Opinião

12 de Julho e poeiras do Banco Mundial nos olhos dos são-tomenses

O rótulo para a presente rubrica, sem interesse de confronto, nem conforto, deveria ser «12 de Julho, o orgulho inabalável da dignidade do homem negro» que correu mundo de lágrimas emocionais e abraços, em 1975, na hora de arrear a bandeira de Portugal e hastear a do Estado soberano de São Tomé e Príncipe, membro imediato de pleno direito do Concerto das Nações.

Todavia, duas notícias no digital Téla Nón e do início deste Julho, maiúsculo, o mês comemorativo dos 50 anos de soberania das ilhas, despertaram a curiosidade pessoal, com a maior réplica na segunda, a aturar-me à viagem suada, em vasculhar o tempo -, “papel não mente” -, para identificar uma matéria de 2011, «Cinco dedos de mão direita para erguer São Tomé e Príncipe

Puxa-vida! Como veloz, corre o tempo!?

Decorridos quase catorze anos, algumas meninas nascidas, na época, atraiçoadas pelo sub-desenvolvimento, desequilíbrio social, pela violência doméstica e violação sexual, já deram luz na maternidade do único hospital da ilha, na capital, o Ayres de Menezes e, ninguém mais sabe delas, nem das respetivas vidas inocentes, infelizmente, a cantiga crónica que chega do Banco Mundial, é a mesma sinfonia, rasurada pela ventania de décadas, a enganar aos cegos.

Na realidade, não deve ser sina dos insulares, calhar os nomes, em espanhol, representarem o Banco Mundial, já que na altura, há catorze anos, a missão era exercida pelo alto funcionário, Carlos Hernandez que, ao certo, sujeitou o então ministro das Finanças e da Cooperação Internacional, Américo Ramos, a assinar ou assistir as fantásticas brochuras, empoeiradas aos olhos africanos.

Na atualidade, Juan Carlos Alvarez, da mesma instituição, pela conclusão do recente encontro com o 1º ministro, o mesmo Américo Ramos, (bochecha, produto de seis meses de trabalho produtivo e dois ordenados milionários, está mais redondinha), veio gabar que 42%, absorção negativa, «É a percentagem mais alta que temos na região de África, e foi atingida por São Tomé e Príncipe», na linha da notícia, «STP atinge a melhor taxa de execução de projetos financiados pelo Banco Mundial em África».

Foi mais longe na fantasia, a afirmar de que, «isso significa que o dinheiro está a chegar aos beneficiários para os quais os projectos foram desenhados». Quais-lá beneficiários, sem alavanca empresarial privada para empregos e melhorias da vida populacional, a obrigar a mão-de-obra produtora, à fuga cega para o estrangeiro!?

Mas, é de todo prioritário, desviar para o embate com a primeira notícia, «A sustentabilidade do sector pesqueiro em debate na III semana nacional das pescas», a outra poeira lamacenta, para a conclusão de nuvens acinzentadas.

Quais dos seminaristas acreditaram de que, «Com o crescente declínio de recursos marinhos e a escassez de pescado no mercado para o qual muito contribuem a falta de informação sobre o estado dos recursos, um esforço de pesca pouco controlado, a fraca capacidade de gestão sustentável das pescas, a contínua incidência de impactos socioeconómicos e ambientais causados por diversas actividades, e a limitada cadeia de valor, a sustentabilidade das pescas passou a depender de todos nós, devendo ser tratada de forma holística e integrada, através da abordagem ecossistémica às pescas (AEP).»?

Os são-tomenses, bué, mais de meia centena, mulheres e homens, lindos de fato e gravata e, até uniforme policial, com o eventual subsídio nas algibeiras -, só assim, os iluminados na terra, se sujeitam ao conhecimento, – pousaram para a fantástica fotografia da «Sustentabilidade do sector pesqueiro», verdade vem ao de cima, destruído pelos interesses (neo) coloniais que assaltam, esgotam o mar e destroem por arrasto a vida marinha pelo uso de práticas e meios devastadores, proibidos por legislações dos respetivos países e doadores internacionais.

