Opinião

Que perspectivas para o Mercado Municipal da cidade de São Tomé?

Por Lúcio Neto Amado

O Mercado Municipal da cidade de São Tomé, a cidade-capital de todos são-tomenses, que devia ser protegido pelo Estado e classificado como Património Nacional da nação, parece estar inexoravelmente condenado ao camartelo da ignorância de quem de direito.  

              Os moldes do bárbaro desmantelamento começaram a tomar contornos de destruição, a partir do momento em que o tecto começou a desabar, fruto de mecanismos perniciosos intencionalmente fomentados por mão humana. As intempéries do tempo fizeram o resto.

Aproveitou-se a «feira-das-vaidades» que o mês de Setembro de 2022 proporcionou, fruto das eleições – género três-em-um – legislativas, autárquicas e regionais para, serenamente, partir-se todas as bancadas do mercado e outros apetrechos construídos nos idos anos de 1950. Essa operação é feita de uma forma quase clandestina para não despertar a ira da população. Não existe qualquer cartaz informativo que relate, efectivamente, qual o destino a dar a esse Património Nacional.

              Assim, a emblemática construção que se constituiu durante décadas no centro do movimento cultural, social e económico da nossa cidade está em vias de desaparecer, enquanto tal para ser transformado numa «coisa» qualquer de que ninguém consegue fazer ideia.

              Fica-se com a nítida sensação de que o conceito de Património Nacional nunca fez parte do nosso dicionário ou mesmo do vocabulário escolar e nem do linguarejar popular.

              Os arautos da nossa desgraça cultural começaram por expulsar as vendedeiras para fora da cidade, criando um mercado no sítio de Bôbô-Fôrro que fica na periferia da cidade. Alguns munícipes ficaram com a sensação de que a deslocação das vendeiras teria um carácter provisório, ou seja, após algumas obras de restauração, o edifício já com a cara lavada seria devolvido, em primeiro lugar, às vendedeiras, depois aos munícipes e posteriormente aos turistas que debandam amiudadas vezes as paisagens do arquipélago.

O martelo da desgraça ou fins desconhecidos com laivos de fraude imobiliária

              A história do processo de desmantelamento desse Património surge depois da saída compulsiva das vendedeiras. O negócio feito, aparentemente a surdina, como outros tantos que ocorrem no país, cujo exemplo acabado é o «elefante branco» erigido na antiga Féla Póntu (Feira de Ponto) que abafou literalmente a centenária Igreja da Conceição, levanta questões preocupantes. Não se sabe quem é, na realidade, o responsável pela adjudicação da obra.

Os incógnitos “compradores” utilizaram uma estratégia que desconhecemos, pois os elementos são-tomenses que com eles negociaram não nos informaram concretamente o que se pretende fazer num espaço que é pertença de todos os são-tomenses. Há décadas que o Património do nosso país vem sendo grosseiramente delapidado, fugindo à lógica universal dos princípios que os povos retêm da MEMÓRIA COLECTIVA.

História do Mercado Municipal

O nosso Mercado Municipal faz parte da infância dos indivíduos que nasceram nas décadas de 1950, 1960 e princípios de 1970. A sirene marcava o ritmo laboral da cidade, tocada com estridência pelo responsável máximo do estabelecimento, logo pela manhã, às 7 (sete) horas e ao cair da tarde pelas 17:30 (dezassete horas e trinta minutos). O Mercado era um local privilegiado onde no seu interior, as vendedeiras, vulgo palaiês, faziam o pleno das suas lides de bem servir à população que lá ia abastecer-se de produtos hortícolas, peixes, farinha de mandioca, bananas de várias qualidades, beringela, óleo de palma, entre outros.

Todas as novidades relacionadas com a vida da cidade eram expostas no interior do Mercado. A vida desportiva, cultural e artística era anunciada através de cartazes colocados em cavaletes próprios para o efeito. Assim, os filmes, sobretudo os de cowboy eram aqueles que despertavam maior interesse de todos; o teatro; a tourada, com forcados e cavaleiros montados; o circo com palhaços e animais ferozes; a luta-livre; o boxe, tudo era publicitado com a solenidade devida na Féla (mercado na língua forro).

