Opinião

O nascimento do primeiro filho

Por ocasião do meu aniversário natalicio, tenho o prazer de apresentar parte de um romance em elaboração

DECIMO PRIMEIRO CAPÍTULO

O nascimento do primeiro filho

A brevidade da conversa com o padre deveu-se ao estado da Dona Adóstia. Dirigiram-se rapidamente a casa porque a esposa do professor começou novamente a ter dores de parto. O detalhe da comunicação do padre ficou para uma próxima oportunidade.

Chegados a casa, o professor virou-se para a mulher e a mãe e disse:

– O bebé não quis nascer no Príncipe, sabe-se lá porquê!? Mas certamente vai nascer em Guadalupe.

– Pois é, será então, filho de pai de São Tomé com a mãe do Príncipe, feito no Príncipe e nascido em São Tomé, mas concretamente em Guadalupe, é bonito não é?- Disse a mãe do professor.

– Ele ou ela será o verdadeiro são-tomense. – Retorquiu a Adóstia torcendo de dor.

– Pelos vistos nem me vai deixar descansar da viagem.

Naquela altura, a mãe do professor e a anciã da freguesia, Sam Quilêmbê, já tinham disponibilizado todo o tratamento tradicional para o parto. Elas estavam atentas a todos os gestos e sinais da Adóstia para chamar o enfermeiro logo que fosse necessário. Dada as suas experiências, ambas afirmavam que de forma como as coisas estavam a evoluir, a criança nasceria ainda naquela noite.

Sam Quilêmbê era a parteira tradicional da freguesia e muitas senhoras dispensavam a presença do enfermeiro da Vila porque tinham muita confiança nela devido a sua longa experiência em matéria de parto. Ela foi parteira de varias gerações de crianças nascidas em Guadalupe. Não é por acaso que por justiça existe em Guadalupe um Jardim de Infância com o seu nome.

A casa que a mãe do professor João alugou era a possível naquela altura, tendo em conta a urgência do pedido. Era uma solução provisória, pois, não agradou muito o casal, sobretudo devido a localização e a exiguidade dos compartimentos. Perante essa constatação o professor iniciou as diligencias para identificar outra casa.

Depois de muita expectativa, finalmente o bebé nasceu as vinte e uma horas e trinta minutos de dia 10 de Setembro de 1953. Era um rapaz com 3 Kgs, conforme as previsões da enfermeira Ângela que seguiu a parturiente durante a viajem de barco,  e que correspondeu o desejo do casal. Tudo correu bem, tanto para a mãe como para o bebé. O enfermeiro Emídio prestou um belíssimo serviço de parto.

Tal como ficou combinado, foi dado ao bebe o nome do pai da Adóstia, “Fernando”, conforme o desejo do avô.

Quando lhe chegou a notícia em Fernando Pó, o senhor Fernando Fernandes da Silva ficou orgulhoso e muito satisfeito. Reiterou a promessa de que quando o menino tivesse seis anos o mesmo seria enviado para Fernando Pó para fazer os estudos primários e secundário e mais tarde enviado para Espanha de modo a prosseguir os estudos superiores.

Resolvido o problema maior que preocupava o casal, o professor João tinha muitas tarefas pela frente. A mais importante era a preparação do ano letivo que estava preste a iniciar, mas também muitos assuntos de ordem pessoal que ficaram pendentes devido a sua deslocação intempestiva para o Príncipe.

Lembrou-se, entretanto, que tinha que recuperar as prendas do casamento enviadas pelo pai da Adóstia e que estavam em casa de um amigo na cidade. Ambos estavam ansiosos de ver as oferendas.

Apercebendo-se da pouca disponibilidade de tempo do professor, própria de quem esteve ausente por muito tempo e a necessidade de se organizar, o amigo prestou-se a levar as prendas para Guadalupe e ao mesmo tempo dar um abraço de boas vindas ao seu amigo professor, conhecer a esposa e felicita-los pelo nascimento do filho.