Por isto e muito mais, os desafios desde 12 de Julho de 1975, me levam a distanciar da próxima manifestação e do luto da diáspora, porque a independência, é o maior tesouro de um povo, daí a separação do trigo, do joio. Miúdo, assim aprendi com o saudoso mestre de Língua Portuguesa e de várias gerações, o professor, não político, Januário Costa. Ninguém joga no lixo, o seu tesouro.

Após um regime falido por circunstância e época, os vários governos da democracia, a partir de 1991 e liderados, sazonalmente, por PCD, MLSTP, MDFM, ADI (este mais de metade desse período, com a maioria relativa e duas maiorias absolutas, sempre liderado por um só figurante, governando a política económica e social dos são-tomenses, a partir do estrangeiro, com a sua participação anterior de ministro dos Negócios Estrangeiros) e das iniciativas presidenciais de Miguel Trovoada, Fradique de Menezes, Pinto da Costa e Vila Nova, sem boa governação, mataram a galinha de ovos de ouro e encheram os bolsos individuais e de grupos, mas nada significa que não se vislumbre alternativas para os obstáculos de cada estação. A independência da África, por si só, simboliza a Dignidade do Homem Negro, vontade de valorização, iluminação e celebração anual.

Beneficiado do direito de pensamento crítico, o secretismo do poder que fecha a sete chaves, até uma semana antes, o programa das comemorações de 12 de Julho, sem o debate plausível para onde caminhamos, com a sanguinária cruz de 25 de Novembro de 2022, quatro vidas humanas assassinadas pelas chefias militares, acusadas pelo Ministério Público, promovidas e condecoradas por capricho político, obscuro, lançam suspeições naquilo que será o marco maior, o ato central dos festejos dos 50 anos. Nesta idade de adulto para a velhice, seria imprescindível os aconselháveis discursos, curtos, dos antigos presidentes Miguel Trovoada, Fradique de Menezes e Pinto da Costa, a lado do presidente Vila Nova, para a elevação do contraditório democrático, de estabilidade institucional e social e, da mobilização de vontades para os próximos cinquenta anos promissores.

Ainda de costas viradas aos que não dignificam a data, palmas ao embaixador Esterline Gonçalves, por acender luz e fazer jus a memória, homenageando a família Graça do Espírito Santo, neste ano festivo de Boda de Ouro. Sem o tempo de tecer considerações ao mimo que os fundadores da África portuguesa e do Centro dos Estudos Africanos, frequentadores da Casa 37, Rua Actor Vale -, o merecido museu são-tomense -, em Lisboa e dos seus correligionários, dos PALOP, narram daqueles filhos das ilhas, a saudosa, minha guerreira, sussurrava e exibia com valentia nos ouvidos da Trindade assassinada, «Se não fosse a família Graça que fez vir o advogado branco, o governador Gorgulho, em 1953, fazia uma razia (extermínio) da população nativa, em São Tomé».

Para o remate certeiro, os desafios urgentes, não devem ser de luto ou de mãos estendidas, a espera nada do Banco Mundial e dos demais parceiros de cooperação que jogam poeiras venenosas nos olhos dos africanos. Eles, sem a necessidade de lupa, são os responsáveis da destruição do sonho da África, através de imposições contratuais, roubo da riqueza africana e outras agendas hipócritas que tudo fazem para a não dignificação do homem africano.

Uma divulgação, já tive a oportunidade de partilhar a publico, Angola com a frota militar de guerra que possui, uma das mais pujantes de África, com que fiscaliza a sua zona económica-marinha, perde de pesca ilegal, por bandeiras estrangeiras, dezasseis bilhões de euros anuais. Sem armada de vigia e fiscalização e, com os pescadores artesanais, sob o risco permanente de vida, a reinventarem o abastecimento do mercado nacional e a sobrevivência familiar, São Tomé e Príncipe, nada perde dos recursos do seu vastíssimo território marinho, em mãos alheias?

Do resultado financeiro que haveria de arrecadar do Acordo de Pescas, não fossem as migalhas que recebe da União Europeia, apenas este parceiro com as dezenas de embarcações, no mar das ilhas, garantiria aos são-tomenses de que não precisam de petróleo para desenvolver um país pequeno e com dez dedos de população, nem sustento dos olhos com as poeiras do Banco Mundial.

