Opinião

A política em São Tomé e Príncipe: O desempenho de Carlos Vila Nova

Este artigo aborda, muito resumidamente, o papel que Carlos Vila Nova desempenhou na estabilização política em São Tomé e Príncipe, quando a situação vivida era muito frágil e frenética e parecia descambar a todo o momento.

Como é francamente visível, o quadro político atual é substancialmente diferente daquele que vigorou até à demissão do anterior Primeiro Ministro (PM) e líder do partido ADI.

De acordo com fontes locais, a demissão impôs-se por exigências constitucionais em consequência da sistemática desregulação do normal funcionamento das instituições da República e do desrespeito a titulares de órgãos de soberania, que resultaram da forma particular como o então PM encarava o exercício do seu cargo, achando-se acima de todos, em particular, do senhor Presidente da República (PR).

Assim, ao demitir o XVIII Governo Constitucional, no dia 06 de janeiro de 2025, através do Decreto Presidencial n.º 01/2025, o Presidente da República não fez mais do que cumprir a sua obrigação constitucional perante o país e o povo. Cumpriu o seu dever de devolver a paz, tranquilidade, estabilidade e esperança de uma vida melhor a todos os são-tomenses!

Lembro aqui que, desde a fundação da sociedade são-tomense, a Coroa portuguesa exigiu que os capitães – donatários fossem residentes porque só nesta condição exerceriam o mandato, mesmo numa altura em que a população fixada era apenas umas escassas dezenas de milhar. Donatários eram fidalgos a quem, mediante um contrato real, a Monarquia confiava a administração e desenvolvimento do território. Isto significa que quem governa um território, região ou país tem de estar presente, ser residente e estar próximo das pessoas e dos seus problemas para os procurar resolver. Tem de respeitar o cargo que exerce e as pessoas que governa bem como os outros poderes constitucionalmente instituídos.

Um governante ou representante máximo da República que passa sistematicamente demasiado tempo no exterior do país, sem uma justificação plausível, ao arrepio da sua obrigação constitucional (mesmo quando esse tempo limite não é claramente fixado na Constituição, deve haver o entendimento  de que nunca excederá o do PR) estará a demonstrar duas coisas: a primeira, é o total desprezo pelo povo que o elegeu e pelas demais instituições da República e os seus dignos representantes, incluindo os dos partidos políticos. Em segundo lugar, estará a mostrar ao mundo exterior, particularmente o Ocidente, que os africanos ainda não perceberam o que é e como se governa um país, legitimando, assim, as teses eurocêntricas sobre os africanos.

Esta forma de encarar o exercício do poder, associada a outras práticas fora daquilo que é racional, para além dos constrangimentos externos, têm servido para retardar a ascensão de África e dos africanos a um outro patamar de desenvolvimento, contribuindo, ao invés disso, para a sua desvalorização. Às más práticas, é exigível que todos ponham «a moral» sempre em tudo o que fazem, para o bem de todos.

Voltemos, então, ao ponto de partida.

Os muitos desmandos do anterior PM, fundados num certo autoritarismo pessoal, colocou Carlos Vila Nova, factualmente, num plano inferior ao que a Constituição lhe confere e corriam rumores que não seria o candidato da ADI à reeleição para um segundo mandato. Por conseguinte, ao derrubar o governo de Patrice Trovoada (PT), Carlos Vila Nova não só devolveu a estabilidade política ao país, mas, sobretudo, abriu o caminho para a sua recandidatura ao cargo que ocupa. Foi, pode dizer-se, uma jogada de mestre. Com uma só cajadada resolveu dois problemas que pareciam insolúveis. O economista Não Acidental esteve no terreno entre junho e setembro de 2024 e viu bem o estado de stress político em que se vivia naquele pequeno país africano, onde a memória e a revolta pelo massacre de novembro de 2022 continuavam muito presentes e a fervilhar na cabeça dos ilhéus e as perseguições diretas ou veladas a adversários políticos e descontentes com a governação em curso, uma situação só comparável a um barril de pólvora pronto a explodir.   