Outra novidade prendia-se com os indivíduos – principalmente os embarcadiços – que viessem de fora. Apresentavam-se no Mercado como forma de dar a conhecer a todos, a novidade de mais um filho da terra «ku bí fô Putugá» (que veio de Portugal) ou «ku bí fô Sulu» (que veio de Angola). Estes últimos imigravam para Angola para trabalharem na função pública e no sector privado como enfermeiros, como contabilistas, como motoristas e profissões afins.

O seu exterior era circundado por pavilhões que tinham serventias, para todos os gostos, nomeadamente lojas de venda de produtos alimentares importados, destacando-se farinha de trigo, leite em pó, massa de tomate, açúcar, arroz, feijão, entre outros. Outros pavilhões eram especializados na venda de galochas, de produtos próprios para a agricultura; produtos para a pesca; toda a gama de material escolar. Bares e talhos fechavam o círculo de lojas que constituíam os pavilhões.

Nessa panóplia de lojas e pavilhões, sobressaia uma de entre todas: vendê de Sun Mé Clé-Clé (a loja do senhor Mé Clé-Clé), local onde muitos indivíduos de poucas posses iam, antes de começarem a trabalhar, tomar o mata-bicho que constava de gôngô (caneca de meio litro) de café acompanhado de broa de milho e/ou pão com manteiga, com açucarinha, ou chouriço de sangue designado pelos naturais por souliçu féla, (morcela local confeccionada com muita malagueta).

Abril, mês decisivo para inaugurações

              O mês de Abril foi decisivo no que concerne a inaugurações de obras públicas de vulto na ilha de São Tomé, capital da Província Ultramarina de São Tomé e Príncipe, realizadas pelo governador Carlos de Sousa Gorgulho, figura que evoca a triste memória do “massacre de 1953”. Dessas, destaca-se o MERCADO MUNICIPAL – cidade S. Tomé.

De acordo com o Jornal “A Voz de S. Tomé”, Quinzenário Cultural, Noticioso e Literário, Nº. 66, Ano III, de 01 de Abril de 1952, foi realizado, pelas 11 horas, «a inauguração do Mercado Municipal, devendo a guarda de honra ser prestada pelo Corpo de Polícia Indígena».

O Mercado Municipal é uma obra que “(…) no conjunto ocupa uma área de 3.408 m2, incluindo 200 m2 de pavimentos no 1º andar e 312 descobertos, na parte central. Área coberta a fibrocimento e lajes de betão armado: 2.713 m2. A obra foi iniciada em Agosto de 1951 e deve orçar por 1950 contos, demorando assim cerca de 7 meses a sua construção. Dispõe de 20 lojas comerciais, com amplas montras de exposição, 2 apetrechadas para talhos e outras 2 para frigoríficos, 2 torreões e 2 pavimentos destinados a serviços municipais. Possui 16 compartimentos para sanitários, 8 dos quais com serventia pelo exterior, 47 mesas para lugares de venda. Dispõe ainda de 4 dependências para arrecadações e porteiros. O abastecimento de água é perfeito. Possui 4 bôcas de rega, um fontenário-bebedouro e um chafariz com 2 torneiras. Duas amplas fossas destinadas a receber os dejectos, asseguram o escoamento das sargetas e sanitários.” Esta descrição vem inserida no Jornal “A Voz de S. Tomé”, Quinzenário Cultural, Noticioso e Literário, Nº. 67, Ano III, de 05 de Abril de 1952.

O retracto da nossa cidade, na actualidade

              Hoje, a nossa cidade apresenta-se completamente desfigurada, pois é diariamente agredida com poluição sonora, falta de sinalização rodoviária, inexistência de placas toponímicas, lixo, os edifícios estão sem brilho, os jardins escasseiam e as barracas fazem o seu pleno em quase todas as esquinas. Esse é um dos cenários ideal para que se desencadeie a agressão a tudo que deve ser classificado como PATRIMÓNIO NACIONAL, uma herança fruto de cinco séculos de colonização.

