Sociedade

Filho de caçador de tartarugas ganha prémio internacional por proteger as Tartarugas

Vive em Morro Peixe, uma comunidade de pescadores da ilha de São Tomé. Hipólito Lima é desde a última semana, reconhecido internacionalmente como um dos mais importantes agentes de protecção das tartarugas marinhas do continente africano, e consequentemente do mundo.

Ganhou o Prémio Príncipe Willian para preservação ambiental em África no ano 2020. Baptizado como “ Pai das Tartarugas Marinhas”, carrega consigo 26 anos de trabalho pela protecção de uma das espécies mais ameaçadas do ambiente marinho.

Após o anúncio do prémio internacional, o Téla Nón encontrou – se com Hipólito Lima, no último fim-de-semana, no centro de conservação de tartarugas marinhas em Morro Peixe.

«Ao saber do prémio fiquei sem palavras…..Pois esta oportunidade não é para qualquer pessoa…», afirmou.

Ladeado por outros 3 habitantes de Morro Peixe, Hipólito Lima, manifestou orgulho por ter conversado com o Príncipe Willian do Reino Unido da Grã – Bretanha.

«Quando conversei com sua excelência o Príncipe….ele me disse que estava muito contente por eu ser o vencedor do prémio…..Mas eu sim, estou muito mais contente do que ele….. Na conversa em vídeo chamada, mesmo aqui neste espaço, eu convidei o Príncipe que visitasse São Tomé, para comer um bocado de fruta pão, calulu, e conhecer a minha realidade no terreno…» relatou sorrindo.

Hipólito Lima, conquista reconhecimento internacional, por dedicação a uma causa, em que o seu pai foi vilão. «Meu pai foi um grande caçador de tartarugas. Eu comia carne de tartaruga quando era mais jovem…».

A partir do ano 1996 e de forma espontânea, Hipólito Lima, decide participar num projecto de protecção e conservação de tartarugas. Segundo ele, na altura estava em São Tomé uma equipa da ONG americana “Corpo da Paz”,  que desenvolvia pesquisas em torno do comportamento das tartarugas marinhas em São Tomé e Príncipe.

«Entrei na protecção e conservação das tartarugas marinhas em 1996. Na altura um biólogo do Corpo da Paz, precisava de um santomense para fazer o estudo, e eu ofereci-me», precisou.

A mudança da mentalidade, e dos conceitos tradicionais sobre o consumo da carne da tartaruga, começaram a ser realidade. Mudança de mentalidade que deu a Hipólito Lima, outra história de vida. O filho do grande caçador de tartarugas, afirmou – se como o grande protector da espécie.

«Desde 1996 até 2003, estivemos a lutar contra tudo e contra todos», frisou. Uma luta difícil, porque segundo Hipólito Lima, neste período nem sequer existia uma legislação que regulamentasse a caça das tartarugas.

«Só quando apareceu a lei 8/2004 de proibição de consumo da tartaruga, é que as acções de sensibilização das populações começaram a evoluir no terreno…», pontuou.

Barreiras e muitos choques aconteceram durante a caminhada pela protecção das tartarugas. «É um trabalho em que se confronta com muita zanga dos populares, e até mesmo situações de ódio».

Hipólito Lima acrescentou que «continuo a ter obstáculos, já me prometeram morte, já me atiraram com pedra, tudo por causa das tartarugas marinhas…..Mas hoje sinto que tenho uma família de protecção das tartarugas marinhas a crescer em São Tomé e Príncipe».

Pela protecção das tartarugas marinhas, Morro Peixe ganhou um líder comunitário. O vencedor do Prémio Príncipe Willian de Conservação Ambiental em África, explicou para o Téla Nón que para além de Morro Peixe, também lidera o movimento proteccionista do ambiente marinho, em todas as comunidades piscatórias onde a espécie desova, nomeadamente Micoló, Santana, Ilhéu das Rolas, etc. No fundo o combate de Hipólito Lima, tem permitido o aumento do efectivo do exército de protectores da espécie.

O prémio que destaca o seu papel como líder comunitário, abre caminho para o desenvolvimento sustentado de São Tomé e Príncipe. « Com essa informação que está a circular sobre o Prémio que o senhor Hipólito ganhou, acredito que vai motivar todos os santomenses», pontuou.

Hipólito Lima, espera também que o prémio desperte «os nossos governantes, que nos dê uma mão, para que as tartarugas marinhas sejam protegidas», concluiu.

O Téla Nón coloca a disposição do leitor uma parte da entrevista concedida por Hipólito Lima, em registo audio, assim como um registo em vídeo da atribuição do Prémio.

ENTREVISTA de Hipólito Lima

 

VÍDEO DO PRÉMIO CLIQUE SOBRE O LINK – https://www.tuskawards.com/hipolito-lima-2020/

Abel Veiga

    5 comentários

5 comentários

  1. Jorge Carvalho

    7 de Dezembro de 2020 as 16:49

    Parabéns senhor Hipólito. A nossa luta não para por aqui. Temos que nos afirmar mais e melhor nesta causa. O nosso País vai precisar muito das tartarugas marinhas para o desenvolvimento do turismo e consequentemente da economia da Nação. Só com um ecossistema marinho saudável poderemos alcançar este desafio.
    Um forte abraço meu caro Hipólito Lima.

  2. Mepoçon

    7 de Dezembro de 2020 as 17:36

    Valeu a pena não associar a corrupção, dedicou-se a causa do ambiente. Seria bem que muitos seguissem o seu exemplo, protegendo a nossa floresta, a nossa orla costeira, com a consequência de extração de areia sem controlo, etc…

  3. Marlene

    7 de Dezembro de 2020 as 21:17

    É muito bom ver reconhecido internacionalmente alguém que não aparece na tv a fazer show off, mas que sombra faz um trabalho maravilhoso que é preservar ou ajudar a preservar a existência de um ser vivo que embora a maioria possa desvalorizar faz parte do.nosso mundo. Um ser que poderá ser conhecido por gerações vindouras. Pessoas como o Sr. Hipólito fazem- me sentir um orgulho enorme de ser santomense. Parabéns e um bem haja

  4. Reto Scherraus-Fenkart

    9 de Dezembro de 2020 as 19:24

    francamente, não sei como eles foram descobrir este Senhor… mas acertaram em cheio… sinto-me honrado e feliz por poder contar há anos este protector das tartarugas como meu amigo e felicito-o, por esta via, mais uma vez, porque o abraço pessoal já lhe tenho dado há tempos… BOA CONTINUAÇÃO DESTA OBRA..!!!

  5. Jorge Carvalho

    10 de Dezembro de 2020 as 8:36

    Muito bem, ontem acompanhei o telejornal da TVS e o senhor Hipólito foi homenageado por Sua Excelência Senhor Primeiro Ministro e Chefe do Governo num ato simbólico no Palácio do Governo pelo reconhecimento recebido do prémio Príncipe Willian de Conservação Ambiental em África.
    Recordamos que este prémio também é extensivo a toda equipa de protecção das tartarugas marinhas que com o senhor Hipólito Lima, têm dado de tudo pela conservação desta espécie animal e a luta pela reconversão dos grupos que viviam de certo modo com esta espécie animal (captura, comercialização da carne, ovos e uso das escamas para fins de confeção de joias).
    A ONG MARAPA e o Programa Tatô, agradecem ao Governo da Republica por este reconhecimento.

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