Mas Carlos Vila Nova fez mais. Ele derrubou o governo de Patrice Trovoada (PT), mas não dissolveu a Assembleia Nacional, pelo que não precisou de convocar as eleições legislativas antecipadas. Como se sabe, as novas eleições teriam um custo elevado para as finanças públicas e para o país no seu conjunto, que tem uma situação recorrente de penúria em termos monetários e financeiros. Se ponderou sobre um tal custo para a decisão que tomou, pode dizer-se que foi inteligente! Contudo, as consequências da decisão tomada não são económicas, mas sim políticas. Se tivesse convocado as eleições legislativas antecipadas, o MLSTP poderia ter regressado ao poder e teria sido uma situação menos má para o Presidente da República que assim se livraria de Patrice Trovoada. Pelo contrário, se fosse o partido ADI, liderado pelo PT, a ganhar as eleições, Carlos Vila Nova teria de engolir um enorme sapo e provavelmente a crise política entre ambos se agravaria e com ela a instabilidade no país. Por outro lado, estaria em causa a possibilidade da sua recandidatura e, consequentemente, a reeleição ao cargo que ocupa. O economista Não Acidental conclui que Vila Nova foi, politicamente, muito hábil e inteligente quanto à forma da decisão que tomou.

Há uma outra consequência política relevante. A decisão de Vila Nova colocou um problema ao MLSTP. Ao nomear um moderado, muito experiente, e destacado membro do partido ADI, Américo Ramos, considerado alinhado com a sua estratégia política, para o cargo de Primeiro Ministro da era pós PT, o PR quis ver o seu partido político de origem a governar o país, pelo menos, até ao fim da legislatura. Por outro lado, o degaste que o governo da ADI, liderado por PT, vinha sofrendo, sobretudo devido ao caso do massacre de novembro de 2022, praticamente dissipou-se.

Assumido como um político de rotura com as práticas políticas de PT, orientado para as necessidades das populações, Américo Ramos tenderá a governar, no prazo que falta desta legislatura, numa lógica populista de maneira a aumentar e consolidar a simpatia popular em torno do seu projeto pessoal, como líder do partido ADI, para o bem de todos. A ser assim, tudo fará para ganhar as eleições legislativas do próximo ano e manter o partido ADI no poder por mais uma legislatura enquanto o MLSTP continuará, por certo, “ficar a ver navios”. Importa dizer que tudo indica que a oficialização de Américo Ramos como dirigente máximo natural da ADI terá lugar no próximo congresso do partido a ser realizado muito em breve. Nesse dia, Patrice Trovoada será definitivamente “apagado” como presidente do partido e em seu lugar estará Américo Ramos. Será um dia muito amargo para PT que, por excesso de sobranceria, subestimou o seu ex-correligionário e atual PR Carlos Vila Nova.

Caso Patrice Trovoada queira um dia regressar a São Tomé e Príncipe e voltar a ser político, convirá que reveja cuidadosamente os manuais da Ciência Política para evitar os erros que cometeu e olhar a Carlos Vila Nova como um grande mestre da política com o qual terá a aprender. Em boa verdade, deveria orgulhar-se dele pelo que fez porque com um só golpe salvou o partido que estava a destruir e, ao mesmo tempo, abriu caminho para sua reeleição e consolidar a dominância do partido no poder.

Quanto ao MLSTP, poucos acreditam que conseguirá aprender com os erros do passado, a avaliar, por exemplo, pelas peripécias que rodearam as últimas eleições internas. As opiniões recolhidas pelo economista Não Acidental, tanto no país como na diáspora, mostram que muitos gostariam que este partido histórico abandonasse os valores culturais presentes no seu interior (valores culturais precários, reativos e de sobrevivência) que o minaram e o fizeram perder muito do seu eleitorado para voltar a merecer a confiança. Descrentes, olham para a nova ADI como a alternativa, ou que seja a Diáspora Unida a olhar para o país uma vez por todas.

Armindo do Espírito Santo – o economista Não Acidental (economista e historiador, Professor, investigador e vereador da CM Odivelas).