Aqui chegado, nunca é demais, estimular aos leitores do prazer de leitura, de que o livro «Ellyzé – Autópsia da Alma», nas prateleiras da FNAC, em Portugal, contrariamente ao romantismo da capa, dispõe de várias réplicas do espírito crítico e ruidoso aos pavilhões dos governantes africanos e parceiros de cooperação internacional, com as riquíssimas páginas de reflexão, alertas, revolução digital, mangas arregaçadas e perspetivas para um futuro nacional, triunfante e consciente na Unidade, Disciplina e no Trabalho.

Com a imensa fome de clamor na barriga, apesar de não receber o convite para o festejo oficial, ainda vou a tempo de pegar o voo no “plé-mundu”, paradeiro distante, até Lisboa, a atual sede criminal do ódio da extrema direita contra a dignidade africana, a contribuinte valiosa da economia portuguesa, para a presença ativa na celebração da Boda de Ouro de São Tomé e Príncipe.

12 de Julho, orgulho nacional!

José Maria Cardoso

06.07.2025

2 Comments

2 Comments

  1. Vanilson Santos

    8 de Julho de 2025 at 10:57

    Concordo a cem por cento contigo e subscrevo, José Maria Cardoso !

    O Banco Mundial, o FMI e os seus primos sorridentes das “instituições de Bretton Woods” são, na verdade, uma máfia sofisticada, com gravata e relatórios coloridos, que vivem à custa da miséria que fingem querer erradicar. Não há outro nome possível: eles são parte de uma rede de predadores financeiros globais que montaram um esquema monumental de dependência — uma espécie de narcotráfico económico — em que os países pobres são mantidos numa eterna reabilitação que nunca chega à cura.

    Basta abrir o mapa: nenhum país que esteve sob tutela contínua do Banco Mundial saiu da pobreza. Nenhum. Olha para a África: há décadas que estes senhores andam cá dentro, com projectos “transformadores”, planos de reforma “estruturais”, assistências técnicas “de excelência”… e o que temos? Miséria, dívida, fuga de cérebros e economias inteiras subordinadas ao poder externo.

    Agora olha para os países do nordeste asiático — Coreia do Sul, Taiwan, Singapura. Esses recusaram os “empréstimos generosos” dos abutres financeiros, protegeram as suas economias, planearam com soberania e apostaram na educação e na indústria. Resultado? Ricos, poderosos e independentes. E os nossos governos, por cá, continuam a ajoelhar-se por mais um PowerPoint, mais um “estudo de viabilidade”, mais uma esmola com juros leoninos.

    Por isso, quando o representante do Banco Mundial se levanta para dizer que “o dinheiro está a chegar aos beneficiários”, apetece rir para não chorar. Beneficiários quem, cara pálida? O povo que continua a emigrar em massa? Os pescadores que não têm sequer gelo para conservar o peixe? Os agricultores que esperam chuva como quem espera um milagre? Ou será que se referem aos mesmos de sempre — a elite corrupta, os consultores internacionais, os burocratas de escritório que sabem tudo sobre Excel, mas nunca puseram o pé na terra?

    E para quem ainda tiver dúvidas sobre este esquema sujo, aconselho vivamente a assistir ao documentário “A Máfia do Banco Mundial”:
    📽️ https://www.youtube.com/watch?v=cCwqFqqgKEA
    Uma verdadeira aula sobre como os nossos “parceiros de desenvolvimento” são, na verdade, os nossos carcereiros disfarçados de filantropos.

    Está mais do que na hora de deixarmos de andar de mão estendida. Temos tudo o que precisamos: cérebro, mar, terra, povo, cultura e história. Só falta uma coisa: liderança com coluna vertebral, que diga basta à dependência e ao teatro do “project finance”. Chega de poeira nos olhos. Chega de farsa.

  2. Firmino Sousa

    8 de Julho de 2025 at 13:31

    Vamos festejar/comemorar 50 anos de “Genocídio Paulatino” de um povo, devidamente programado por mentes mesquinhas de gente com ambição desmedida, falta de carácter e sem amor próprio. O drama humano só não é tão visível porque a mãe natureza continua muito generosa em STP.
    Será por incompetência ou falta de escrúpulo? Talvez ambas!

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