Turismo

Rute Norte prossegue na volta a STP em bicicleta

Depois do Jardim Botânico em Bom Sucesso, nas montanhas de Monte Café a portuguesa Rute Norte, que já pedalou em vários pontos do mundo, segue a viagem de bicicleta pela ilha de São Tomé. Passou por Batepá, António Soares, Santa Margarida, Alto Poto, Poto Zambraia, no distrito de Mé-Zochi, e chegou a Boa Entrada e Vila Amélia no distrito de Lobata.

Acompanhe a crónica da viagem de Rute Norte na descoberta de São Tomé :

«Eu nem consigo desenhar isto tudo no mapa. São pequeninas povoações. O caminho que fiz neste trecho, por estradas de terra, ficou indicado no GPS, na crónica anterior».

Parei a bicicleta e olhei para as árvores e arbustos, em busca dum local para fazer xixi. É que não encontro nada deserto, há sempre gente por todo o lado. Estou tramada, estou a ficar aflita. No Príncipe era mais fácil, aqui em São Tomé não encontro nada deserto! E quando olhei para cima, vi este rapaz. Pois claro, tinha de haver alguém, ainda não é desta.
Esta árvore é uma jaqueira, e a fruta é a jaca. E no canto inferior esquerdo está cacau.


Chama-se Ismael. Vendo-me interessada na jaqueira e na jaca, propôs-se ir buscar um pedaço maduro para eu provar. Eu já comi jaca no Vietname, mas já foi há tanto tempo que nem me lembro como é. Fiquei à espera, na estrada, e o Ismael foi algures no meio no mato buscar. Levou uns minutos apenas, e voltou com este pedaço.

Isto é que é ser bem recebida por um povo. Até agora só me trataram bem. Mais do que bem – mimam-me. Quem tirou esta foto foi uma senhora toda aperaltada que ia a passar, provavelmente a caminho do trabalho. Hoje é 5ª feira e são 7h30.

Eu comi um bocado, dei umas dentadas, não consegui comer tudo, até porque ainda venho cheia do pequeno-almoço. Perguntei ao Ismael quanto custa uma jaca inteira, respondeu-me que uma pequena, madura, anda pelas 20 dobras (0,80€). Este pedaço era uma oferta para mim, mas eu quis agradecer-lhe o trabalho e fui buscar as moedas que tinha na carteira. Tinha 8 dobras e dei-lhas.

A chegar a à Roça Boa Entrada. Recordo o que escrevi na crónica 10: as Roças são antigos edifícios do tempo do colonialismo português, grandes propriedades rurais onde se produziu cacau e café, nos finais do séc. XVIII e inícios do séc XX. Atualmente a maioria está em avançado estado de degradação, e alguns dos edifícios são habitados pela população.

Roça Boa Entrada. Devia ser linda, no tempo do seu auge.

 As traseiras da Roça Boa Entrada.

O rapaz à esquerda disse-me que vai haver uma festa sábado à noite, aqui em Boa Entrada, e que eu estou convidada. Eu ri-me e agradeci. É o terceiro ou quarto convite que recebo para festas ao fim de semana. Há sempre festas ao fim de semana, nas várias povoações, apercebo-me.


A construção da nova escola secundária de Desejada.

Parei aqui um pouco, na Vila Amélia, e a Erpe meteu-se comigo (será que “Erpe” se escreve assim?). Está a dar banana cozida ao pequenito à frente, que é o seu filho Rafael. As duas meninas não sei se são filhas também.


Comprei uma garrafa de água de 50 ml por dez dobras, nesta quitanda à beira da estrada, e perguntei onde é que posso ir à casa de banho. A rapariga até se riu. E vendo-me aflita, foi perguntar à casa ao lado.

Ao lado da quitanda existe uma vivenda – a Residência Pires – que aluga inclusivamente um quarto a turistas. Aqui vê-se o casal espanhol que atualmente é hóspede. O dono, Wilson Pires, à esquerda, perguntou ao casal se se importavam que eu fosse à casa-de-banho, e eles não colocaram problemas, pelo que fui, no andar de cima da casa.

Até me parece mentira, arranjar uma casa-de banho toda bonita, tão inesperadamente. Houve uma falha momentânea de água, eventualmente, pelo que o dono, Wilson Pires, disse-me para eu usar o bidon cheio de água que aqui está, a um canto, com um recipiente pequeno para deitar a água na sanita. (Estes recipientes usei-os tantas vezes em Timor, e nunca cheguei a saber o nome disto… tantas crónicas escritas, e nunca nenhuma alma caridosa me enviou um email a dizer como se chama!)