Nessa altura, toda a vila já sabia as verdadeiras razões da ida do professor para o Príncipe. Durante alguns dias, foi uma autêntica romaria a casa do professor para lhe manifestar toda a solidariedade e dar-lhe as boas vindas, mas também para conhecer a sua esposa e o recém-nascido, numa clara demonstração de afeto e simpatia que os guadalupenses nutriam pelo professor. A maioria das visitas eram acompanhadas de presentes, como produtos agrícolas, aves, animais ou mesmo folhas medicinais para o banho do bebé e da mãe, conforme manda a tradição.

Um mês depois, o professor conseguiu outra casa no Quilembú, uma localidade que ficava no início do caminho para a praia de Moro Peixe. Era uma construção em madeira, como quase todas as existentes naquela época. A moradia estava bem localizada. De rés-do-chão e primeiro andar, com vários quartos e com um grande quintal, era muito melhor em ralação a que viviam antes, atras da Igreja.

– Agora sim João! Temos uma casa maior e com algum conforto.

– Pois é Adóstia. Não tem nada a ver com a anterior. Agora, vou mandar fazer novas mobílias para os quartos e sala.

– É verdade João, agora temos condições para acolher os teus filhos Orlando e Antónia, já que aqui em casa eles terão melhores condições para obter uma educação adequada.

– Porque não também a Cármen, irmã do Orlando?

– Obrigado Adóstia pela tua generosidade e compreensão. Embora a menina Cármen não fosse a minha filha, mas ela é irmã do meu filho. O gesto seria também para enaltecer a bondade, a coragem e o sentido humanitário da minha mãe que acolheu ambos, depois da morte repentina da mãe. Os dois eram os únicos filhos da falecida.

– Alias João, a menina Cármen já está familiarizada connosco. Embora ainda pequena, me tem dado alguma ajudinha quando passa por cá. Não te esqueça João, que foi ela que enterrou o “ululu”[1] do Fernando. Portanto, ela é a primeira madrinha dele. Sabes que na nossa tradição isso tem muito significado.

O professor João e a mãe Simoa fizeram tudo para integrar a Adóstia na comunidade guadalupense. Ela teve um grande apoio de uma importante família de Guadalupe conhecida por “Quinté Glandji”[2] da matriarca  San Má Tóni[3], grande dama de muito prestígio e muito respeitada na freguesia.

Enquanto isso, o Jorge, amigo do professar trouxe-lhe as prendas do sogro. Foi um momento de júbilo. Era um dos seus maiores amigos, antes de viajar para o Príncipe. Pessoa que o acolhia quando tivesse a necessidade de se deslocar a cidade.

Depois de um forte abraço ao amigo e a respetiva apresentação da esposa e o filhote, tentaram por a conversa em dia, durante o almoço expressamente preparado para o seu amigo.

– João, logo que estiveres mais estabilizado, convidar-vos-ei para passarem um fim-de-semana em minha casa na cidade.

– Aceitaremos com muito gosto, Jorge!

– Estive muito preocupado contigo João, quando tive conhecimento de que o teu nome figurava numa suposta lista de indivíduos a serem presos pelo Gorgulho. Eu e a minha mulher rezamos muito por ti. Ainda bem que não aconteceu nada.

Entretanto, o professor considerou a prenda do radio que parecia mais uma mobília, de extrema utilidade, porque o mesmo tinha a capacidade para captar as principais estações do mundo, o que lhe permitiu estar a par das notícias sobre a evolução da situação da Africa em particular e, do mundo em geral, porque isso lhe interessava muito. E para a Adóstia, uma máquina de costura que naquela altura em que não havia o pronto-a-vestir, tinha muita utilidade para a confeção de vestuários. Para além de roupas para casa, Adóstia passou também a receber algumas encomendas de trabalhos para fora, que veio contribuir para melhorar a economia do lar.