              O espectáculo sugere que seja projectada e construída uma nova cidade, na periferia da actual – cidade velha. Seguramente que não faltará espaço, nomeadamente, na orla marítima de Diogo Nunes; na zona de Gongá; na estrada da Trindade (entre Chácara e Torres Dias); em Praia Melão (Pantufo incluído); no Riboque (a partir do prédio até Bôbô Fôrro). 

              A actual cidade deverá ser mantida e preservada com toda a sua traça original podendo constituir-se, como Património Mundial, dada a sua longevidade de mais de quatrocentos anos da sua fundação.

É claro que essa reflexão ao “Mercado Municipal” não pretende evocar qualquer saudosismo extemporâneo e suscitar querelas inúteis porque despropositadas. Mas o que está em causa mesmo é como manter a originalidade da capital da República de São Tomé e Príncipe (a cidade de São Tomé) e permitir que o crescimento/desenvolvimento se faça sem descarectizar a sua singularidade.

6 Comments

6 Comments

  1. Sem assunto

    13 de Outubro de 2022 at 16:13

    Large isto Lúcio, aquilo ali é uma fruta podre, deixe a cair por si só.
    Vamos falar do ISEC/USTP?
    Aquele rapaz matemático nada entende de gestão, nem tampouco de pedagogia, nos seus quase quatros anos afrente daquilo o Instituto Superior de Ciências de Educação e Comunicação recuou largos anos. Ele não tem tempo para aquilo, pois passa a vida dando aulas no ISP e o ISEC fica entregue as moscas.
    Agora criaram um novo curso denominado de Gestão Cultural entregue nas mãos daquela menina historiadora, que bem sabes passa todo o tempo “fulúndo” o horário ao invês de investigar, publicar e propor mudanças como é da praxe de professores universitários, ja há vozes de que boa parte de cadeiras, deste curso, foi alterado por sua iniciativa de “gula” para adequar ao seu perfil e assim conseguir mais horas, credo universidade!
    Aonde vamos parar com isto Lúcio Amado?
    Tu mesmo, um professor conceituado dependes de licenciados para teres o horário, numa universidade. Há uma jovem ali mulata Doutorada que recebe com a categoria, Peregriniana- (invenção do Reitor Peregrino Costa, cambalacho pessoal para faturar por fora, aonde: Doutorado/Mestre/[Licenciado(?) a dar aulas na universidade? só mesmo em São Tomé] devem receber igual por hora, que pecado, a mesma depende de boa vontade dos chefes com apenas licenciaturas para determinarem se ela Doutorada consege ou não o horário.
    Enquanto isto o Peregrino assobia para o lado, o que ele quer é os seus Duzentos e tal Mil Dobras mensais na conta, na escolha de novo reitor ele e a sua gangue alteraram o estatuto para conseguir ser eleito, pois está matriculado há decadas no doutoramento e nunca mais acaba, o homem só sabe apresentar a sua triste especialidade arrancada a ferros na União Sovietica, de lá para cá nunca mais estudou, bendito reitor.
    Mais não falo, ensino superior em São Tomé é uma mescla de comédia e tragédia sem fim.

  2. Observador Atento

    13 de Outubro de 2022 at 19:08

    Um excelente artigo que traca bem o percurso do nosso Mercado Municipal. So faltou a historica praca dos taxis que tambem era um lugar muito “movimentado”. Eh pena que nos os saotomenses nao sabemos preservar o nosso Patrimonio: A nossa Feira, as nossas Rocas, o nosso Nautico etc…etc. Isto esta relacionado com o desenvolvimento socio-cultural. Nos paises ditos desenvovidos os patrimonios historicos sao conservados por respeito a cultura do pais. Em Sao Tome nao se respeita mais nada “cada ngue ca sebe de vida de”
    Tambem, ao ler o seu artigo deparei com uma grande coincidencia! Foi o assassino do Governador Gorgulho que enaugurou o Mercado Municipal e foi o Pinta Cabra que decidiu da Morte do nosso Mercado. E quando vejo o slogan populista utilizado na campanha “papa chegou fome acabou” faz me lembrar as atitudes populistas do governador Assassino Gorgulho; quando este chegou a Sao Tome andou a distribuir rebucados as criancas e fazer muitas promessas para contratar os forros! E sabemos do que aconteceu depois ou seja “O Massacre de Batepa”, onde muitos nossos compatriotas foram assassinados pelo facto de nao terem aceitado o recenseamento!
    A segunda coincidencia o Dr Jorge Pereira Dos Santos nasceu na Trindade Uba Flor em 1953 (durante o massacre de Batepa)! Faco votos que o nosso Sao Tome tenha um futuro radioso mas que a justica se faca para todos os assassinos a solta, como eh o caso de Dr Jorge Santos. Os assassinos estao a Solta, mas ninguem fez ou faz nada, a comecar pelo Presidente da Republica e Procurador Geral da Republica!

