Opinião

Amfitrit é dor

No rescaldo dos acontecimentos impactantes da fatídica manhã do dia 25 de abril, nas proximidades de Boné de Jóker, houve ocorrências dignas de serem aludidas.

Ali, já não se vê os vestígios da “Amfitrit.” O casco da embarcação, que era o que de visível restava da tragédia, foi arrastado e está agora submerso à custa das fortes ondulações, tudo indicando que os estroços do navio ficarão jazendo nas Tinhosas, onde encalhou.

Cumpriu-se os três dias de luto nacional, o que me pareceu, a atender às declarações do PGR, Tozé Cassandra, constituir apenas luto regional.

De facto, pairou inicialmente a ideia de estarmos na presença de uma tragédia apenas regional, somente ganhando posteriormente foro de nacional graças à comunicação ao país do PM, Jorge Bom Jesus. Diga-se que era notória uma irritante descoordenação por parte de quem considerasse que devia ser outra a gestão dessa crise. Diria mesmo, uma posição mais interventiva, mais liderada por parte da administração central do Estado, como ocorreria se fosse boas novas.

No dia seguinte, oito corpos foram levados ao cemitério, numa jornada fúnebre inusitada na ilha. Desceram à terra num ambiente pesado de dor e lágrimas, a massacrar o pensamento e a dilacerar os corações dos que ali se reuniam. Resignação é o que resta às famílias que perderam inesperadamente os seus entes queridos, bem como aos que com elas tão emocionada e fraternalmente se solidarizaram. Aliás, essa comoção deveria ser sentida com um profundo pesar de Cauê a Pagué, pois em contextos similares e não só, um verdadeiro santomense está obrigado a agir sem se preocupar com a qual das ilhas é originário.

A comitiva presidencial chegou ao Príncipe cerca de quarenta e oito horas após o naufrágio que enlutou o país e os elementos que a integravam revelavam semblante visivelmente triste e envergavam indumentária própria da circunstância. Ainda assim, foi alvo de severas críticas por parte dos manifestantes que a aguardavam, sobretudo pela trágica regularidade com que têm vindo a ocorrer sinistros acidentes marítimos análogos ao que agora teve lugar, de cuja responsabilidade não se podem ilibar as autoridades centrais.

Entretanto o PR, Evaristo de Carvalho, numa das suas intervenções proferiu o seguinte adágio: “Antes tarde do que nunca.”

Ora, para os mais céticos, uma tal expressão pode simplesmente procurar justificar a inércia com que os sucessivos governos centrais têm vindo nesse sentido a atuar, face às repetidas denúncias e apelos da comunidade da região autónoma.

Embora se reconheça que o desânimo esteja paulatinamente a abrandar nas famílias mais afetadas, outras há, no entanto, à espera do resgate dos corpos dos seus entes queridos, tendo em vista a derradeira e merecida despedida.

Os mergulhadores ainda não conseguiram, até ao momento, encontrar as oito pessoas desaparecidas, tendo apenas encontrado os destroços do navio e os haveres dos passageiros.

Espera-se para os próximos dias marchas pacíficas em homenagem às vítimas do naufrágio bem como as alusivas às reivindicações ao governo central.

Unamo-nos na busca de soluções. E concluo, parafraseando “Yes, We can.” de Obama.

Domingos Daio

    3 comentários

3 comentários

  1. Tareco

    7 de Maio de 2019 as 11:25

    Muito bom texto senhor Domingos Daio. Subscrevo as suas palavras sábias e de grande alcance pedagógico. Meus parabens pelo texto. Continua a nos brindar com estas coisas. Concordo consigo que ficou no ar que ocorreu alguma descoordenação neste processo, desleixo e falta de organização perante uma tragédia tão grande para a nossa dimensão territorial e populacional. Eu sou tolerante nestas coisas e gosto de paz e concórdia mas também tenho de reconhecer que o governo central agiu de uma forma que eu não gostei. Passou a ideia, não sei se era a sua intenção, de banalizar ou não dar importância a uma tragédia tão grave. Eu fiquei indignado porque não mandaram por exemplo parar a festa que continuou aqui em S.Tomé. Isto não se faz. Somos irmãos e o país é um só. Não gostei nada disso porque estavão em causa vidas humanas. Mas paciência cada um assume as suas culpas e responsabilidades.

  2. L.M

    7 de Maio de 2019 as 12:25

    Muito bom Domingos. Abraços. Que Deus conforte as famílias. Também não gostei da reação do governo de cá de S.Tomé. Portaram-se muito mal nesta história. Esquecem que também têm família e que elessão nossos irmão e que estas coisas podem acontecer. Não esperava isto do senhor Jorge Bom Jesus.

  3. Nuno Miguel De Menezes

    7 de Maio de 2019 as 15:24

    Amfitrit é dor ( Esse Titulo parece a mim ser de um sistema quem sabe o sistema MEDO MEDDO,aonde ao aplicar querem chamar algo dentro de nos… )
    Temos que usar a nossa inergia e aplicar no desenvolvimento dentro de Sao Tome and Principe, e se nao fizeres isso nao amas Sao Tome and Principe,e nao amando Sao tome and Principe estas fora da Agua do barco da propria maquina da Mae natureza de Sao Tome and Principe.

    Utah

    O desenvolvimento dentro de Sao Tome and Principe ‘e criarem uma zona industrial,com varias fabricas e garantir trabalho para os jovens.

    Amfitrit é dor, a aflicao ‘e estamos no ano 2019 nada disso existe,e amfitrit ‘e a dor de ver Sao Tome and Principe hoje.

    A aflicao nao ‘e apenas perder os nossos queridos… tambem ‘e a imagem podre que assim encontra Sao Tome and Principe e ninguem faz nada para o melhoramento da situacao em causa.

    Sao Tome and Principe o Povo gosta de aplicar fora do Seu Pais do que dentro de Sao Tome and Principe e quem sabe de tao bom somos a fazer feitico o feitico virou ao contrario contra Nos, e nao existe desenvolvimento e gosto de outros Povos para assim aplicar e ajudar.

    Nuno Menezes
    Lincoln,Reino Unido

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