Opinião

Soberania Interrompida

Por: Bacar CAMARÁ, Jornalista& Docente / Guiné Bissau

A intervenção militar dos Estados Unidos no território nigeriano, justificada sob o pretexto de combate ao terrorismo islâmico, não é um ato isolado de solidariedade. Ela expõe não apenas a fragilidade da soberania africana, mas também a utopia de uma independência conquistada no papel, mas ainda não consumada na prática.

O que assistimos não é uma operação antiterrorista, mas o retorno de um colonialismo, que usa narrativas convenientes, sejam do pseudo-democracia, da segurança ou de direitos humanos para mascarar intervenções que ferem gravemente o direito internacional e a autodeterminação dos povos.

A agressão ao território da Nigéria, mesmo que seja autorizada ou de acordos “forçados” com as autoridades locais, é uma ameaça prévia explícita à soberania da Nigéria. A retórica utilizada, focada na proteção de comunidades cristãs, é desonesta, revela-se ainda mais hipócrita quando contrastada com o silêncio cúmplice perante o genocídio em Gaza, onde, no dia 24 de Dezembro, forças israelitas impediram os palestinianos cristãos de celebrarem o Natal, sem que houvesse qualquer ameaça de intervenção norte-americana.

A violência no norte da Nigéria é um fenómeno complexo, alimentado por banditismo, pobreza extrema e falência governativa, que vitima todos os cidadãos, independentemente da fé, induzida pela exploração de empresas petrolíferas ocidentais.

O paralelo com a Venezuela é inevitável e esclarecedor. Em ambos os casos, sob o manto da “proteção” ou da “defesa da democracia”, vislumbram-se os contornos de uma geopolítica da pilhagem. O interesse no petróleo venezuelano e nos vastos recursos nigerianos e africanos é o subjacente nunca declarado, mas sempre presente.

Este bombardeamento contra Nigéria, é um golpe não apenas contra um governo, mas contra o princípio de que os povos são donos do seu destino e das suas riquezas. Esta intervenção na Nigéria é um precedente perigoso. Isto, sinaliza que a África é, uma vez mais, vista como um palco aberto para uma nova invasão imperial, onde a soberania é um conceito flexível, aplicável apenas quando convém às potências ocidentais.

Passados mais de sessenta anos das independências formais de vários países africanos, a pergunta que se impõe é angustiante e seguinte:

Onde reside de facto, a nossa soberania? Ela é gravemente ferida quando aceitamos, sob coação ou conluio, que potências estrangeiras definam os nossos inimigos e cruzem as nossas fronteiras com as suas armas, casos: Nigéria e Benin, este último, vítima da França, que é um grande explorador da África!

A verdadeira luta pela independência, económica, política e cultural da África permanece inacabada. E o obstáculo mais principal não está apenas em Washington, Londres ou Paris; está no nosso próprio seio.

A submissão de uma parte da elite política africana aos interesses ocidentais, em troca de permanência no poder e privilégios pessoais, é que permite estas intervenções. São estes “serviçais do Ocidente”, como acertadamente os antigos panafricanistas como: Amílcar Cabral, Khuameh Nkrumah, Patrice Lumumba, Tomas Sangara, Sekou Turé, Sheik Anta Diop os designavam, que assinam acordos lesivos do interesse nacional e reprimem os seus próprios cidadãos para agradar a patrões externos.

Outrossim, admiração pelos valores ocidentais por parte da maioria das elites africanas, que despreza as soluções e os caminhos próprios do continente, é outro entrave ao nosso progresso social.

Embora, a esperança, renasce em movimentos que dizem “basta”. Os povos do Mali, do Burquina Faso e do Níger ao rejeitarem Presidentes fantoches ao serviço da França e afirmarem uma vontade soberana, mesmo sob ameaça, apontam o caminho.

A solução para os problemas de segurança da Nigéria e da região deve vir de dentro, através de mecanismos regionais como a CEDEAO, não obstante, este se torna cada vez uma organização cuduca que não serve interesses do seu povo e passou também a servir interesses da França, pois, é quem financia através da União europeia grande parte do seu orçamento.

Mesmo assim, é altura da União Africana, em particular, a CEDEAO e outras organizações sub-regionais assumirem uma verdadeira governação voltada para o povo, não para o interesse do ocidente, ou seja, para a França, os Estados Unidos da América Inglaterra.

Portanto, este é um momento de alerta. A África não pode cruzar os braços. Submeter-se a esta intervenção, por mais “autorizada” que seja, abre precedente que legitima a recolonização por etapas, aliás, nunca tivemos uma verdadeira independência, mas luta agora é urgente: rejeitar veementemente qualquer violação da nossa soberania, custe o que custar; internamente, combater sem tréguas a traição das elites e construir instituições que sirvam, de facto, aos povos africanos.

É hora de nos levantarmos e ficarmos de pé. A verdadeira independência não é uma dádiva, nem um documento histórico. É uma conquista diária, que começa com a coragem de dizer “não” à França, não aos Estados Unidos da América, não à Inglaterra e “sim” ao nosso próprio futuro.

Repito, toda esta submissão da África é facilitada por um grupo de chefes de estado que querem permanecer no poder e uma elite intelectual que, em troca de privilégios e reputação internacional defendem os valores e interesses ocidentais, muitas vezes em detrimento do seu próprio povo.

4 Comments

4 Comments

  1. Antonio Nilson

    2 de Janeiro de 2026 at 4:29

    É verdade. Realmente, “é uma conquista diária.”

    A população africana ultrapassou a população chinesa. Somos agora mais de 1,5 mil milhões de pessoas.

    Esta mensagem de Bacar Camará, jornalista e docente da Guiné Bissau, deve ser transmitida a toda a juventude negra. A jovem população africana está desligada da história de África e do seu património. As raízes da nossa cultura dependem da educação e da formação destas crianças, para que possam definir a agenda e ser as guardiãs da sua própria sobrevivência.

    A “submissão de uma parte da elite política africana aos interesses ocidentais, em troca da permanência no poder e de privilégios pessoais,” continua a comprometer o nosso desenvolvimento e progresso. Basta ver como estas classes dirigentes e elites corruptas deixaram os nossos mais velhos a sofrer na pobreza.

    Precisamos de reagir com firmeza para defender os nossos idosos e as nossas crianças.

  2. SEMPRE AMIGO

    2 de Janeiro de 2026 at 15:19

    O essencial esta´dito.Parabens dr.Bacar Camara.

  3. Abucas Costa

    2 de Janeiro de 2026 at 18:09

    O senhor Bacar Camará como jornalista anda muito distraído…
    Fala das potências ocidentais mas esquece a China e a Rússia que nas últimas décadas têm assumido o controle total de muitas economias africanas (e seus dirigentes) sugando os seus recursos naturais, muitas vezes com efeitos ambientais catastróficos. Veja por exemplo o desastre da mineração de cobre pela china na Zâmbia ou as explorações de ouro e diamantes operadas pelos russos (grupo Wagner) na República Centro Africana e no Mali.
    São centenas de casos espalhados por todo o continente Africano. A dimensão do problema é tão grande que não pode ser ignorada pelo senhor de uma forma honesta. Diga-me, o que o faz ignorar isso de uma forma tão escandalosa?

    • Nini

      3 de Janeiro de 2026 at 16:11

      China e a Rússia: Sim. Este é um ponto muito importante e válido.

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