Armindo de Ceita do Espírito Santo, Doutor (PhD) em Economia pelo
ISCTE-IUL. Investigador do CEsA do ISEG/UL, integrado na FCT e na Comunidade Científica Internacional. PROF.  Coordenador da Escola Superior de Ciências da Administração (ESCAD) do Instituto Politécnico da Lusofonia (IPLUSO) da Universidade Lusófona (ULHT). Vereador da Câmara Municipal de Odivelas.

11 Comments

11 Comments

  1. Rei Amador

    5 de Maio de 2025 at 23:49

    Tretas.

    O Carlos Vila Nova nunca irá deixar acelerar o desenvolvimento e a transformação de São Tomé e Príncipe. Porquê?
    Porque Carlos Vila Nova é um agente de Governo Português ao serviço de Portugal e contra o interesse e contra a independência total de STP perante Portugal.
    Alias, Carlos Vila Nova é de origem de um pula que foi um dos governadores fascistas racista de Portugal que escravizou os São-tomenses durante os anos 1592 em diante. O tal governador pula em São Tomé na altura chamava-se Francisco de Vila Nova (Colono).
    É preciso tomar muito cuidado e prestar muita atenção com as manobras de cobra mansa. É perigo!
    Confiar no Vila Nova? Povo! Pensa duas vezes.
    Apenas um alerta: Quem avisa, amigo é.

    • ADVINHA

      7 de Maio de 2025 at 8:00

      Rei Amador,você é RACISTA, INVEJOSO, FRUSTRADO,COMPLEXADO, que o mulato faz-lhe subir aquele horror que lhe habita o ÔDIO. O seu rancor, ressentimento contra o mulato (trata-se aqui de um ódio racial, guerrinha étnica),levou-lhe a ser injusto,pois que nenhum presidente são-tomense, que precedeu ao Carlos Vilanova, fez algo de bom para o bem do país e do povo. Senão vejámos:
      – cite-nos um projeto para o desenvolvimento de STP feito e concretizado pelos os senhores Manuel Pinto da Costa, Miguel Trovoada, Fradique de Menezes, Evaristo Carvalho ? Todos estes senhores citados, tiveram longos mandatos, entretanto só resultou o enriquecimento pessoal deles e das suas respetivas famílias, aliás, se STP está um caos e destruído a nível das infraestruturas ( hospitais/saúde, escolas/ensino e educação,roças destruídas, casas caídas,cofre do Estado deficiente etc…)data da tomada da independência do país, já lá vão 50 anos.
      Rei Amador, a sua má fé é tão flagrante, o seu ódio aos mulatos é tão profundo, que você atacou o atual presidente Carlos Vilanova ( que não aprecio, particularmente, pela sua péssima política),sem tomar um tempinho de reflexão coerente,que lhe desse credibilidade.
      Rei Amador, você teria denunciado a política caótica levada pelo presidente Carlos Vilanova, avançando argumentos ( que não faltam), você teria sido mais inteligente e mais útil, porque apesar de por detrás detestar os mulatos, teria talvez mais credibilidade, mas o seu ódio contra os mulatos está no seu negro coração de complexado, que saiu igual aquilo que você é de verdade um VÔMITO FEDORENTO, que só dá nojo quando se lhe lê…a sua odiosa porca escrita.
      Negro sou, negro serei, feliz e sociável, de bem comigo mesmo e com o meu próximo, critico sim, denuncio sim, manifesto a minha decepção e até condena certas posturas, mas jamais terei ódio do outro por ser diferente de mim, sendo ele matumbo, burro, feio…sei lá.
      Afinal, um conterrâneo meu, será tudo, mau político, cobarde, mentiroso, vou dizê-lo sim sem mencionar a sua tipologia,se é baixo, alto, de pele escura ou clara, pouco importa, pois que o ser humano pode ser BOM ou MAU. É tudo!
      Espero que gentalha com a sua mentalidade tacanha e racista nunca venha a ter um posto de responsabilidade.
      Bem haja!