A medida que os dias foram passando e, em conversas com alguns populares, o professor começou a constatar a dimensão dos acontecimentos de fevereiro de 1953. Visitou a praia de Fernão Dias, localidade próxima de Guadalupe e ficou muito amargurado com os relatos que lhe fizeram e os vestígios que observou.

Felizmente em Guadalupe não houve registo de grandes atrocidades. Não era por acaso, pois, uma das pessoas ou talvez a única visada na Vila, devido a sua ação contestatária era mesmo o professor João que por motivos já conhecidos esteve ausente naquele período conturbado.

Dia 21 de setembro de 1953, foi o primeiro encontro de trabalho entre o professor João e o Parco da freguesia. Nessa reunião falaram com mais detalhes da ida intempestiva para o Príncipe, do ano letivo que deveria iniciar dentro de uma semana, dos projetos da Missão Católica para a freguesia, mas também da situação geral da Vila em particular e da Ilha em geral, após o massacre.

Quanto a ida para o Príncipe, o padre Abel Pereira acrescentou mais dados dos que já haviam dito ao professor. Soube ainda que, a razão do longo secretismo deveu-se a necessidade de preservar a vida do Professor que estava literalmente em perigo. Opadre aconselhou ao Professor para ser mais comedido na abordagem de questões ligadas a política, de modo e evitar futuros problemas. O Professor João compreendeu a bondade das palavras do Padre, mas tinha alguma dificuldade em observa-las tendo em conta as suas convicções.

No que se refere ao ano letivo, nada de especial tendo em conta que o professor já conhecia e bem a realidade. Discutiram apenas aspetos técnicos relacionados com a organização e a programação curricular.

Relativamente aos projetos para o futuro da Missão Católica de Guadalupe, o professor foi informado de que estava prevista a construção de um novo edifício em alvenaria para a sede da Missão, que contemplava uma grande sala de aulas contígua ao edifício. A notícia que mais agradou o professor nesse âmbito, foi de que depois da transferência do padre para o novo edifício, ele passaria a ocupar a antiga residência em madeira situada mesmo no coração da freguesia (figura nº), onde funcionava também a escola no rés-do-chão. O novo edifício seria construído defronte ao velho, no outro lado da rua principal da freguesia.

Essa mudança foi muito vantajosa tendo em conta que a casa tinha muito melhores condições, estava no centro da vila e por ser o professor da Missão pagava uma renda irrisória.

Tudo estava a correr bem para o casal e o futuro vislumbra-se auspicioso.

As aulas recomeçaram na data prevista. Foi uma grande emoção o reencontro do professor com os seus antigos alunos. Alguns, já conheciam o método e a forma como administrava as suas aulas. Para os novos alunos, a pergunta que se ouvia mais era a seguinte: – Esse professor é bom?

Figura nº 3 – Dona Adóstia Simão e o seu primeiro filho

[1]Designação do cordão umbilical na língua fora

[2] Tradução de “Grade Quintal” na língua fora

[3] Tradução Dona Antónia na língua fora

    2 comentários

2 comentários

  1. Dalio Henriques

    12 de Setembro de 2021 as 20:44

    Muito obrigado pela atenção e pela pontinha da sua ideia e a sua amabilidade de escrever este texto de contos maravilhoso.
    Continue sendo uma pessoa que és amigo dos seus ideais e,indo escrevendo coisa boas das ilhas maravilhosa, pois com estes contos engrandecem os leigos e todos fazedores da aprendizagem um cantinho que abrirá a mente de quem realmente quer saber mais.

  2. Engrácio de Oliveira

    13 de Setembro de 2021 as 16:23

    Vai tomar banho Simão
    Eu lia antes as tuas escritas, no entanto, aquilo que mostraste ser nestas eleições passadas, demonstraram que es um bandido, um camaleão. Podes ter o teu candidato como eu também tive o meu, mas não posso e nem devo pressionar os outros para votarem no meu candidato.
    Por isso meu amigo, vaia tomar um banh fresco

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