À despedida, o meu telemóvel falhou. Desligou-se. São 9 da manhã, ainda nem cheguei a Guadalupe, e o telemóvel resolve desligar-se e recusa-se a ligar novamente. E o GPS para indicar-me o caminho?
Resultado, depois de algumas tentativas de reanimação do telemóvel, desisti. Vou seguir sem GPS. Se não existirem placas com a indicação da direção de Guadalupe, e Praia dos Tamarindos, perguntarei pelo caminho. Mas o telemóvel terá que funcionar nos próximos dias, tenho a ilha de São Tomé quase toda por desbravar ainda.

    4 comentários

4 comentários

  1. José Mendes

    29 de Outubro de 2019 as 18:24

    É apenas uma vergonha, sinto mais quando a pessoa em si, não tem capacidade de rever no propósito da sua imagem. O respeito pelo outro, o seu estado não é motivo saudável na conquista orgulhosa do outro. Em Portugal também há o miserável e não se vê no jornai.

    • José Mendes

      30 de Outubro de 2019 as 0:33

      Devia eliminar visto que no sistema não foi-me possível elimina-lo nem fazer correção. Teclado inglês facultou o (i)Jornai em vez do (l)Jornal e assim ficou. Permita correção / opção editar. Obrigado José Mendes

  2. José Mendes

    29 de Outubro de 2019 as 18:27

    É apenas uma vergonha, sinto mais quando a pessoa em si, não tem capacidade de rever no propósito da sua imagem. O respeito pelo outro, o seu estado não é motivo saudável na conquista orgulhosa do outro. Em Portugal também há o miserável e não se vê no jornal.

  3. Jorge Trabulo Marques

    31 de Outubro de 2019 as 13:37

    Quero aqui expressar, no Jornal Téla Nón, os meus sinceros parabéns e o meu público reconhecimento à desportista portuguesa, Rute Norte, que, depois de ter andarilhado, pedalando sozinha, pelo Quénia, Austrália, Amazónia, Patagónia, Gronelândia, Timor, Vietname, Índia, Egipto, Tunísia, China, Nova Iorque, Seychelles ( sem dúvida uma ousada proeza, corajosa e arriscada aventura, mesmo a nível de excursões organizadas, quanto mais ao sabor solitário do imprevisto – e então para uma mulher! -, sim, já que, nos tempos que correm, os lugares seguros, seja em que parte for do mundo, vão sendo, cada vez mais, uma raridade de que áreas de promissão e de tranquilidade – pois, embora a singularidade das Ilhas de S. Tomé e Príncipe, ainda vá constituindo um caso excecional de convivência pacifica, num mundo em constantes conflitos e instabilidade, creio, pois, que, atraída, não apenas por este aliciante facto, pela certeza que ia encontrar gentes a falar a mesma língua, tida como amável e hospitaleira, como pelo surpreendente exotismo e prodigalidade das suas belezas, sim, não quis deixar de demandar também as Ilhas Verdes do Equador, tendo percorrido, numa simples bicicleta, sem qualquer outro apoio, que não fosse a confiança das suas capacidades e do generoso e humilde acolhimento, com que sempre deparou, nos 550 Km, que percorreu em 29 dias: 205 na ilha do Príncipe e 345 na ilha de São Tomé, através de trilhos e caminhos, os mais recônditos, indo ao encontro do S. Tomé e Príncipe, profundo, desconhecido dos roteiros turísticos, embora também percorresse estes, convivendo e confraternizando com a população, sobretudo com aquela que, praticamente, vive esquecida dos meios urbanos, trocando amáveis sorrisos, partilhando alimentos e até a hospedagem, registando os mais belos e genuínos registos fotográficos do seu modo de vida, simples, pacifico e generoso, em estreita intimidade com a natureza, da qual depende a sua sobrevivência, oferendo, por isso, através das suas espantosas crónicas, quer pelas suas palavra, quer pelos seus extraordinários testemunhos fotográficos, a expressão mais fidedigna, real e bela de uma terra generosa e fértil, se bem que também adversa para quem vive confinado ao que tem de extrair dos seus frutos, com esforço e sacrifício, o pão de cada da dia para fazer face à sua sobrevivência e da sua humilde família.

    Na verdade, se bem que não faltem imagens de S. Tomé e Príncipe, sobre os mais variados aspetos, creio, no entanto, que o vasto e pormenorizado material fotográfico, recolhido por Rute Norte, que nos tem vindo a oferecer nas suas quão interessantes como inéditas crónicas, quer sob o ponto de vista humano e paisagístico, dos seus recursos naturais , da sua fauna e flora, pudendo a vir a ser publicado, em forma de álbum, poderá constituir, indubitavelmente, matéria para o mais aprofundado, aliciante e verídico testemunho destas maravilhosas e luxuriantes ilhas do meio mundo, que se erguem das profundezas do vasto Golfo da Guiné.

    Jorge Trabulo Marques – Jornalista e investigador

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