Opinião

Restaurar a Confiança

O impulso para agir no sentido de mudar implicava sempre uma certa dose de confiança para enfrentar uma situação nova. Confiança de cada um para dar o primeiro passo. Confiança de todos para percorrer o caminho proposto. Não existe outra alternativa neste tempo incerto, cheio de dúvidas,  receios e angustias. Em casa onde não há pão, todos ralham, ninguém tem razão, diz com bom senso a sabedoria popular. Esse ruído constante, às vezes ensurdecedor, que daí resulta é um
dos principais obstáculos ao estabelecimento de um clima propício à restauração da confiança. Ainda estamos a tempo de agir, porquanto a insatisfação ainda não se
tornou mobilização.

O QUE FAZER? COMO AGIR?

Mais do que falar, é tempo de ouvir as aspirações dos cidadãos. Escutar para agir parece-me ser um principio sensato na situação em que nos encontramos.
Escutar as inquietações, sobressaltos e aspirações das novas gerações que não viveram o colonialismo. São eles o futuro e é para o futuro que temos de nos virar. Escutar a irreverência, a criatividade e a capacidade de inovar próprios da juventude e integrar essa mais-valia nas respostas à crise, mobilizando os nossos jovens para os grandes desafios que vamos enfrentar. Integrar os jovens e responder olhos nos olhos às suas interrogações é um dos pressupostos fundamentais para restabelecer a confiança. A sua generosidade fará o resto.

É preciso escutar também os anseios e a revolta dos que, por esse ou aquele motivo, foram excluídos do progresso. Daqueles que, independentemente da sua idade se cansaram de esperar pela concretização das promessas de um futuro melhor, constantemente adiado. Escutar com humildade. Sem esses momentos de silêncio, desprovidos de egoísmo, não sera possível agir em direcção ao futuro. Seremos apenas um barco à deriva num  mar de interesses imensos sem destino à vista. Essa mudança de atitude é um pressuposto fundamental para reconstruir a confiança, que nos dará a força necessária para segurar com firmeza o leme e determinar o rumo que realmente se pretende para o país, evitando aquele que só as circunstâncias determinam.

Não tenhamos qualquer dúvida de que é muito elevado o grau de dificuldade, dos desafios que nos esperam. Esconder os sacrifícios pertence ao domínio da ilusão. Por muito dourada que esta seja não resistirá ao confronto com a realidade. A crise em que o país se encontra mergulhado vai exigir dos responsáveis políticos
um discurso de verdade e de rigor sobre o que está em causa em cada momento. Ao rigor deve juntar-se também a transparência de propósitos. Só assim será possível que os cidadãos acreditem de novo e sem reservas em quem os representa e , em seu nome, exerce o poder.

A confiança de que falo já existiu. Eu vi-a reflectida no brilho dos olhos de toda a gente no dia da independência, naquele momento histórico e único, em que a bandeira do país subiu ao ponto mais alto do mastro e o hino tocou pela primeira vez em solo nacional. É essa confiança que tem de voltar de novo e, para tal, não basta aplicar correctamente os vários domínios do conhecimento, desde a economia à política. Para restaurar esse património de confiança, alicerçada no orgulho de ser santomense, gerado pela libertação do império colonial, é preciso mais do que o conhecimento científico ou técnico.

É imprescindível que a dimensão ética da politica se sobreponha a todos as obras. Esse regresso aos valores mais nobres da condição humana será condição sine qua non para uma verdadeira, sincera e genuína reconciliação nacional.

Não se trata de dar a outra face, mas sim de estender a mão e valorizar o que nos une e há-de unir, em detrimento do que nos separou. Somos filhos de uma país pequeno. Há entre nós quem traduza essa reduzida dimensão geográfica e demográfica com a expressão “somos todos primos”, construída a partir das iniciativas do país. Essa proximidade entre as pessoas não pode continuar a ser uma barreira ao desenvolvimento. A reconciliação nacional que proponho não é uma amnistia do passado, mas sim a superação das divergências, dos episódios mal explicados, das desavenças pessoais e das ambiguidades por esclarecer.

Não podemos continuar a gastar energias neste registo centrifugador, sob pena de hipotecarmos irremediavelmente o futuro das próximas gerações. Esse desgaste permanente impede a criação de dinâmicas positivas e é um inimigo mortal dessa confiança “original”. Este diagnóstico não é novo e nem é minha preocupação ser inovador, o que torna ainda mais pertinente que cada um se interrogue porque é que, não sendo novidade ele continua a ser actual. Já em 1997, o presidente Miguel Trovoada nos alertou, quando no seu discurso no vigésimo segundo aniversário da independência nacional, nos disse, eu cito, que “o país poderia ter avançado mais, se não houvesse tantas quezílias pessoais, tanta guerrilha entre os partidos e as instituições”.