    • Ilza

      7 de Maio de 2025 at 21:03

      Esse ADVINHA é o tal Gégé-ele mesmo; Homem emocional. Hahaha 😂

    • Rei Amador

      8 de Maio de 2025 at 5:10

      Querido Advinha,

      Por um lado, não sou racista, não sou invejoso, não sou complexado e não tenho ódio a ninguém.

      Por outro lado, apresentas um argumento válido. Respeito isso. No entanto, errou no seu apoio a Patrice Trovoada no passado e a sua conduta é um embaraço para todos os que estudaram Direito e para aqueles que representam a profissão com zelo, integridade e responsabilidade.

      No entanto, se Carlos Vila Nova ganhar a sua reeleição para a Presidência, dar-me-ão razões para ter razão. Porque durante o segundo mandato de Vila Nova, se ele ganhar, o Povo descobrirá as verdadeiras cores do Presidente Vila Nova. Por que razão ele hesita em publicar o resultado da investigação do massacre de 22 de novembro? Porque é que Carlos Vila Nova não revela a corrupção e as peripécias em torno da corrupção dos negócios da Lagoa Azul?

      Eu não tenho nenhum problema com sua raça ou cor de pele. Eu amo todos os gêneros e todos, incluindo os mulatos. Zé Cangolo, Zé Mulato são meus melhores amigos.
      ADVINHA está completamente incorreto na sua avaliação sobre mim. Sou uma pessoa responsável e íntegra. Sou Rei Amador. Respeito!
      Não confio no Carlos Vila Nova. Ponto final.

  2. Carlos Vila Nova é Falso

    6 de Maio de 2025 at 1:28

    Bisneto de tetravo pula colono que veio de Portugal colonizar São Tomé é um perigo muito grande e gravíssimo para São Tomé e Príncipe.
    Carlos Vila Nova não da. Ele quer trazer chicote e purradas de Brancos para explorar, abusar, e escravizar o Povo de novo.
    É complicado esse Presidente da República que é filho de pai de trisavos Colono de mais de 500 anos atrás.
    Rejeitamos = Já não estamos interessados na colonização.

  3. Gégé é Doido

    6 de Maio de 2025 at 6:49

    Não se confia no Carlos Vila Nova.

  4. Célio Afonso

    6 de Maio de 2025 at 7:28

    Excelente artigo.
    Seria óptimo se o mesmo pudesse ser repassado nas comunicações audiovisuais para que os mais distraídos pudessem ter acesso ao mesmo.
    O meu apelo vai no sentido de o atual governo promover ações que de facto espelhem a sua vontade em desenvolver o país.

  5. Sem Assunto

    6 de Maio de 2025 at 12:04

    Não acertas uma Armindo Aguiar.
    É tudo vaidade e ego e
    ste teu expediente, já assinas como historiador, o que virá a seguir nem o diabo sabe.
    Uma calamidade!

  6. Sem Assunto

    6 de Maio de 2025 at 12:09

    Armindo Ceita-dito melhor.

  7. Júlio de Ceita

    7 de Maio de 2025 at 13:32

    Boa tarde. O Sr. Armindo de Ceita (meu primo) tem na sua assinatura “Vereador da Câmara Municipal de Odivelas”. Contudo, numa rápida e disponível pesquisa no site ofical da referida câmara, o seu nome não aparece como vereador na presente legislatura.

    Sr. Armindo de Ceita, caso tenha sido e já não seja, por uma questão de honestidade, seria bom que actualizasse.

    Obrigado.

  8. Aguinaldo E. Santo

    8 de Maio de 2025 at 14:15

    É impressionante como nós, santomenses, reagimos. Um cidadão expressa suas observações e sentimentos sobre o nosso país, e, em vez de discutir de forma construtiva, nos limitamos a denegrir. Alguns até se dão ao trabalho de ir ao site da Câmara para verificar se a informação é verdadeira, o que é um ato louvável, mas, sinceramente, não seria mais inteligente se concentrarmos nossas críticas no conteúdo que ele apresenta?

    Em vez disso, nos desviamos do debate e atacamos o presidente, simplesmente por ele ser filho, neto ou tataraneto de colonos. Isso é lamentável. E, para piorar, muitos não têm a coragem de assumir sua própria identidade. enfim!

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