Opinião

Presidenciais – A Entrevista do Jorge Amado

Passou uma tarde, veio amanhã e depois a noite: surge, então, como uma marca inconfundível, o quinto candidato desta série de entrevistas do “Nós Acreditamos”.

Jorge Amado, no quinto dia desta série de entrevistas, não tendo poderes divinos, tal como retrata o livro de Génesis, não criou “todas as espécies de animais selvagens, de animais domésticos e todos os bichos”, mas, com uma coragem invulgar, tendo em conta as características no contexto político nacional, resolveu fazer uma nova catalogação dos “bichos”, de acordo com aquilo que estes representam para a nossa sociedade.

Neste exercício demolidor do Jorge Amado, em forma de entrevista, como candidato presidencial, não ficou pedra sobre pedra, perdoem-me a redundância. É também, por isso, que os órgãos de comunicação social estatal do nosso país não ousam fazer este autêntico serviço público, que o “Nós Acreditamos” vem fazendo, porque tal representaria uma machadada no conforto parasitário de muita gente que se autointitula de representante do povo e aproveita todas as debilidades do sistema para tirar dele todas as vantagens, num exercício político, cínico e inglório, de autocontentamento, mas nefasto aos interesses gerais.

Jorge Amado, não sendo nenhum Santo da política Santomense, teve a virtude de, na referida entrevista, em contradição com aquilo que é a praxis dominante, catalogar os “bichos”. Num registo que não sendo o mais pedagogicamente aconselhável, para uma entrevista, como candidato presidencial, teve o condão de deixar em alerta muita gente que esperneia, silenciosamente, perante o ataque realizado, ainda que esperado.

Não tenho dúvidas nenhumas que a agressividade que suporta a luta político-partidária, momentaneamente, e que contribuiu para a germinação dos sintomas de ódios e perseguições na nossa sociedade, vai “parir” mais “Jorges Amados” porque não há “pão” suficiente para dar a toda a gente em todo o momento e, consequentemente, alimentar esta espécie simbiótica e tóxica, que nos mata como comunidade.

Não haverá forma de acabar com este clima de ódio e perseguição prevalecente na comunidade porque seria sinónimo do fim da festa, decorrente da desistência ou falta de comparência daqueles que, momentaneamente, se encontram sem “pão” e, por outro lado, sinal de entrega de ouro ao bandido daqueles que gerem, neste momento, o “pão”.

É por isso, aliás, que os discursos e proclamações de uma parte significativa dos candidatos, uns por genuína vontade de mudança e outros por calculismo político interesseiro, sobre a necessidade de se acabar com o clima de ódios e perseguições na nossa necessidade, soam a falso porque o “pão” tenderá a ser, no futuro, significativamente menor, e tal escassez irá continuar a alimentar, ciclicamente, este clima de ódio e perseguição sem quartel, em nome da política.

Por isso, parece-me ridículo, ver alguns candidatos presidenciais afirmarem, com um cinismo invulgar, que querem acabar com o este clima de ódio e perseguições no país, sendo que, todavia, todas as suas ações e decisões políticas diárias, mais ou menos discretas, denunciam a vontade inabalável de alimentar este monstro.

O que é, afinal, que disse o Jorge Amado na referida entrevista?

Disse, logo no início da entrevista, que o presidente da república deve estar acima dos partidos políticos, coisa que me parece consensual, mas, todavia, compreende-se mal, que, o próprio partido e ele mesmo (pelo facto de ter aceitado a ratificação interna de um candidato presidencial do partido para as referidas eleições), tenham contribuído para que as pessoas percecionassem a principal candidatura oriunda do MLSTP, para estas eleições, como uma candidatura estritamente partidária. De facto, vai ser muito difícil ao Pósser da Costa explicar aos eleitores que a sua candidatura não é estritamente partidária, tendo em conta os fenómenos que antecederam a formalização oficial da mesma, e, com tal, alargar a base eleitoral de apoio, já por si, muito retalhada por competição intrapartidária intensa.

Jorge Amado disse, ainda, que, no referido Conselho Nacional do MLSTP em que ocorreu a ratificação da candidatura do Pósser da Costa, como candidato do partido, às eleições em causa, houve, da parte da Direção e dos conselheiros do referido partido, a ousadia, de terem tentado apresentar e aprovar uma resolução cujo conteúdo ameaçava demitir ou expulsar os dirigentes e militantes do referido partido, que ocupam cargos na Administração Pública, caso estes não apoiassem o candidato preferencial do partido às referidas eleições.