Tendo digerido bem o que foi a sábia mensagem do Presidente Miguel Trovoada nesse seu discurso de 1997, continuo firme, evitando a todo custo responder, quer em privado quer publicamente, a toda e qualquer provocação venha ela donde vier. Passaram-se, no entanto, vinte dois anos (1997-2019) e o que está agora em causa não é o que se poderia ter avançado mais, mas como sair da estagnação em que o país caiu. Não basta, contudo, apontar o dedo aos políticos e exigir ética na sua conduta.

Esse é um imperativo que a todos deve vincular. É no domínio dos valores é que se coloca a questão da disciplina. Não a que resulta da força ou do exercício de qualquer tipo de autoridade, mas a que se traduz em regras de conduta assentes no rigor. Que Deus Proteja São Tomé e Príncipe!

Bem haja! FELIZ NATAL aos meus queridos compatriotas.

Manuel Pinto da Costa

Pode ler o artigo também em formato PDF – Pinto da Costa

    11 comentários

11 comentários

  1. Josias de Brito Umbelina dos Prazeres

    22 de Dezembro de 2019 as 5:26

    Obrigado, Presidente. Também Lhe desejo Boas Festas. Bela reflexão!

  2. Matrusso

    22 de Dezembro de 2019 as 7:35

    Opinião aconselhadora de um PR.
    Oxalá todos interpretam com raciocínio lógico.

    Gostava que Sr Pau Mandado tbm o fizesse para marcar a despedida da sua péssima presidência partidária.

    Bem haja a STP de Caué a Pagué, com que está dentro e na diáspora.

  3. Lucidez do louco

    22 de Dezembro de 2019 as 9:11

    O PR tem responsabilidade elevada neste sentido.
    Posto isto, permita-me Sua Excelência, na senda deste rico e valioso artigo, de leitura/reflexão quase obrigatória por todos nós, trazer para este palco, uma reflexão de Chico Xavier que é de uma simbologia estupenda. Cito: ” Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora a fazer um novo fim”. É imperioso uma mudança neste sentido, sobretudo dos pais, tios e primos da nação.

  4. Antônio Nilson Menezes do Rosário Amado Vaz

    22 de Dezembro de 2019 as 20:35

    Povo. Nenhum ser humano é perfeito ou perfeita. Esta mensagem do Dr. Manuel Pinto da Costa bem recebida por mim, bem entendida e apreciada, independentemente das ideias contrárias que as pessoas têm sobre o passado. A República Democrática de São Tomé e Príncipe é um país sorteado e abençoado. Muitas pessoas poderiam beneficiar do talento deste indivíduo se pudessem, pelo menos escutar e refletir sobre o Wisdom (a visão e a sabedoria) do Pinto da Costa. Este indivíduo não é perfeito porque só Deus e mais ninguém é perfeito, mas temos muita sorte em São Tomé em haver alguém com o caráter positivo que o Pinto da Costa nunca desistiu de transmitir ao povo Santomense.

    Eu, neste momento, sou vizinho de Donald Trump, o atual presidente dos Estados Unidos d’America. Já viram a diferença? O Trump teria um bom conselheiro se o Pinto da Costa estivesse do lado dele la na casa branca. A ideia que gostaria de transmitir é assim:

    Temos de deixar o passado atrás, aprender dos erros do passado, fazer o melhor porque de
    Orgulho
    Preconceito
    Vaidade
    Falar mentira e a atitude negativa de
    Superioridade, etc
    tudo isso só nos levará ao
    Pecado e o sofrimento.

    Pinto da Costa está a dar uma boa mensagem para o povo começar a procurar outras soluções para da divisão irracional, para sair do sofrimento e de dependência de moedas estrangeiras, com o objetivo fundamental de unir o povo para felicidade e prosperidade de todos nós.

