Há dois anos que os 21 juízes do Tribunal Militar tomaram posse para julgar a morte de 4 civis, que ocorreu no quartel do exército na manhã de 25 de novembro de 2022.
No mês de maio de 2025 o Presidente da República Carlos Vila Nova denunciou a inoperacionalidade do Tribunal Militar.
«Os tribunais judiciais decidiram enviar o processo para o Tribunal Militar, que nem sequer estava constituído. Nunca tinha julgado sequer um furto de banana. Não estava constituído», afirmou o Presidente da República.
As provas do crime estão no processo. Mas o Tribunal Militar não consegue marcar o julgamento. A investigação do crime foi feita pelo Ministério Público com apoio da PJ de Portugal.
«O tribunal militar é uma utopia. É uma invenção feita por aqueles que nunca acreditaram, e jamais queriam a realização do julgamento deste caso», disse o jurista Hamilton Vaz.
Hamilton Vaz explicou porquê que o Tribunal Militar é uma utopia. «É um tribunal que surge à luz da lei 1/84. Uma lei criada na primeira república, uma lei dos tempos de Alda Graça e Pinto da Costa. Na altura chama-se Assembleia Popular, é que criou essa esta legislação. Na minha convicção de jurista, após a nova constituição política criada em 1990 essa lei do Tribunal militar está revogada», frisou.


Um tribunal militar sem estrutura para julgar a morte após tortura de 4 civis no quartel do exército.
«Esse tribunal prevê uma estrutura e funcionamento que integra a primeira instância com 12 juízes e a segunda instância com 9 juízes, um total de 21 juízes. Bem, agora o quê que diz a nossa constituição política em vigor relativamente à categoria dos Tribunais. O artigo 126 quando faz menção a categoria dos tribunais, faz menção a existência do Tribunal da Primeira Instância e o Supremo Tribunal de Justiça. Não existe na nossa constituição o Tribunal da segunda instância. A partida este tribunal não tem como funcionar», explicou Hamilton Vaz.
Na perspectiva do jurista, o Tribunal Militar criado em 1984 é sustentado por normas, que são rejeitadas pela nova constituição política criada na segunda república (1990).
Daí o veemente apelo que é lançado ao novo Procurador-Geral da República Carlos Stock. «O procurador-geral deve suscitar a inconstitucionalidade deste tribunal», defendeu Hamilton Vaz.
O anterior Procurador Geral da República Kelve Carvalho, apresentou ao Tribunal Constitucional um pedido de fiscalização da decisão do Supremo Tribunal de Justiça de remeter o processo para o Tribunal Militar. Mas, os juízes do Tribunal Constitucional, nem sequer analisaram o conteúdo da procuração.
Mesmo assim, o jurista Hamilton Vaz acredita que o novo Procurador-Geral deve suscitar ao Tribunal Constitucional a fiscalização da norma de 1984.
Enquanto a justiça santomense foge do processo de 25 de novembro, como o diabo foge da cruz, os juristas santomenses consideram que o Estado como o principal responsável pela chacina dos 4 civis que já estavam sob a custódia das autoridades deveria agir, para pelo menos reparar os danos. Hamilton Vaz também concorda.
Aliás, o processo-crime movido pelo Ministério Público abre portas para que os representantes do Estado possam agir nesse sentido.
«A própria juíza de instrução, quando fez o processo todo, pediu que esses indivíduos fossem postos na disponibilidade para responderem ao processo em que são indiciados», recordou o jurista.
A acusação do ministério público exige a despromoção dos cerca de 20 arguidos, todos eles militares, incluindo oficiais superiores.
«Lamento que até agora o Presidente Carlos Vila Nova, não tenha despromovido os senhores que praticaram o crime, que fossem afastados da liderança do exército e da chefia militar», acrescentou.
O pagamento da indemnização às famílias das vítimas mortais é outra medida que o Estado santomense poderia tomar, para reparar os danos.
O jurista Hamilton Vaz esclareceu que no caso de 25 de novembro, tinha de haver decisões jurídicas que cabem aos Tribunais, e também decisões políticas que só duas pessoas podem tomar neste momento no país.
«O presidente Carlos Vila Nova e o primeiro-ministro Américo Ramos. Eles é que devem despromover toda gente que tem as mãos manchadas de sangue», pontuou.
Os acontecimentos de 25 de novembro de 2022, estão retidos na memória do povo. E quanto mais passa o tempo, o sentimento de injustiça e impunidade cresce no seio da sociedade.
Hamilton Vaz alerta que sem o esclarecimento do caso 25 de novembro, é inútil pensar-se na paz social em São Tomé e Príncipe.
O leitor deve ouvir a entrevista dada pelo jurista ao Téla Nón, para se inteirar de outros elementos em torno da inoperacionalidade do Tribunal Militar.
Abel Veiga
Corais do mar
28 de Novembro de 2025 at 12:38
A investigação neste enquadramento deveria ser mais profunda, existem individualidades civis, politicos, militares, altas patentes, envoltos, há um sobrevivente, assim é tempo limite extorquir toda a verdade neste processo.
Pois que a culpa jamais pode, poderá morrer solteira, a razão desta tentativa de golpe, os motivos, a orquestração, bem como todo acontecimento posterior(a captura e a tortura), devem ser melhor esclarecidos, a população, o país tem direito de saber
É tempo de responsabilidade/responsabilização, este processso requer liderança.
É tempo do sector da justiça de uma vez por todas, ajudar a sedimentar o estado de direito, deveres garantias dos cidadãos
Justiça a funcionar7trabalhar com rigor, com transparência, com eficiência, com efectividade.
Aos envolvidos digam verdade a terra que vos viu nascer, é vosso dever