Onde chegámos?! É esta a forma como esta gente trata a coisa pública desde 1975 e, no entanto, gritam aos quatro ventos, que querem acabar com o clima de ódio e perseguições no país. Quem, ainda, acredita nesta gente? Onde termina o partido e começa o Estado? Como é que eu posso acreditar nos dirigentes que ocupam altos cargos na estrutura do nosso Estado, desde o primeiro-ministro, ministros e afins, que manifestam, relativamente à “coisa pública”, esta perceção tão perversa e totalitária?

Pergunto, ainda: o que esta gente não faria se tivessem na presidência da república, decorrente dos resultados destas eleições, alguém que legitimasse, acriticamente, todas as suas vontades?       Que país teremos, nos próximos anos, se tal vier a acontecer?

É por isso que estas eleições presidenciais são importantíssimas e não é, seguramente, para a conservação dos interesses desta maioria governamental que já se considera dona do país.

Jorge Amado, disse, ainda, na referida entrevista, que não apoiava a atual governação do MLSTP porque, entre outras justificações, quem mandava no país, neste momento, é o presidente da Assembleia Nacional, senhor Delfim Neves, também ele candidato presidencial, cujo partido, no âmbito da atual coligação maioritária e governamental, apresenta somente três ou quatro deputados, sendo o MLSTP uma espécie de muleta nas mãos do PCD e do senhor Delfim Neves.

Tal facto nunca me pareceu inverosímil ou inesperado e, para tal, basta ver as dificuldades que o primeiro-ministro, Jorge Bom Jesus, desde o início da legislatura, teve e tem tido na coordenação do governo, coisa, aliás, que ele nunca conseguiu fazer com o mínimo de eficiência para um país que tem inúmeros problemas por resolver.

Só estes dois males, referenciados pelo Jorge Amado na referida entrevista, seriam suficientes para que, qualquer presidente da república, minimamente preocupado com o interesse geral, mandasse para casa este governo e coligação.

Jorge Amado não se ficou por ai, na referida entrevista, pois, disse ainda, posteriormente, que o “projeto de cultivo de cannabis” no país, expressão que entrou com toda a força no léxico político e partidário, configura um caso sério e problemático para a nossa comunidade, tendo em conta a ligação, direta ou indireta, do mesmo, aos propósitos de algumas candidaturas, bem identificadas, ao cargo da presidência da república, sendo, que, na sua opinião, os eventuais promotores do projeto em causa, que disponibilizaram meios financeiros avultados aos referidos candidatos, só estarão à espera que estes ganhem as eleições presidenciais para que o país se transforme, rapidamente, num dos maiores mercados de drogas leves na nossa zona geográfica.

Fiquei atónito com esta afirmação vinda de alguém com grandes responsabilidades, que é um dos candidatos às próximas eleições presidenciais, que já exerceu cargos importantíssimos no nosso país e, até, já foi líder do MLSTP. Não estamos, portanto, a falar de uma pessoa insignificante, política e socialmente. Como é que uma afirmação desta gravidade não deixa o país perplexo e não contribui para mobilizar as pessoas para uma reflexão profunda sobre o nosso futuro coletivo, neste âmbito específico?

Para qualquer cidadão comum, de facto, parece estranho, muito estranho, a forma como este projeto apareceu, de rompante, sem discussão prévia e transversal, séria e também especializada, tanto no âmbito político como na sociedade, com o objetivo de refletirmos sobre a sua natureza, fins, objetivos, enquadramento legislativo que suportará a sua implementação, controlo e delimitação de zonas de produção, vantagens, desvantagens, monitorização e avaliação do processo de produção, tratamento e exportação do referido produto, etc., e não, simplesmente, informarem-nos, genérica e definitivamente, sobre o rendimento que o projeto em causa proporcionará que, segundo o ministro de agricultura, rondará os 17 milhões de euros.

Esta maioria governamental, definitivamente, trata os cidadãos como crianças que não têm capacidade reflexiva porque está, de facto, convencida que o país é deles.

Segundo o candidato Jorge Amado, não existe um “Plano de Desenvolvimento Estratégico” para o país, porque os decisores políticos usam, para interesses privados, todas as verbas disponibilizadas por entidades externas para este fim e os grandes investimentos privados, de acordo com a sua opinião e convicção, quando aparecem, transformam-se logo numa oportunidade para os políticos ganharem dinheiro ou ganharem eleições, e a política externa, segundo a sua opinião (ele que já foi embaixador em Taiwan) tem caráter prostituível, tendo em conta os interesses da maioria dos nossos políticos.

Para credibilizar a sua acusação, afirmou, que, tendo estado em Taiwan, durante alguns anos, como embaixador, nunca recebeu nenhuma orientação do governo de república em prol da criação de condições para o exercício de uma diplomacia ao serviço do desenvolvimento do país.