    Festas felizes

    Nini

    P.S. Temos de aprender a perdoar e amor uns aos outros independentemente dos erros que cometemos porque ninguém é perfeito/a. Agradeço bastante a contribuição intelectual do Senhor Dr. Manuel Pinto da Costa. Muito obrigado

  5. Mais ação e menos conversa

    23 de Dezembro de 2019 as 3:03

    “É preciso integrar e mobilizar os nossos jovens para os grandes desafios que vamos enfrentar???” o sr esteve no poder 20 anos como PR o que fez neste sentido? falar é bonito mas fazer esta quieto. sempre as mesmas caras viciadas a querer controlar o sistema. na política e na justiça. nós jovens do MLSTP não temos oportunidade. só conversa. viram exemplo k Tó Zé deu no Príncipe com jovem de 30 anos??? se os mais velhos deixarem acredito k ele vai fazer um bom trabalho pk ele parece ter sentido de responsabilidade e serviço público.

    • Coerencia

      23 de Dezembro de 2019 as 3:05

      Concordo plenamente. MLSTP nunca vai ganhar as eleições porque não dá jovens oportunidade.

  6. oscar

    23 de Dezembro de 2019 as 10:24

    Uma mensagem clara e firme, de sábio propósito.
    Entretanto não suficiente para dar corpo ao que deseja transmitir.
    Necessário realmente, que as palavras sejam realizadas ao acto, demonstrando na pratica.
    Os seus anos de execução na vida política, lhe deu conforto e idoneidade para tal e deve usar para convencer a geração, pois faz parte dessa miséria que estamos e vivemos.

    A propósito, a sua ausência na comemoração de 21 de dezembro é justificável?
    Ficou um vazio pra coesão nacional. Faltou exemplo da sua parte.
    Deus haja e traga saude a si e ao povo de são Tomé.
    Bom natal a todos.

  7. Ponto Final

    23 de Dezembro de 2019 as 15:43

    Muito bem senhor Pinto da Costa. Parabens pelo discurso. É este o exemplo que o país precisa.

  8. SEMPRE AMIGO

    23 de Dezembro de 2019 as 16:22

    Oscar S Li o seu comentario e eu, como você, fiquei um pouco embaralhado. Não percebi porquê é que o senhor Pinto da Costa depois do seu artigo ,cujo conteúdo me arrebatou, não se dignou em estar presente na comemoração de 21 de Dezembro.Fui mais tarde informado que o senhor Pinto da Costa não se encontra,, há mais de dois meses, no pais.Estou no entanto de acordo consigo quando opina que”ficou um vazio pra coesão nacional”.O passo a seguir deve ser feito por cada um de nós, eu ,senhor Oscar S.,os partidos políticos, a sociedade civiL ,cada santomense em geral.Temos que restaurar a confiança num e noutro, como primeiro passo para criar condições objectivas e sujeitavas suficientes para a restauração da confiança nas INSTITUIÇÕES DA REPÚBICA.

  9. Descamisado

    24 de Dezembro de 2019 as 11:30

    Uma boa visão na minha perspectiva de um grande Estadista que é o cidadão Pinto da Costa. Enquanto este cidadão transmite ao Povo Santomense, fazendo uma radiografia da República democrática de S.Tomé e Príncipe,embora exista liberdade de expressão, pessoas que para elas, interpretam o cidadão Pinto da Costa como o vazio, que desconhece a realidade deste País. Enganam-se.Estas pessoas estão contra a reconciliação metendo achas na fogueira. Como é possível para quem esteve atento quer no Salão do Palácio de Congresso, quer em casa assistindo a Comunicação Social, a apresentadora na altura de chamar os condecorados no passado dia 21 de Dezembro ter dito que o cidadão Pinto da Costa está ausente do País, tendo sido recebida a sua condecoração na pessoa da sua sobrinha Nazaré Ceita. Houve uma outra figura que não esteve presente, que é o senhor Filinto Costa Alegre.Não houve comentário. Aproveito a ocasião para Desejar ao cidadão Pinto da Costa Boas Festas e que o Ano 2020 lhe traga a maior Felicidade, Boa Saúde,Longos anos de vida com grandes Sucessos e Êxitos no Seu percurso,contribuindo assim para o Bem Estar deste Povo e desta Nação que é a República Democrática de S.Tomé e Príncipe.

  10. SEMPRE AMIGO

    7 de Janeiro de 2020 as 16:52

    O(A) senhor(a) LUCIDEZ DO LOUCO socorrendo-se da biblioteca da Internete citou o penssador CHICO XAVIER.Tem piada!O mesmo penssador,ouvindo-se citado, respondeu:Ontem passado, a Amanhã futuro, h Hoje agora o Ontem foi, a Amanhã será, h Hoje é, O Ontem,experiência adquirida, a Amanhã lutas novas, HOJE ,PORÉM,É A NOSSA HORA DE FAZER E DE CONSTRUIR

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