Sociedade

Usando o poder da música para promover a mudança de mentalidade sobre as tartarugas marinhas

Pesquisadores da Universidade de Oxford e do Programa Tatô desenvolveram uma forma cativante de alcançar as comunidades da ilha de São Tomé, na África Ocidental.

Ao usarem métodos de pesquisa do consumidor para obterem respostas anônimas, eles descobriram que as pessoas têm altos níveis de confiança na Televisão e no rádio. Usando essas informações, eles convenceram um dos embaixadores da cultura santomense pelo mundo, o vocalita de África Negra, João Seria, a produzir um videoclipe original com uma música chamada ‘Mém di Omali’, que significa Mãe do Mar em dialeto forrô.

O videoclip da música cantada por João Seria foi filmado no cenário idílico da ilha de São Tomé com as suas águas azul-turquesa banhando as praias douradas onde as tartarugas marinhas desovam e foi divulgado na televisão nacional. A música usa três dialetos locais, pois muitas pessoas não usam o idioma oficial do país (português) em casa. A letra inclui mensagens como: “Meu povo, deixa a tartaruga marinha viver”; “Se você vir carne de tartaruga marinha à venda, não a compre”.

O pesquisador principal, Diogo Veríssimo, disse: “Tivemos a ideia de fazer essa música, pois procurávamos uma maneira mais positiva e cativante de transmitir a nossa mensagem ao público-alvo do que transmitir a repetição usual de fatos científicos sobre extinção. Usámos a televisão e um músico muito famoso, porque sabíamos pelos resultados da nossa pesquisa que a televisão tinha um alto nível de confiança pela população santomense e que as normas sociais são um dos fatores principais do consumo de carne de tartaruga marinha.”

A ilha de São Tomé é a maior ilha do arquipélago de São Tomé e Príncipe e abriga mais de 95% da população santomense. É um local de desova e de forrageio para cinco das sete espécies de tartaruga marinha conhecidas atualmente no mundo. No entanto, durante séculos as tartarugas marinhas foram exploradas para consumo humano na ilha de São Tomé, em que a carne e ovos são utilizados por razões comerciais e de subsistência.

Em 2014, o governo santomense criminalizou no arquipélago a posse, o comércio e o transporte de tartarugas marinhas (mortas ou vivas) e dos seus derivados. No entanto, como em muitos países em desenvolvimento no mundo, a aplicação das leis ambientais ainda é considerada um grande desafio no país, com instituições competentes muitas vezes sem a capacidade técnica e os meios para aplicar efetivamente a legislação.

Pesquisadores do Departamento de Zoologia da Universidade de Oxford, trabalhando em conjunto com a ONG Programa Tatô, a Universidade de Exeter e a Universidade de Lisboa, perceberam que o foco precisava passar de medidas coercitivas para mudanças voluntárias de comportamento. Para fazer isso, eles precisariam entender os principais fatores do consumo de tartarugas marinhas na ilha, e quais os canais de comunicações mais confiáveis por parte da população.

Os cientistas usaram métodos de pesquisa do consumidor e adaptaram os métodos de pesquisa para obter respostas anônimas de cerca de 2.000 cidadãos em comunidades rurais e urbanas.

Veja o videoclip original no canal YouTube:

Os resultados de sua pesquisa levaram a este videoclipe, aproveitando o apelo do maior influenciador da ilha e da fonte de informação mais confiável. Além das transmissões programadas na TV e na rádio nacional, este vídeo tem já 30.000 visualizações no YouTube (a população do país é de cerca de 200.000).

A coautora Sara Vieira, do Programa Tatô, disse: “A pesquisa com consumidores é uma parte essencial para obtermos a perceções do público. Podemos fazer muito mais ao não só compreendermos as atitudes e normas sociais que conduzem o comportamento, bem como os canais de comunicação e influenciadores que podem ser usados ​​para alcançarmos o público-alvo.”

Os pesquisadores descobriram crenças generalizadas nas populações rurais de que as populações de tartarugas marinhas nunca poderiam se extinguir e comportamentos em ambientes urbanos e rurais motivados pela crença de que o consumo de carne de tartaruga marinha faz parte da cultura nacional. A coautora Ana Nuno, da Universidade de Exeter, disse: “Planejar intervenções de mudança de comportamento é uma tarefa complexa que só pode ser realizada com o entendimento profundo das pessoas que os cientistas ou formuladores de políticas pretendem influenciar.

No contexto de questões tão complexas quanto o consumo de carne de animais selvagens, onde influenciar os consumidores provavelmente se tornará uma pedra angular dos esforços de conservação da biodiversidade, uma pesquisa abrangente e rigorosa sobre os consumidores é um precursor crucial do sucesso da conservação”. A coleta de dados dos cientistas se concentrou em dois grupos prioritários: os habitantes das comunidades costeiras e os moradores da capital São Tomé.

Essas comunidades de pescadores foram selecionadas, uma vez que são vizinhas de importantes praias de desova de tartarugas, onde a captura de tartarugas marinhas ocorre. Residentes das comunidades costeiras disseram que a rádio, professores, televisão e os líderes religiosos eram as suas fontes de informação mais confiáveis. No outro extremo do espectro, os políticos eram o grupo menos confiável.

Para os residentes da cidade de São Tomé, os níveis de confiança eram geralmente mais baixos, com professores e ONGs sendo as fontes de informação mais confiáveis. Os resultados desta pesquisa forneceram informações importantes do público-alvo para o desenho de campanhas de mudança de comportamento destinadas a reduzir a procura por carne e ovos de tartarugas marinhas.

Apesar dos desafios, os pesquisadores também descobriram que existe um amplo apoio à proteção das tartarugas marinhas no país e um grande consenso sobre o fato de que as tartarugas marinhas fazem parte do seu patrimônio natural. O uso de um videoclipe que envia mensagens positivas visa aproveitar essa boa vontade e o senso de conexão com as tartarugas marinhas como parte da identidade do país.

Os pesquisadores esperam que esta inovadora adaptação de métodos para entender o comportamento e qual a melhor forma de transmitir a mensagem seja adotada em outros esforços de conservação em todo o mundo onde a complexidade e as tradições, necessidades e culturas humanas convivem lado a lado com as necessidades de animais em vias de extinção.

Artigo da Universidade de Oxford : Traduzido para Português

    2 comentários

2 comentários

  1. Clemilson Brasileiro

    14 de Fevereiro de 2020 as 21:39

    Gostei do ritmo parece caribenho

  2. Jorge Carvalho

    20 de Fevereiro de 2020 as 8:30

    Com todo empenho e perseverança das equipas de proteção desta espécie animal em vias de extinção, iremos alcançar a total proteção destas espécies que frequentam as aguas marítimas de São Tomé e Príncipe. Força e coragem.

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