    • Margarida lopes

      14 de Outubro de 2022 at 10:57

      OBSERVADOR ATENTO, nao creio que se trata de uma mera coincidência quanto ao crime assassinato do economista Jorge Pereira dos Santos e este célebre massacre do BATEPA em 1953.Acredito que a desgraça do mandatàrio do assassinato do Jorge Santos vai ser por causa deste CRIME HORRENDO que ele cometeu e que vagundo como ele é , està persuadido que esta ATROZ MORTE MATADA do Barboy està sendo banalizada, até mesmo esquecida, pois que a justiça demora …jà là vao 4 anos . O assassino do Jorge Pereira dos Santos, deu o FORA de STP, està FORAGIDO, mas mesmo no buraco, leva o tempo que levar, serà de là arrancado a qualquer momento a qualquer hora…NADA CHEGA ANTES DA HORA, NADA CHEGA DEPOIS DA HORA. Apesar da tragédia viu-se o corpo do JORGE e ele foi enterrado dignamente…é tudo que podemos dizer!
      Quanto aos assassinos que estao a solta é devido ao péssimo funcionamento da PJ, do TRIBUNAL…da justiça de STP em geral, que sao CORRUPTOS…STP està num CAOS lamentàvel que é devido a ignorância , a falsidade do POVO. Tudo funciona MAL e é o OBJETIVO de uma categoria dos homens politicos assim dao largas ao ROUBO e CORRUPCAO pois que o pais està numa DESORDEM TOTAL. Miséria!!!

  3. Joao Carlos Silva

    13 de Outubro de 2022 at 20:46

    Acho que o novo Governo deve suspender esta barbárie. Este mercado é parecido ao que existe na cidade da Praia-Cabo verde, aliás o de S.Tomé é maior. Se bem que em Praia aumentaram na vertical com estrutura metalica, mas sem alterar a estrutura arquitectónica.

    Ambos estão no Centro da cidade. No casco antigo da urbe.O problema de São Tomé é simplemente a anarquia que graça o país.Com disciplina e autoridade do Estado, este Mercado Municipal que é Lindissimo pode ficar a desempenhar o seu papel, vendendo frutas, legumes e peixe, e com os seus pavilhões , peixaria e talhos por mais 200 anos.
    Nada de lhe dar outra função, porque não cola.

  4. Toni

    14 de Outubro de 2022 at 19:45

    Pois…. Trabalho de análise excelente!!

    Stp através dos seus governantes desde a Independência, do próprio povo, só fez uma coisa em relação ao património, destruição total.

    Um país que pretende evoluir no turismo, derruba património cultural que poderia ser considerado a nível da UNESCO, isto sim pontos de interesse turístico, já que também as praias estão sem areia e completamente anuladas. Isto acima de tudo é crime dos governantes, o povo vai atrás, falta de respeito e educação pelo bem público.

    Não há qualquer possibilidade de recuperação, Stp não tem nada!!!

    Em Portugal recuperaram o mercado do bolhao no Porto com dinheiro da câmara municipal, em Stp é impossível!!!

    Viva a independência!!!

  5. Toni

    15 de Outubro de 2022 at 13:51

    Muito bom trabalho de análise!!!!

    Desde a Independência, Stp, desde os governantes e também o povo só souberam destruir o património, o qual poderia ser protegido pela Unesco e sim atrair turismo, porque hoje nem as praias estão em condições para o turismo, já que falta o mais importante, a areia!!

    Enfim, danos de uma independência que nunca deveria ter acontecido!!!!!

    Viva Stp, viva a independência, viva os governantes de Stp!!!

    Que mais dizer….,

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