Opinião

GUINÉ BISSAU – Um Povo Heróico, com desafios Heróicos 

Os antecedentes e a forma como decorreram as ultimas eleições na Guiné Bissau provaram que a CEDEAO estava certa quando unilateralmente decidiu correr riscos, suportando um governo na Guiné Bissau fora de um quadro institucional normal há dois anos atrás. O processo eleitoral que só ficará concluído com a segunda volta presidencial, foi o mais participado na história da Guiné. Teve ainda a particularidade de que pela primeira vez os resultados não foram contestados e unanimemente aplaudidos. Os resultados, embora ainda sem os da segunda volta presidencial, aparentam significar uma mudança, na forma de fazer política, pelo menos a avaliar pela liderança do partido vencedor e as figuras dos dois candidatos mais votadas para a presidência da república. Os desafios para a futura governação são enormes. Se por um lado o partido vencedor e em função da maioria absoluta atingida pode formar um governo seu, por outro, parece que em prol da estabilidade na governação, o partido vencedor ver-se-á obrigado a integrar na equipe de governação as diferentes senbiilidades políticas, incluindo as forças sem representatividade parlamentar. A Guiné Bissau é um puzzle étnico com uma população maioritaria Balanta 36%, Fula 30% e os restantes 34% distribuídas pelas outras etnias, com a particularidade ainda da comunidade religiosa muçulmana ser a maior. Contudo, mesmo com esse puzzle difícil de gerir, sempre existiu uma tolerança ética na Guiné Bissau, tendo o falecido presidente Nino o mérito de ter granjear o respeito dos Balantas, comunidade com código de honra próprio, e de características espartana. Foram os Balantas, dada as suas particulares características, os que mais guerrilheiros forneceram à luta armada, razão pela qual ainda hoje mais de 80% dos efectivos do exército são da etnia Balanta. Os Balantas, pese estarem em maioria incluindo no exército, nunca estiveram no poder até a chegada do recém falecido presidente Kumba Yalá, quem assumiu o barreto vermelho como sua imagem de marca. Note-se que este é o símbolo da etnia Balanta. Kumba Yalá, intelectual de referência, apesar de todos os defeitos e virtudes, foi um homem que no seu tempo, nunca chegou a ser bem compreendido. Bem verdade, o seu pensamento representava uma anti-tese dos interesses ocidentais em África. Dois candidatos disputarão a segunda volta das presidenciais, Nuno Gomes Nadian – jovem engenheiro, de etnia Balanta, candidato independente cujo apoio único conhecido foi a confiança depositada nele pelo falecido ex-presidente Kumba Yalá quem foi a enterrar com honras de estado no passado dia 25 de Abril. João Mário Vaz – candidato do PAIGC, antigo ministro das finanças do governo de Carlos Gomes Junior e presidente da câmara de Bissau. A sua candidatura quase foi chumbado devido a um suposto envolvimento em caso de corrupção, factor que nada pesou para os votantes. Pesou sim o seu trabalho quando presidente da câmara e ministro das finanças admirado pelo desempenho e cumprimento das promessas. Para a segunda volta, este ultimo leva vantagem. Tem apoio do partido mais votado, quando o outro terá o apoio do segundo partido mais votado, o PRS- Partido da Renovação Social. Qualquer dos resultados, é o fim de um ciclo político na Guiné. Desta vez quer no governo quer na presidência, ninguém é conotado com a história de sangue e golpes de estados na Guiné Bissau. Para o futuro fica a responsabilidade da reposição deste puzzle étnico a trabalhar para a Guiné Bissau e para os guineenses como o fizeram no passado. Dois grandes desafios imediatos pós eleitorais – As Forças Armadas e o exército, no plano interno – Diplomacia Inteligente , no Plano Externo A reforma nas forças armadas deve passar por deixarem estas de serem o elemento coagidor do poder político, mas sim um elemento estratégico do governo para a defesa da soberania e independência nacional. Em ultima instância, os novos dirigentes necessitarão de coragem e sabedoria para mudar o que está mal no exército, para mudar a direcção das chefias militares, dando-lhes condições condignas e vantajosas, onde não exista perdedores nem vencedores. A Guiné Bissau tem a felicidade e mérito de ter excelentes novos quadros militares, habituados a respeitarem códigos de conduta. Será fundamental no plano estratégico, que o governo guineense com o apoio da comunidade internacional, crie e apoie projectos empresariais sustentáveis para os militares que venham a ser desmobilizados no quadro de uma reforma generalizada. Na diplomacia, privilegiar e estar atenta às relações com Senegal e outros países vizinhos. Qualquer desenvolvimento na Guiné Bissau pode ameaçar ou mesmo desestabilizar economias vizinhas. Por exemplo os países da região sem portos são abastecidos através do porto de Dakar, logo, um porto funcional como o projectado para Buba pode significar o asfixiar de outras economias. Importante será a Guiné Bissau procurar o seu desenvolvimento num quadro de entendimento com os países vizinhos e negociados com os parceiros regionais. A Guiné Bissau tem cartadas, conhecidas. Não foi por mero acaso o envolvimento da comunidade internacional nestas eleições. O petróleo, a bauxita, o fosfato, o ouro, diamante e outros minerais pesados despertam apetências e cobiças. O ter ou manter influências em economias potencialmente fortes ou em regiões geoestratégicas interessantes, impõe por vezes doses de habilidades acima das reais capacidades. Se os guineenses saíram airosos nas batalhas adversas nos anos 70, é certo que saberão com inteligência extraordinária ultrapassar as dificulidades de hoje. Danilo Salvaterra

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