e a forma como deverá ser aplicada no contexto eleitoral.

A comunicação social, acrescentou, pode contribuir para o crescimento da consciência cívica e para a desconstrução de estereótipos associados ao papel das mulheres na sociedade”.“A mulher está muito acima dos nossos estereótipos”, finalizou.

Esta reflexão converge com a preocupação manifestada pelo PNUD sobre a forma como os meios de comunicação social representam mulheres e homens na política.

O atelier colocou, assim, a comunicação social perante um desafio que ultrapassa a simples divulgação de informação eleitoral.

Com a aproximação das eleições legislativas, autárquicas e regionais, os profissionais deverão acompanhar a composição das listas, verificar o cumprimento das disposições legais aplicáveis, dar visibilidade às propostas dos candidatos e candidatas e assegurar que a cobertura jornalística seja feita com rigor e equilíbrio.

Waley Quaresma 

FAÇA O SEU COMENTARIO

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

To Top