No seu processo de catalogação dos “bichos” o Jorge Amado afirmou, também, na referida entrevista, que os nossos tribunais, em vez de serem caracterizados, como em qualquer democracia, como independentes e autónomos, são sectores onde predomina mais corrupção no país, fruto de uma grande promiscuidade familiar e de defesa de interesses privados, sendo que, quem alimenta esta teia de corrupção, a montante, são os políticos que não querem que os tribunais, de facto, funcionam.

Para complementar a sua acusação exemplificou com o caso “Rosema” que, segundo o próprio, é um caso de natureza política, tendo o mesmo dificuldades em compreender a intervenção ou papel do seu próprio partido, MLSTP, no caso em apreço, porque a empresa em causa, “Rosema”, mesmo quando ele liderou o referido partido, foi o principal financiador do referido partido.

Concluiu, depois, afirmando, que, basta constatar a incoerência dos conteúdos dos acórdãos produzidos por juízes ou tribunais nacionais diferentes, sobre o mesmo processo, sendo que um deles devolveu a empresa em causa ao suposto dono Santomense e, noutro caso, devolveu a empresa ao suposto dono Angolano, sendo tal demonstrativo, na sua opinião, de que estamos perante uma caso flagrante de submissão dos interesses públicos aos interesses privados.

Para terminar o seu processo de catalogação dos “bichos”, Jorge Amado afirmou que a proliferação de candidaturas nesta eleição presidencial, nalguns casos específicos, denunciam o propósito  de alguns destes candidatos, sobretudo aqueles que apresentam maior disponibilidade financeira, realizarem contratos chorudos com entidades externas, privadas ou públicas, sob segredo, relacionados com a possibilidade de desenvolvimento de determinados projetos que são nocivos aos interesses nacionais ou, em alternativa, constituírem-se em assistentes de defesa de interesses alheios, para, posteriormente, quando conseguirem ganhar as eleições em causa, comprometerem o país com este quadro de irreversibilidade, coisa, que, o “projeto de cultivo de cannabis” no país, pela atual maioria governamental, na sua opinião, parece representar.

Nunca tinha assistido, em direto, a um processo de catalogação dos “bichos” tão assustador, representativo de uma ameaça complexa para aquilo que será o nosso futuro como entidade comunitária de pertença. Não temos outra solução: ou deixamos os “bichos” crescerem, multiplicarem e apoderarem da casa ou; em alternativa, temos de começar a controlar a praga, com inteligência e método, para salvar a casa!!

Parabéns pela coragem, senhor JORGE Amado!

Adelino Cardoso Cassandra

    6 comentários

6 comentários

  1. Chatice

    18 de Junho de 2021 as 23:26

    O que Jorge disse não é mentira nenhuma. Vão para a feira ou mira mar e vocês vão ouvir a mesma coisa. Toda a gente diz isso e o povo sabe isso tudo.

  2. Pronto

    18 de Junho de 2021 as 23:46

    Está na hora do povo abrir olho. Estes dirigentes conhece o povo que tem. Basta pão com chouriço para enganar. Chega. Fui.

  3. Bombom e Almerim

    18 de Junho de 2021 as 23:52

    Dinheiro fala alto. Até gente de diáspora está a vir para aqui fazer campanha para estes roubadores do povo. Depois andam a criticar banho, banho, banho. Cada um toma banho que eles merece. Dizem que gente de diáspora recebe banho forte de chuveiro. O povo aqui recebe banho de caneca com balde. Brincadeira tem hora. Nunca vi tanto dinheiro gasto numa campanha como tou a ver agora. Cada um come sua boca daqui sua boca de lá e depois vota no candidato que é melhor para o país. Este ano vou exigir boca de urna forte.

  4. Matabala

    19 de Junho de 2021 as 8:24

    Sabe bem do que fala esse Jorge Amado comeu com a mesma colher que seus camaradas durante muito tempo. Se arrependeu? Antes tarde que nunca. Não tem meu voto mas se servir para desmascarar esses fantoche de Posser e Delfim já valeu…

  5. Pascoal Carvalho

    20 de Junho de 2021 as 22:12

    com tantas fissuras e ou brechas, cada (elemento, militante, membro, camarada) do MLSTP/PSD que abre a boca, descobre-se uma nova verdade que não é novidade nenhuma. infelizmente infelizes.

  6. SEMPRE AMIGO

    21 de Junho de 2021 as 18:48

    Este artigo encomendado(?) funciona como um autêntico RÉQUIEM para o sonho de Jorge Amado e pode tornar-se num pesadelo para ele e também para os seus camaradas do partido.Aguardemos a reacção.dos camaradas.

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