Opinião

Os sketches de Melissa

POR :  Xavier Muñoz-Torrent, geógrafo

Viagem longa desde Nova York a São Tomé, a ilusão toda a voar. 2016, gravana. Escala em Santiago para amolecer a alma e fazer que as emoções do regresso às origens se governem com extrema levedade, como quem as saboreia de olhos fechados, como quem persiste em compensar os prantos da vida antiga, das histórias da família, das histórias das mulheres da família de tão longe contadas, e agora de tão perto escutadas e talvez vividas.

De tanta memória, de tanta obrigatoriedade de permanecer alegre (para esconder magoas e tristezas latentes), contrasta na família o caráter observante das filhas, que deixam para si, para os seus adentros, visões novas, agora em plena consciência, espectadoras e, ao mesmo tempo, protagonistas da história, e as desvanecem no presente a base de escritas e desenhos (mais desenhos que escritas), com a força de uma revolução secreta que se alça contra o superficial e se submerge no profundo dos rostos pintados, esculpidos, como rascunhos de vida. Genialidade das profundezas jamais contadas nem vividas com os mesmos olhos.

Mas tantas horas de avião e praia não são momentos perdidos. É tempo de observar ou lembrar formas, revisar gestos das pessoas, expressões, belezas simples, enternecimentos e plasmá-los num sketchbook, tão eventual e descontraído que dá assas à liberdade do gênio. E Melissa Tapia da Silva tem esse gênio tranqüilo, observador, mistura das misturas que dá ao sangue uma força colossal, que, expressada nos lápis e aquarelas de viagem, nos fala de futuro prometedor e de novas luzes, preclaras, baseadas no mundo do comic e do anime japonês, mas que parece ir além disso, na eclosão de uma nova era das artes plásticas que de comum com as anteriores apenas tem o dom da juventude e da descoberta. Ou talvez mais: acaso poderiam-se fazer esses traços sem sensibilidade?

Há tempo já que nos cruzamos com esse sorriso fino, giocondesco, esperto, educado, silente de Melissa. Pinceis nas mãos, caderno nos joelhos, a fazer retratos próximos, com olhares longínquos mas com rostos iluminados de cores vivos ou de claro-escuros, contrastados com flores, fumo, cheiros, sabores, inspirações, borboletas  no mais simples dos traços firmes, seguros, claros, precisos, resolutivos, todos eles partilhando sossegos e talvez pensamentos transcendentais. São imagens da simpleza, de frescura, de quase pureza, que necessariamente atraem e vislumbram qualidades naturais que procuram uma estética junto à espontaneidade do momento, alegórica, sobre o que acaso a autora sonharia viver no futuro, ou sobre o que ela desejaria para as pessoas que imortalizou sobre o papel, para que, desde então, virassem amigos para sempre.

Não sei o que resultou para ela o seu passo por São Tomé. Ficou nos seus silêncios. Talvez a paisagem exuberante e o amor, a admiração e o orgulho desprendidos da avó e das tias e de toda a família Lisboa ficasse mais para criar fantasia que para vencer realidades. Talvez mais para entender a frondosidade vegetal santomense como uma explosão floral na boca das suas personagens sobre o cartão, como se quiserem falar todas as verdades ocultas, da própria beleza ou que aquela também emanasse das palavras e carinhos. Paisagens íntimos a ficar na memória, visões imaginadas a satisfazer uma paixão de criação que se plasma nas expressões dos retratos, para difuminar como transfundo sólido conceitos que vão assentando, sem dúvida, uma iconografia própria.

Para mim é uma descoberta sensacional, sensacional de sensações, expressivas, surpreendentes e mágicas, na abstração duma realidade que não é apenas descrição e que não passa inadvertida (seria pecado frente a tanto talento). Vejo nesses traços concisos uma ativista emocional que apenas está a perscrutar horizontes e que enfrenta um céu límpido e infinito com a dança espontânea da sua imaginação e dos seus anseios, com a ingenuidade de quem tem conscientemente aberto o seu coração e o projeta aos próximos, como uma forma mais de falar uma linguagem universal e eloquente que desperta o gosto e remove as emoções.

Talvez faltou em São Tomé, além da família, um banho de multitudes para essa jovem genialidade, no meio dessa malta artística local que foi anos atrás tão prometedora e que agora, mais que nunca, precisa de novas evoluções, de novas propostas, de abrir-se a novas maneiras e a novas técnicas de comunicar a obra de arte, não conclusivas nas formas senão transmissoras de ideias e de inquietudes. Melissa pode ser talvez uma dessas dobradiças que faça as artes santomenses muito mais abertas, espontâneas e mais ligadas com os sentimentos, os conteúdos e as formas de comunicação. Eu fico expectante na contemplação dessa natural espontaneidade, admirando as suas dotes que para mim serão sempre um mistério: essa destreza natural para o desenho que não todo o mundo tem, apenas uns elegidos.

Post Scriptum.- Melissa Tapia é filha de Nely Lisboa da Silva e neta de Terezinha Lisboa, família de origem caboverdiana, de Uba-Budo. Nascida em Queens (Nova York, 1999), aprendeu desenho inicialmente de forma autodidata, de bem menina, a causa dos comics que o seu pai, Christian Tapia, que trabalhava na livraria Barnes & Noble, trazia com frequência a casa. Agora faz das artes a sua vida e paixão e atende a conselhos de desenho e pintura por internet. O seu nick-name como artista é Gendakiwi e normalmente vende as suas criações baixo esse nome em internet. Nesta altura tem mais de 100.000 seguidores na comunidade digital Tik Tok. 

    2 comentários

2 comentários

  1. Eriksson lisboa

    6 de Agosto de 2020 as 18:15

    Amei o trabalho ❤

  2. Estrangeiro

    25 de Agosto de 2020 as 15:05

    “O seu nick-name como artista é Gendakiwi e…”

    Mas, … se procuram “Gendakiwi” na Instagram ou Google ou Tiktok encontram imagens completamente diferentes. Tudo num estílo “Manga”, mais cartoon, menos desenhado à mão. Tem certeza, que a informação do nick está certo?

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